Micromobilidade elétrica: Qual será a “espécie” vencedora?

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Micromobilidade elétrica: Qual será a “espécie” vencedora?

Bicicletas, patinetes, monociclos: o florescimento desse mercado nos remete a outras épocas e a segmentos de produtos que hoje fazem parte das nossas vidas


26 de julho de 2019 - 18h36

(Crédito: Marek Rucinski/Unsplash)

Produtos podem ser um bom indicador de transformações da sociedade. Os veículos elétricos de micromobilidade refletem as mudanças que os cenários urbanos vêm sofrendo na contemporaneidade, como o crescimento da cultura de compartilhamento, a crise do modelo de transporte que moldou as metrópoles no século XX e a revalorização dos deslocamentos não motorizados. Porém, isso é assunto para outro artigo.

A movimentação mais significativa do conceito de mobilidade nos dias atuais é a constatação praticamente unânime de que não existe um meio de transporte milagroso. Uma cidade boa para se deslocar é aquela que possibilita o uso de diversas alternativas de mobilidade e acomoda estes usos de forma integrada. Para isso, é importante reconhecer a vocação de cada tipo de deslocamento e mapear onde existe falta de cobertura na cidade.

Uma carência muito comum é a de soluções para o deslocamento dos usuários de ponta a ponta, ou seja, do seu ponto de origem até uma estação de trem, metrô ou ponto de ônibus e, numa segunda etapa, seu deslocamento até o destino final. Estas distâncias, de origem e destino, estão entre os grandes defeitos do transporte coletivo e são um dos maiores motivos para as pessoas acabarem aderindo ao uso dos carros.

Dessa lacuna, surgiu uma oportunidade de mercado para a disseminação dos veículos elétricos portáteis. Até poucos anos atrás, eles eram vistos como brinquedos para crianças, soluções voltadas a deficientes, serviços corporativos etc, mas a partir do avanço das tecnologias de transporte elétrico e da cultura de compartilhamento, eles encontraram uma oportunidade para se espalhar pelas cidades. A categoria concorre com as formas de deslocamento não motorizadas, mas tudo indica que existe espaço para ambas, a depender da disposição dos usuários e dos desafios de cada traslado.

O atual momento do mercado da micromobilidade elétrica é muitíssimo interessante e nos remete a outras épocas da história, e a outros segmentos de produtos que, hoje, fazem parte das nossas vidas.

Traçarei aqui um paralelo com os celulares da era pré-Iphone: quando um produto nasce, ele normalmente é inspirado em um produto antecessor, fenômeno este, ao qual chamamos de analogia formal. Foi assim com os carros, que no início “emprestaram” a forma das carroças, e dos celulares, que partiram do telefone sem fio. No caso dos celulares, com o tempo sua forma foi se modificando a partir da miniaturização dos componentes e conforme eles foram assumindo novas funções. Na primeira década deste milênio, observamos uma verdadeira corrida para se tentar criar um modelo compacto, que desse conta das múltiplas funções embutidas no que se passou a chamar de smartphones.

Provavelmente, o maior desafio desses aparelhos foi criar uma maneira, minimamente confortável, de escrever textos. Na disputa, haviam concorrentes que acreditavam em uma hipótese e a propagavam como a melhor solução, como a Palm e sua canetinha, ou o Blackberry, com seu mini-teclado. Havia também a Nokia, que atirou para todos os lados, tentando até as opções mais esdrúxulas. Também, com quase 40% do mercado na época, era fundamental tentar prever todas as possibilidades para não correr o risco de perder a batalha.

Eis que, em 2007 surge o Iphone, empacotando todas as interações de forma tão eficiente que, do dia para a noite, todas as outras possibilidades se tornaram obsoletas e, as três competidoras acima citadas acabaram saindo da briga. Hoje, a forma padrão de um celular segue idêntica àquele Iphone de 12 anos atrás e é quase impossível diferenciar os modelos sem olhar a marca. O mundo dos celulares é, hoje, mais monótono do que antes e o bloco com tela multitouch segue onipresente, até que uma nova espécie ouse desbancá-lo.

No entanto, existem outras espécies de produtos diante das quais a seleção natural, ou melhor, a seleção do mercado ainda não definiu qual é o mais apto a sobreviver. Creio que este seja o caso dos veículos elétricos de micromobilidade urbana e, por isso, é tão empolgante acompanhar de perto esse processo (será que biólogos também se interessam por isso?).

Além das opções que já estão pipocando por aí a cada dia (bicicletas elétricas, patinetes elétricos, monociclos, diciclos…), muitos outros modelos vêm surgindo e, talvez, o vitorioso ainda nem tenha nascido. Tudo indica que os próximos anos desta batalha serão empolgantes e determinantes. A única certeza é que, em breve, iremos dar risada de muitos competidores, assim como, hoje, rimos de alguns celulares jurássicos que foram eliminados do planeta pelo meteoro, ops, Iphone!

*Crédito da imagem no topo: Smartboy10/iStock

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