O trabalho em uma vida de 100 anos

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O trabalho em uma vida de 100 anos

20% dos brasileiros declaram estar trabalhando sob forte pressão emocional e cerca de 32% dos trabalhadores sofrem com os efeitos do stress


3 de fevereiro de 2020 - 11h00

(Crédito: Iankogal/ iStock)

O desejo da vida eterna é expresso pela humanidade desde seus primórdios. Seja pelos dilemas de Zeus na mitologia grega, na busca pelo Santo Graal ou em personagens clássicos e ainda atuais, como os vampiros. Parece que estamos quase lá. A expectativa de vida humana aumenta três meses a cada ano que passa. A expectativa de vida era de 47 anos no início do século 20, sendo que hoje metade das crianças que nascem tem 50% de chance de viver até os 105 anos.

A longevidade se coloca como uma das grandes questões sociais dos próximos 30 anos. Em Stanford, o centro Longevity’s New Map of life, que tem como objetivo suportar as pessoas para que vivam vidas de alta qualidade, já atua mapeando novos modelos de educação e aprendizagem, explorando novas políticas de saúde e trazendo insights sobre como podemos redesenhar nossa relação com o trabalho.

Este redesenho passa, para mim, pela tese de Lynda Grattow e Andrew Scott, autores de The 100-Year Life, que apontam três importantes conjuntos de assets que devemos alimentar ou adquirir num futuro próximo. No primeiro grupo, citam os assets relacionados à produtividade: garantir nossa reputação pessoal, investir em conhecimento e no desenvolvimento de novos skills, por exemplo.

No segundo conjunto, incluem os assets relacionados à transformação: autoconhecimento e abertura para novas experiências, uma vez que encerrar e abrir novos ciclos serão atividades muito mais frequentes nas nossas vidas. E, por último, os assets que nos garantem vitalidade. Aqui, as relações pessoais têm um importante papel e impacto comprovado: um estudo realizado com sete mil pessoas, durante nove anos, não deixa dúvida: aquelas que levam vidas extraordinariamente longas são as que mantêm relacionamentos estreitos.

Como asset de vitalidade, podemos considerar, também, a relação que temos com a nossa saúde e mente. E o trabalho aqui é uma moeda com dois lados. Segundo dados coletados pela VIttude, plataforma online com foco em saúde mental, 20% dos brasileiros declaram estar trabalhando sob forte pressão emocional. Além disso, cerca de 32% dos trabalhadores brasileiros sofrem com os efeitos do stress — um dos primeiros sinais da síndrome de Burnout —, segundo a International Stress Management Association (Isma-BR).

Não há dúvida, independentemente do ângulo que se investigue, que o capital humano é, e será ainda mais no futuro, o recurso mais valioso para as empresas, mas que, ao mesmo tempo, ainda temos muito o que avançar em relação a esse tema. A frase “amigos, amigos, negócios à parte” é apenas uma das expressões que sempre circularam no mundo corporativo propagando a ideia (antiga) de que negócios e emoções não se misturam. A separação entre pessoa jurídica e física ou momentos de trabalho e lazer começou a deixar de fazer sentido desde que o ambiente fabril (somente com trabalho operacional e cartão ponto) deu lugar às organizações e surgiram trabalhos com demandas mais intelectuais e/ou criativas. Quem nunca se pegou trabalhando em um almoço de família ou sentiu sua produtividade afetada no trabalho por questões pessoais?

Emoção e trabalho não só se misturam como são indissociáveis. Se, de um lado da moeda do trabalho, temos efeitos negativos que esta tentativa de “departamentalização” pode causar, de outro temos os benefícios. Estes, que estrategicamente deveriam ser mais e mais acessados, referem-se à capacidade que um trabalho que nos faz feliz tem de nos motivar, contribuir para nossa autoestima, abrir nosso campo de relacionamentos e nos desafiar intelectualmente, mantendo nossa mente ativa. Para isso, precisamos repensar. Abandonar relações antigas em prol de novos modelos, trazer para a mesa valores como flexibilidade, equilíbrio, confiança. Não tenho dúvida que é por aí o caminho para atribuirmos ao trabalho o papel que lhe cabe na sociedade do futuro: o de antídoto (e não de agravante) aos possíveis males que uma vida quase eterna pode nos trazer.

*Crédito da foto no topo: Scott Webb/Pexels

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