A última pauta

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A última pauta

Ainda assim, se algumas pessoas escutarem e entenderem, já terá valido


10 de março de 2020 - 10h40

(Crédito: Feodora Chiosea/ iStock)

No último ano, como diretora-geral da agência, fui agraciada com o interesse pela minha opinião a respeito de diversos temas, mas, principalmente, sobre liderança feminina. Tornaram-se recorrentes perguntas como: O que as mulheres trazem de diferencial para o universo dos negócios? Qual a diferença entre liderar uma empresa sendo mulher? E outras questões afins.

Isso me fez refletir sobre o quanto o machismo estrutural é dominante e invisível até mesmo para nós, mulheres. Ninguém pergunta a um homem o que ele traz de diferencial para uma mesa de negócios por ser homem. Ou se negociar com homens é mais fácil, ou como é liderar uma empresa.

A curiosidade das pessoas está mais relacionada à raridade da minha posição do que à minha visão como uma liderança de um negócio. Virei pauta por ser mulher.

Mas isso não me desencorajou e me fez perceber que não devo desperdiçar esse privilégio, não pelo meu gênero, mas pelo esforço, para demonstrar a cada oportunidade como esse viés de percepção precisa ter fim. O que só acontecerá quando não for tão rara e notável a presença de mulheres em posições ocupadas predominantemente por homens.

O que trago de diferencial na liderança é o que sou como profissional. É minha história de sucessos, fracassos e aprendizados. Minha competência, meu comprometimento, minha visão do mercado e a maneira como posso atuar nele de forma construtiva e transformadora. São as relações que construí nessa jornada.

A discussão fica muito séria, porque não é apenas sobre ser mulher. Ela se desdobra em outras complexidades que desvendam a face mal dissimulada do sexismo, do racismo, da homofobia, do preconceito de classe social, do preconceito contra mães-solo, contra pessoas acima dos 50 anos.

Apesar de tudo, o mundo de hoje é um mundo melhor. A maneira como a comunicação se transformou com a hiperconexão e as redes sociais ligou um estridente alto-falante, que amplifica as vozes de cada pessoa prejudicada por ser mulher, por ser gay, por ser negra etc. e torna cada vez mais difícil ou impossível ignorar suas reivindicações. O que é uníssono em todos os clamores é o direto à igualdade de condições, que é um direito humano. Ponto.

A natureza dos ecossistemas é o equilíbrio. Ainda que o equilíbrio ecológico tenha um caráter dinâmico, uma vez que é submetido às relações constantes entre os seres vivos, sua destruição causa a extinção de espécies e coloca em risco o desenvolvimento pleno das pessoas e da sociedade. É o equilíbrio que devemos perseguir e proteger, como condição de garantirmos um mundo e um mercado melhor para as gerações futuras.

A beleza irônica desse dilema é que o acesso aos menos privilegiados só pode ser dado por quem já o tem. Admitir nossos vieses é o primeiro passo da mudança. Nós nos entendermos machistas, racistas, homofóbicos, preconceituosos em relação ao que nos é oposto ou distinto, e nos sentirmos incomodados, é o que nos tornará, de fato, agentes efetivos na busca pela erradicação dos preconceitos e o atingimento do equilíbrio necessário.

É urgente que trabalhemos agora nas empresas, em todos os níveis, na inclusão de toda uma geração por força de programas estruturados e de políticas corporativas apoiadas pelas lideranças, e não apenas pela nossa boa-vontade, e muito menos para atrair atenção e pauta. Precisamos criar nossos homens prontos para compreender as mulheres legitimamente como iguais. É esse mundo que eu desejo. Um mundo em que nenhuma mulher precise responder qualquer pergunta que não seria feita a um homem na mesma posição.

Por conta dessa franqueza, talvez essa seja minha última pauta. Ainda assim, se algumas pessoas escutarem e entenderem, já terá valido.

*Crédito da foto no topo: Gearstd/iStock

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