O tempo da imitação acabou

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O tempo da imitação acabou

A realidade que está em curso agora é, sim, transformadora e está acelerando mudanças irreversíveis de paradigmas e visões de mundo


7 de abril de 2020 - 10h36

(Crédito: Bestdesigns/ iStock)

Nas últimas duas décadas, acelerar mudanças tem sido uma expressão recorrente para descrever o desenrolar das transformações que têm varrido o planeta.

Muita coisa já foi dita sobre a velocidade com a qual o mundo deveria mudar nesta primeira metade do século 21, previsões e tendências nem sempre confortáveis como aquelas relacionadas ao esgotamento do planeta, à migração em decorrência de questões climáticas, ao surgimento de vírus e bactérias desconhecidos e ao desemprego em massa. Tudo convivendo com a visão de um futuro onde o medo da escassez é substituído pela sensação de abundância proporcionada por um tipo de desenvolvimento científico-tecnológico capaz de reconhecer necessidades individuais, alimentar o planeta sem causar danos ambientais, desenvolver diagnósticos e remédios individualizados, possibilitar o surgimento de uma economia baseada na colaboração e na construção do bem comum.

A visão de que a humanidade certamente ainda viveria a escassez, em proporções inimagináveis, antes que a abundância se fizesse presente sempre pareceu a mais provável e encontrar caminhos capazes de diminuir a incidência desses momentos e o sofrimento decorrente deles tem sido uma discussão frequente, geradora de iniciativas envolvendo governos e empresas em todo o mundo. Um ponto comum em todas as discussões que têm ocorrido está diretamente associado à revisão dos modelos que sustentam a ideia de que o crescimento econômico gera, como resposta automática, a redução da desigualdade e o bem-estar social (uma tese equivocada e derrubada nos últimos 30 anos quando vimos o PIB global triplicar enquanto a desigualdade e outros riscos globais cresciam exponencialmente).

Em comum, a existência de uma consciência planetária de que algumas medidas extremas deveriam ser urgentemente tomadas caso a raça humana pretendesse, de fato, resistir como espécie. Para as teorias relacionadas à singularidade, essas medidas estão relacionadas ao desenvolvimento exponencial da tecnologia, à análise do horizonte de previsão e à evolução da inteligência artificial para um lugar de ‘superinteligência’ capaz de resolver tudo. Para as teorias relacionadas ao desenvolvimento humano, as práticas meditativas, a interdependência e a ampliação da consciência individual e coletiva como capaz de resolver tudo.

Muita coisa já foi dita sobre o que poderia ou não acelerar as mudanças imaginadas ou desejadas por pensadores e realizadores, estudiosos, desenvolvedores, criativos, líderes de negócios, comunidades, mas nada chegou nem perto da ideia de que as mudanças seriam aceleradas pela chegada de um vírus capaz de desfazer o tempo.

‘O mudo parou’ e isso é o que ouvimos e vemos por todos os lados. Cidades vazias, ruas silenciosas, rotinas interrompidas, planos paralisados. ‘Todo dia parece o mesmo dia’ é o que ouvimos nos diferentes compromissos diários que cumprimos sem mudar a referência de espaço. A percepção de tempo até então alcançada pelo senso comum, essa que é derivada de nossos sentidos e percepções a partir da repetição de eventos que funcionam como referências e marcadores, está em transformação. Talvez estejamos caminhando para confirmar na prática a afirmação de Einstein de que o tempo é uma persistente ilusão. Talvez simplesmente estejamos alterando nossa percepção de continuidade, nossa distinção entre passado, presente e futuro, nosso hábito de conceber e valorizar o tempo por meio de períodos de duração. Talvez estejamos a caminho de conquistar algo que o senso comum jamais imaginou existir e que é cedo demais para falar a respeito.

A realidade que está em curso agora é, sim, transformadora. Mais que isso, está acelerando mudanças irreversíveis de paradigmas e visões de mundo, algumas delas relacionadas a debates que conhecemos, presentes em tendências de longo prazo que estão se estabelecendo há mais de duas décadas. De qualquer forma, os sentimentos, experiências e decisões relacionadas à pandemia Covid-19 estão redefinindo, de forma acelerada, o modo como pensamos, como nos relacionamos com os outros e como definimos o que tem valor.

A falta de padrões e referências anteriores, o volume de informações contraditórias disponíveis, o medo simultâneo da morte e das consequências econômicas imediatas e de longo prazo da pandemia e a escassez de líderes firmes e tranquilizadores nos coloca em um período de incerteza difusa. E é nesse lugar que lutamos para confiar e sentir que estamos seguros enquanto nos descobrimos impossibilitados de controlar, de eliminar ou mesmo reduzir, incertezas, riscos ou salvar resultados.

Como consequência, uma revisão de valores que altera nossa percepção do que, de fato, é necessário e prioritário. Neste momento, já estamos percebendo a realidade e agindo a partir da consciência de que dependemos uns dos outros e de que estamos todos interligados delimitando um sentido, um significado para a crise que enfrentamos. A agenda pessoal está sendo substituída pela criação de laços comunitários. A busca pela independência está dando lugar à consciência de que precisamos uns dos outros. A competição está dando lugar à colaboração e a priorização do lucro à priorização da vida. O fascínio pelo sucesso financeiro e pelo status social está dando lugar à admiração e respeito pelo mais simples ato de bondade, generosidade e entrega.

É tempo de observar e aprender, hora ancorado no conhecimento anterior hora simplesmente em um movimento não ancorado em nada além do nosso desejo de explorar nossas potencialidades, descobrir quem somos e encontrar tudo o que podemos ser. Do ponto de vista do comportamento, o tempo da imitação acabou, é hora de recusar as fórmulas e padrões, de ver sem fazer escolhas, sem tentar localizar o que tem ou não valor, o que deve ou não ser considerado definitivo, o que é ou não capaz de atender a nossa necessidade de respostas rápidas. Está aberta a era da construção, aproveite.

*Crédito da foto no topo: Audioundwerbung/ iStock

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