Facebook: os novos rumos

Buscar

Opinião

Publicidade

Facebook: os novos rumos

Em tempos de transformação digital, as redes devem também se reinventar, mantendo fórmulas vencedoras e aparando as arestas do ódio destilado por suas plataformas


31 de julho de 2020 - 8h06

(Crédito: Pixabay)

O boicote de anunciantes globais ao Facebook (Stop Hate for Profit), iniciado no fim de junho, deve ser analisado com muita cautela e considerando alguns pontos de vista. Em especial, para consumidores, marcas e, claro, para o próprio Facebook. A causa é muito justa: evitar a propagação de conteúdos racistas e discursos de ódio.

Pesquisas realizadas nas mais diversas partes do mundo apontam que a imensa maioria dos consumidores prefere comprar de marcas socialmente responsáveis e sustentáveis. Os jovens puxam a fila do consumo politicamente correto, principalmente em um país como Brasil, em que 24% da população faz parte da chamada geração Z (nascidos entre 1999 e 2019), logo atrás dos millennials (entre 1981 e 1998). São essas duas gerações que vão ditar o consumo para as próximas décadas e influenciar nossos filhos e netos.

Um bom paralelo ao que estamos vivendo hoje é a própria evolução das mensagens publicitárias, subliminares ou não. Basta lembrar como a mulher era retratada no século passado, até meados dos anos 90. Ou mesmo a exclusão de negros em campanhas até bem pouco tempo.

Felizmente, a sociedade evolui e as marcas rompem essas barreiras. Mesmo assim, não há muito o que comemorar (embora já tenha sido bem pior!) quando se sabe que racismo ainda está enraizado em parte de nossa sociedade e que a violência contra a mulher não para de crescer. Só na pandemia, as denúncias para o canal 180 cresceram 40% em abril, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. No mesmo mês, os casos de feminicídio aumentaram 22%, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

As marcas estão atentas a tudo isso e é natural que se movimentem. Já são mais de 600 anunciantes em todo o mundo que, no período de boicote, devem deslocar seus investimentos para outras ações de marketing digital ou, em alguns casos, pode até mesmo representar um corte providencial em meio a uma contenção de despesas.

Para ser socialmente responsável é fundamental que cada marca se aproxime do seu público por meio de uma comunicação clara. E isso vai muito além de ofertar produtos no seu feed de notícias. O boicote dá a cada uma dessas marcas exatamente o que elas precisam para legitimar suas políticas e práticas inclusivas junto aos consumidores. No entanto, é curioso notar que o boicote diz respeito, para boa parte desses anunciantes, apenas às ações de publicidade nas redes. Organicamente, seguem postando nas páginas corporativas, sem controle de quais feeds esse conteúdo está sendo atrelado.

Na outra ponta, o Facebook reconhece sua responsabilidade e admite trabalhar para erradicar os discursos de ódio na plataforma. Com a pressão dos anunciantes, é possível que esse processo seja acelerado, como já se percebe nas recentes ações no Brasil. De qualquer forma, as perdas financeiras do Facebook – não apenas o que saiu dos anunciantes mas também a queda no valor de mercado causada com o tombo nas ações – não parecem impactar tanto o negócio. Basta lembrar que há dois anos, em julho de 2018, a empresa perdeu num único dia mais de US$ 120 bilhões em valor de mercado por conta do anúncio do seus resultados financeiros do trimestre anterior. Muito acima dos quase US$ 75 bilhões de perdas de junho geradas pelo boicote, a partir do dia 22 do mês passado.

Certamente, a repercussão global do caso colocará o tema no topo das prioridades do Facebook. E no Brasil, a discussão cresce junto com outro grande tema: a necessidade de controle e segurança dos dados e a punição dos crimes de internet, em especial aqueles ligados à disseminação de fake news.

Em tempos de transformação digital (em muitos casos, de criação de uma cultura digital nas empresas), a discussão é muito oportuna. As redes, assim como qualquer outra corporação, devem também se reinventar, mantendo fórmulas vencedoras e aparando as arestas do ódio destilado por suas plataformas. O Facebook, como maior plataforma social, tem uma responsabilidade direta nessa transformação, proporcional à sua influência em todo o mundo.

*Crédito da imagem no topo: Pete Linforth/Pixabay

Publicidade

Compartilhe