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Os líderes das empresas jornalísticas ainda estão extremamente contaminados pelo DNA do impresso


22 de outubro de 2020 - 13h46

(Crédito: iStock)

No início da tarde de domingo, 27 de setembro, o sempre relevante e inovador The New York Times decretou o fim da lógica tradicional da produção de conteúdo em uma redação. Ao publicar em sua página web a reportagem Os Impostos do Presidente – Registros há muito tempo ocultos revelam perdas crônicas de Trump e anos de sonegação de impostos (leia aqui), que pode ter sido a pá final de cal no desejo de reeleição do presidente, o diário americano assumiu a postura de que acabou a reserva de mercado do impresso para todo e qualquer “furo”.

O que fez o NYT mudar uma prática que, mundialmente, é considerada verdade absoluta?

Simples. O Times entendeu que o mundo mudou. E que os argumentos de privilegiar o impresso em grandes exclusivas podem ser rebatidos.

O que poderia fazer o NYT correr para publicar essa investigação que levou quatro anos de apuração? A possibilidade de alguém “furar” o veículo, o que está absolutamente descartado. Os três repórteres que assinam a matéria-bomba tiveram todo o cuidado do mundo para não deixar o conteúdo vazar. Ou seja, a decisão não foi em função do risco de algum outro meio publicar antes, ainda mais por ser domingo.

O The New York Times publicou no início da tarde daquele domingo por três motivos:

1) Oferecer o conteúdo em primeira mão aos seus 6,5 milhões de assinantes, na hora que o conteúdo estava pronto, checado e rechecado. Nada menos do que 5,7 milhões (87,6%) dos assinantes são puramente digitais. Ou seja, deixar para publicar primeiro no papel beneficiaria os 800 mil que ainda recebem o impresso, mas prejudicaria a esmagadora maioria dos clientes;

2) A ilusão de querer vender mais exemplares nas bancas é tão verdadeira como uma cédula de US$ 3. Possivelmente o texto seria copiado do site do NYT e distribuído via redes sociais para um batalhão de piratas que, esses sim, estariam faturando alto com o “furo”. Os tempos de filas nas bancas em busca de um exemplar ficou pelo passado;

3) Quando se planeja a publicação de um conteúdo de peso antes no digital, ao mesmo tempo se pensa em como dar os próximos passos, em todas as plataformas disponíveis. O impresso do dia seguinte está “autorizado” a publicar a repercussão, mais que o fato. Mas a concorrência terá que correr para publicar o fato, checar com fontes, e ainda dar crédito da exclusiva ao The New York Times. E a edição do NYT será única, completa, com as repercussões planejadas;

A cultura do impresso, porém, é muito forte nas redações. A decisão do The New York Times não seria seguida em 99% das empresas jornalísticas do mundo. Os líderes das empresas jornalísticas ainda estão extremamente contaminados pelo DNA do impresso, o que provoca equívocos como guardar matérias acreditando na força do papel. Bobagem.

O 27 de Setembro de 2020 vai fazer escola, sem dúvidas. E, na verdade, demorou mais de mil dias para acontecer. Bastaria ter seguido o que O Globo fez em 17 de maio de 2017, quando o colunista Lauro Jardim trouxe o “furo” das gravações do empresário Joesley Batista com Michel Temer, que por pouco não derrubaram o presidente. Com enorme resistência interna – que insistia em guardar a exclusiva para o impresso do dia seguinte – O Globo publicou o “furo” no site (e no portal Globo.com) às 19h30 daquele dia. Nessa hora, os impressos do Brasil estavam em acelerado processo de fechamento, ou seja, sem “pernas” para correr atrás de algo mais do que confirmar o fato. A matéria, porém, entrou no Jornal Nacional, da TV Globo, e foi um escândalo: sempre com créditos ao jornal O Globo.

As gravações de Joesley provaram, três anos antes do que nos Estados Unidos, que uma boa matéria – com planejamento – pode sair antes nas plataformas digitais. O impresso de O Globo, no dia seguinte, trabalhou a repercussão, a opinião, a análise. E foi fundamental, gerando novas assinaturas. Um golaço.

Seria muito bom que essa cultura fosse recorrente, mas, por enquanto, trata-se de exceção. Quando o cliente-leitor/usuário for tratado como o objetivo dos veículos, talvez isso vire regra. Ainda vai demorar um pouco, talvez uma geração de líderes de redações.

*Crédito da foto no topo: Ajwad Creative/iStock

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