Cristiano pede água

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Cristiano pede água

A Coca-Cola investe na Euro há 30 anos, assim, o problema em tirar as garrafas da mesa não é moral, mas sim contratual


21 de junho de 2021 - 14h21

(Crédito: Reprodução)

Era para ser uma simples conferência de imprensa na véspera da estreia da Seleção Portuguesa de Futebol na EURO, a competição continental da Europa. Mas quando Cristiano Ronaldo decidiu retirar as garrafas de Coca-Cola e Coca-Cola Zero que estavam sobre a mesa, escondê-las e dizer para a imprensa “tomar água” ao invés de Coca-Cola, tudo mudou.

As cenas rodaram o mundo nos dias seguintes, mas ninguém prestou muita atenção nas perguntas e respostas, razão principal daquele evento. Todos só falavam de Cristiano Ronaldo e Coca-Cola.

Não demorou muito para os especialistas no marketing esportivo, especialistas em branding e especialistas em Coca-Cola publicassem as suas teorias sobre como aquilo foi bom, como aquilo foi ruim, como ele influencia o comportamento, como a marca perdeu valor de mercado etc. Na falta de informações, o vídeo se tornou um território fértil para as fake news.

Como conhecedor do marketing esportivo, de branding e de Coca-Cola (apesar de não ter mais nenhuma ligação com a empresa), acabei entrando na onda e falando muito sobre o assunto com amigos nas mídias sociais nos últimos dias. Aqui estão algumas reflexões.

A relação da Coca-Cola com a UEFA é antiga e profunda. A empresa investe na Euro há trinta anos e ajuda muito o evento, não só financeiramente, mas também na sua organização. Os bares e restaurantes dos estádios nessas décadas de parceria funcionaram bem graças ao seu esforço e ao dos seus fabricantes. Isso sem falar na promoção pesada em mercados europeus e internacionais.

A presença daquelas duas garrafas nas conferências de imprensa não é acidental, mas sim um direito comum em contratos de patrocínio de diferentes marcas em diferentes categorias. A sua visibilidade tem muito valor e é um direito que os organizadores do evento têm a obrigação de preservar, assim como qualquer outro.

Assim, o problema em tirar as garrafas dali não é moral, mas sim contratual.

As seleções classificadas aceitam antecipadamente a presença dos patrocinadores, parceiros de mídia, e outros envolvidos. Todas têm obrigação de fornecer jogadores para as conferências de imprensa e entrevistas. Todos eles sabem que a Coca-Cola é uma das patrocinadoras. Afinal, a maioria dos jogadores das 24 seleções disputando a Euro nasceram quando a Coca-Cola já patrocinava a Euro. Todos só conhecem a Euro com o patrocínio da marca.

No caso particular do Cristiano Ronaldo, que jogou por anos no Real Madrid e joga na Juventus, ambos clubes patrocinados pela Coca-Cola, causa ainda mais estranhamento o seu gesto.

O mistério que jamais resolveremos é porque um jogador com a experiência profissional dele resolveu atacar uma marca em público, sabendo que o que ele fazia estava errado. Para agravar o caso, CR7 já foi patrocinado pela marca, quando jogava em Manchester. O que ele fez está errado e o impacta negativamente mais do que à marca.

Uma das notícias muito divulgadas nos dias seguintes foi a de uma potencial queda no valor das ações da Coca-Cola Company em decorrência do ato de Ronaldo. Alguns sites internacionais importantes e respeitados – ESPN, The Guardian, Marca – e nacionais – G1 e Exame – publicaram matérias que afirmavam que a queda aguda do preço das ações se devia ao gesto do jogador. Uma análise superficial e irresponsável, que não levou em conta que todo o mercado caiu no dia 15 de junho (outras empresas de tecnologia caíram ainda mais que a Coca-Cola). O ditado “nunca deixe a verdade atrapalhar um boa história” nunca foi tão verdadeiro como neste caso.

Como não existe relação da Coca-Cola com o Cristiano Ronaldo nem com a Seleção Portuguesa de Futebol, é improvável que a empresa e Federação ou jogador tenham se comunicado após o incidente. A UEFA tem a obrigação de intermediar essa conversa e pedir uma retratação para a Federação Portuguesa de Futebol. Se isso acontecerá ou não, saberemos nos próximos dias.

No final, a crise que tentaram criar não colou. Como todas as bebidas disponíveis na competição são da Coca-Cola (refrigerante, água, suco, chá etc.), Cristiano Ronaldo acabou fazendo o que todos os consumidores fazem no seu dia a dia: escolhendo o que ele mais gosta de beber. Há pessoas que gostam de refrigerantes e outras que não. Cada um com seu gosto. No caso dele, que seja feliz bebendo água ou alguma das muitas outras opções que a empresa oferece.

O que ficou evidenciado com esse incidente é que Cristiano Ronaldo pode influenciar muita gente na moda e comportamento, mas quando o assunto é o mercado de ações, a sua opinião vale tanto quanto a minha ou a sua.

Garçom, uma Coca-Cola Zero, por favor!

*Crédito da foto no topo: Gremlin/Getty Images

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