Um Token para chamar de meu

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Um Token para chamar de meu

Embora tenha animado fãs do esporte e muitos clubes, por ser uma nova fonte de receita, contratos com empresas de Fan Tokens devem ser analisados com cautela


30 de agosto de 2021 - 14h33

(Crédito: Obayada PH/Unsplash)

Uma nova categoria de produtos dominou o mercado de patrocínios esportivos nos últimos meses: os Fan Tokens. No Brasil e no exterior, empresas desconhecidas ou inexistentes há poucos meses tornaram suas marcas famosas graças à associação com o esporte, especialmente o futebol.

A promessa dos Fan Tokens é muito interessante para os torcedores.

Todos que comprarem um Token de seu time terão a oportunidade de influenciar algumas decisões do seu dia a dia. Quanto mais Tokens comprados, maior o peso de suas opiniões.

Mas antes de gastar seus valiosos reais, leiam as notas de rodapé com atenção. Sua influência não vale para as decisões realmente importantes como contratações, contratos de patrocínios e a escalação dos jogadores. Até agora, elas estão restritas a tópicos igualmente interessantes e inúteis como “Qual música deve tocar no estádio quando marcarmos um gol?”, “Qual a decoração do nosso ônibus?”, e “Vale a pena fazer uma ativação especial no Dia dos Pais?”

Apesar dos superfãs, aqueles torcedores que vão ao estádio, compram a camisa, são sócios-torcedores e consomem tudo o que seu clube faz, não verem muito valor nestas oportunidades de engajamento, outros parecem bem satisfeitos. Os torcedores que moram em outras cidades e que não tinham nenhuma forma de interagir com os seus clubes do coração a distância, adotaram desproporcionalmente os Fan Tokens.

Para os clubes, a promessa é ainda mais atraente.

Os Tokens são um “dinheiro novo” que chega aos clubes. Eles não conflitam com nenhuma outra categoria de produtos já existentes, oferecem ganhos imediatos na forma de bônus pela assinatura dos contratos e prometem pagamentos ainda maiores depois do lançamento. Não há como dizer não a uma oferta assim tentadora.

Com um risco aparente tão baixo e benefícios concretos e imediatos, não é surpresa a velocidade de adoção dos Fan Tokens no Brasil e no exterior. Desde o início dessa onda, uma única empresa deste setor disse publicamente ter distribuído mais de US$120 milhões para clubes ao redor do mundo, um resultado respeitável em qualquer época ou mercado.

Mas quando a esmola é demais, vale a desconfiança.

De acordo com as agências especializadas em avaliações de risco, fechar um contrato com estas empresas requer alguns cuidados especiais. Os riscos incluem litígios criminais, lavagem de dinheiro, conexões com regimes autoritários, baixa qualidade de governança corporativa e promessas de lucros ilegais. Isso acontece devido à falta de fiscalização dos órgãos reguladores dos governos na maioria dos países (em muitos casos, por ser um mercado novo, cujas regras ainda não foram criadas).

Dentre estes problemas, há dois que podem afetar diretamente os clubes:

A baixa qualidade de governança corporativa, manifestada através das estruturas acionárias incluindo várias holdings sediadas em paraísos fiscais offshore, no Caribe e Mediterrâneo, levanta as primeiras suspeitas. Apesar desta estratégia fiscal não ser exclusiva das empresas de Fan Tokens, isso significa que algumas delas pagam pouco ou nenhum imposto além de serem suscetíveis a crimes de lavagem de dinheiro. Tudo isso oferece um risco para a reputação dos clubes com elas envolvidos.

As promessas de lucro são a área mais preocupante.

Os Fan Tokens, promovidos como ferramentas de engajamento, são apresentados nos websites e aplicativos de celulares como moedas cujo valor oscila de acordo com o desempenho dos clubes. Quem vê os gráficos dos preços dos Tokens mudando todos os dias, facilmente se ilude com lucros fáceis. Isso é um problema pois a grande maioria dos Tokens não tem aprovação legal (da CVM no Brasil e SEC nos Estados Unidos, por exemplo) para funcionarem como um produto financeiro.

A crença dos investidores é que “quando o clube ganha ou contrata um grande jogador, o preço do Fan Token cresce”. Mas a verdade está longe disso. Os fatores que influenciam o preço são extremamente especulativos, fora do controle do time e, muitas vezes, não relacionados ao esporte (como por exemplo, variações no mercado das moedas virtuais).

Os Fan Tokens podem ser uma grande ferramenta para o esporte, mas precisam ser regulamentados, controlados e corretamente promovidos. Só assim todos no esporte – clubes, investidores e empresas – ganharão e estarão protegidos.

Vale a pena ficar de olho em como esse mercado evoluirá nos próximos meses.

*Crédito da foto no topo: Gremlin/Getty Images

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