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Blog da Regina

Relação assimétrica

A pesquisa encomendada pela revista GQ ao Instituto Idea, que desvendou quem é o homem brasileiro dos tempos atuais, nos leva a um lugar de angústia diante de uma verdade implacável


13 de maio de 2022 - 9h45

(Crédito: sirtravelalot/Shutterstock)

Um dos assuntos de maior repercussão nesta semana nos grupos de mulheres dos quais faço parte e com algum desdobramento na mídia foi a pesquisa encomendada pela revista GQ ao Instituto Idea em comemoração aos 11 anos da publicação, que desvendou quem é o homem brasileiro dos tempos atuais. O resultado não chega a ser surpreendente diante do contexto sócio-político atual, mas escancara uma triste realidade: enquanto a questão de equidade de gênero ganha mais espaço e iniciativas na sociedade com um aumento (ainda moderado) das mulheres em alguns espaços, especialmente no mercado de trabalho, os homens continuam no lugar onde sempre estiveram.

O movimento pela igualdade entre homens e mulheres e o fim das violências de gênero foi rejeitado por 44% dos respondentes. Cerca de um terço dos homens brasileiros (34%) diz apoiar o feminismo, enquanto 23% disseram não saber responder.

“A pesquisa escancara o óbvio (nenhuma novidade para as mulheres): o brasileiro (médio) é machista”, afirma Mauricio Moura, presidente do Instituto Idea, em análise à GQ Brasil.

Na distribuição etária, os homens de 18 a 24 anos foram considerados o grupo mais machista – o que menos apoia o feminismo, e mais cobra a virgindade da mulher. Também é o grupo que mais deseja possuir armas de fogo. Ao mesmo tempo, é o que menos se interessa pela atividade sexual – numa escala de 0 a 10 para avaliar qual a importância do sexo na vida desses homens, o grupo foi o que mais deu nota 0 e 1 na importância, colocando-o como algo dispensável ou que não faz falta.

Já no quesito autoestima, os homens dão de lavada. O levantamento indica que ao menos neste quesito, eles estão em dia. Apenas 3% dos homens se consideram feios, enquanto 47% se dizem bonitos e 44% se veem como “medianos”. Outros 6% afirmam não ter opinião formada.

Quando questionados sobre quem é o homem mais admirado de suas vidas, 7% responderam “eu mesmo”. “Certamente, esses quase 8 milhões de brasileiros que se autoidolatram não têm problema de autoestima, muito menos gastam dinheiro com terapia. Aliás, apenas 16% dizem já ter feito alguma sessão. A saúde mental, portanto, carece de atenção nesse universo masculino”, afirma Moura.

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Ideia com questionários apresentados digitalmente a 663 homens com mais de 18 anos de todas as regiões do país. A amostragem foi selecionada com base nos dados do Censo de 2010 e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2021. A íntegra da entrevista pode ser conferida aqui.

Analisando esses dados, fica claro constatar porque o Brasil é o 5º país do mundo no ranking mundial de feminicídios, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, com a assustadora média de quatro crimes desse tipo por dia, em 2021. E nos leva a um lugar de angústia diante de uma verdade implacável: essa terrível assimetria entre realidade e expectativa no que se refere à maior igualdade entre os gêneros tem raízes muito mais profundas do que nossos olhos alcançam.

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