Gabriel Domingues e a arte de escalar O Agente Secreto
Diretor de elenco fala sobre processo criativo, diversidade e indicação inédita ao Oscar

A atriz potiguar Tânia Maria, que faz a personagem Dona Sebastiana, em O Agente Secreto (Crédito: Reprodução)
Ao criar a categoria de Melhor Seleção de Elenco, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, colocou sob os holofotes um trabalho que raramente aparece na superfície do cinema. Entre os cinco primeiros indicados está o brasileiro Gabriel Domingues, diretor de elenco de O Agente Secreto.
À frente da escalação do longa dirigido por Kleber Mendonça Filho, ele define sua atuação como uma “curadoria de seres humanos” para o cinema.
Responsável por escolher os atores que dão vida à narrativa, ele afirma que sua função vai muito além de checar agendas ou organizar testes. “É um trabalho intelectual, de filosofia, estética e pensamento sobre cinema”, diz.
Para o brasileiro, a criação da categoria representa um momento histórico. “É raríssimo ver uma nova categoria surgir no Oscar”, observa.
O reconhecimento também ajuda a reposicionar a direção de elenco como uma atividade autoral, e não apenas organizacional. “Durante muito tempo, ela foi vista como algo prático. Mas é um trabalho com assinatura”, afirma.
A função envolve diálogo constante com direção, produção e roteiro para compreender cada personagem e buscar a representação mais adequada dentro da narrativa.
Pesquisa e método
O ponto de partida é o roteiro. É dele que nasce um processo de pesquisa que inclui frequentar teatro, assistir a filmes e séries e acompanhar diferentes cenas artísticas pelo País.
Domingues construiu parte de sua trajetória em projetos filmados fora do eixo Rio–São Paulo, com passagens por Manaus, Belém e Recife. Nessas experiências, compreender as especificidades regionais e os fluxos migratórios brasileiros se tornou uma ferramenta essencial do seu trabalho.
“Entender a identidade do povo brasileiro é parte do processo. Qual cara essas pessoas têm, de onde vêm e que histórias carregam, isso tudo atravessa a escalação”, afirma.
Nesse sentido, a escolha do elenco também se transforma em discurso, atravessado por debates sobre representatividade, raça e verossimilhança.
No caso de O Agente Secreto, a estratégia incluiu abrir convocatórias e mesclar atores consagrados, como Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido e Gabriel Leone, com nomes iniciantes e pessoas sem experiência prévia em cinema.

Wagner Moura em cena de O Agente Secreto (Crédito: Divulgação/Victor Juca)
Domingues conheceu Kleber Mendonça Filho quando foi assistente de elenco em Aquarius, há mais de uma década. A experiência foi determinante para a consolidação de sua metodologia.
“Não existe uma palavra final isolada. É uma conversa permanente”, diz. Ao mesmo tempo, cabe ao diretor de elenco defender artisticamente suas escolhas e ponderar aspectos estratégicos e comerciais do projeto.
Cinema como soft power
Ao comentar o momento do audiovisual brasileiro, Domingues destaca a consolidação do Brasil como mercado produtor e consumidor, especialmente após a expansão dos streamings. Ao mesmo tempo, defende o equilíbrio entre investimentos estrangeiros e o fortalecimento da produção nacional.
“O cinema é uma forma de influência cultural. Estados Unidos, França e Coreia investem nisso como estratégia de país. O Brasil também precisa entender essa dimensão”, argumenta.
Para ele, o interesse popular nas indicações ao Oscar, comparado por muitos a uma “Copa do Mundo anual”, demonstra o potencial simbólico do setor.
Na disputa, Domingues aposta em boas chances para O Agente Secreto nas categorias de Melhor Ator, Filme Internacional e Elenco. Ainda que evite previsões categóricas, avalia que a presença brasileira já representa avanço institucional para a área.
“Não existe cenário em que um filme brasileiro indicado ao Oscar não seja positivo para o País”, conclui.
O Agente Secreto no Oscar
A produção já conquistou, em janeiro, o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira e acumulou prêmios em festivais internacionais como Cannes e Critics Choice Awards.
O Agente Secreto também foi selecionado na categoria de Melhor Elenco e figura entre as dez produções que disputam o prêmio principal, de Melhor Filme, concorrendo com Uma Batalha Após a Outra, Pecadores e Hamnet.
O longa ainda aparece na categoria de Melhor Ator. Wagner Moura, protagonista da história, entrou na disputa pela estatueta.
O brasileiro concorre com Timothée Chalamet (Marty Supreme), Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra), Michael B. Jordan (Pecadores) e Ethan Hawke (Sonhos de Trem).
No ano passado, Fernanda Torres também foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por Ainda Estou Aqui, mas a estatueta ficou com Mikey Madison, protagonista de Anora.
Além do longa de Kleber Mendonça Filho, outro brasileiro aparece entre os indicados. Adolpho Veloso concorre na categoria de Melhor Fotografia por Sonhos de Trem, produção disponível na Netflix, que também disputa o prêmio de Melhor Filme.
