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Gabriel Domingues e a arte de escalar O Agente Secreto

Diretor de elenco fala sobre processo criativo, diversidade e indicação inédita ao Oscar

i 9 de fevereiro de 2026 - 6h03

A atriz potiguar Tânia Maria, que faz a personagem Dona Sebastiana, em O Agente Secreto (Créditos: Reprodução)

A atriz potiguar Tânia Maria, que faz a personagem Dona Sebastiana, em O Agente Secreto (Crédito: Reprodução)

Diretor de elenco de O Agente Secreto, Gabriel Domingues é um dos cinco profissionais indicados à recém-criada categoria de Melhor Seleção de Elenco no Oscar.

A inclusão da premiação pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas lança luz sobre uma função ainda pouco compreendida pelo grande público.

À frente da escalação do longa, dirigido por Kleber Mendonça Filho, Domingues define sua atuação como “curadoria de seres humanos” para o cinema.

Como responsável por escolher os atores que dão vida à narrativa, ele afirma que sua função vai muito além de checar agendas ou organizar testes.

“É um trabalho intelectual, de filosofia, estética e pensamento sobre cinema”, diz.

Assim, a criação da categoria representa um momento histórico, de fato. “É raríssimo ver uma nova categoria surgir no Oscar”, observa.

O reconhecimento ajuda a reposicionar a direção de elenco como atividade autoral, e não apenas como algo organizacional.

“Durante muito tempo, foi vista como algo prático. Mas é um trabalho com assinatura”, afirma.

A função, explica, envolve diálogo constante com direção, produção e roteiro para compreender cada personagem e buscar a representação mais adequada dentro da narrativa.

Pesquisa como método

Dessa forma, o ponto de partida é sempre o roteiro.

A partir daí, começa um processo de pesquisa contínua que inclui frequentar teatro, assistir a filmes e séries e acompanhar diferentes cenas artísticas pelo País.

Ao longo desse percurso, Domingues construiu parte de sua trajetória em projetos filmados fora do eixo Rio–São Paulo, com passagens por Manaus, Belém e Recife.

Por isso, compreender as especificidades regionais e os fluxos migratórios brasileiros tornou-se ferramenta essencial de trabalho.

“Entender a identidade do povo brasileiro é parte do processo. Qual cara essas pessoas têm, de onde vêm e que histórias carregam. Isso tudo atravessa a escalação”, afirma.

Nesse sentido, a escalação torna-se também um discurso do filme, atravessado por debates contemporâneos sobre representatividade, raça e verossimilhança.

No caso de O Agente Secreto, a estratégia incluiu abrir convocatórias e mesclar atores consagrados, como Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido e Gabriel Leone, com nomes iniciantes e até pessoas sem experiência prévia em cinema.

o agente secreto

Wagner Moura em cena de O Agente Secreto (Crédito: Divulgação/Victor Juca)

Domingues conheceu Kleber Mendonça Filho quando foi assistente de elenco em Aquarius, há mais de uma década.

Desde então, a experiência foi determinante para a consolidação de sua metodologia.

“Não existe uma palavra final isolada. É uma conversa permanente”, diz.

Ainda assim, cabe ao diretor de elenco defender artisticamente suas escolhas e ponderar, quando necessário, aspectos estratégicos e comerciais do projeto.

Cinema como soft power

Ao comentar o momento do audiovisual brasileiro, Domingues destaca a consolidação do Brasil como mercado produtor e consumidor relevante, especialmente após a expansão dos streamings.

Ao mesmo tempo, defende equilíbrio entre investimentos estrangeiros e fortalecimento da produção nacional.

“O cinema é uma forma de influência cultural. Estados Unidos, França, Coreia investem nisso como estratégia de País. O Brasil também precisa entender essa dimensão”, argumenta.

Nesse cenário, o interesse popular nas indicações ao Oscar, comparado por muitos a uma “Copa do Mundo anual”, demonstra o potencial simbólico do setor.

Na disputa, Domingues aposta em boas chances para O Agente Secreto nas categorias de Melhor Ator, Filme Internacional e Elenco.

De fato, independentemente do resultado, avalia que a presença brasileira já representa avanço institucional para a área.

“Não existe cenário em que um filme brasileiro indicado ao Oscar não seja positivo para o país”, conclui.

O Agente Secreto no Oscar

Assim como aconteceu em 2025, com Ainda Estou Aqui, o Brasil disputa mais uma vez a categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Além disso, a produção brasileira já conquistou, em janeiro, o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, além de ter recebido outros prêmios em festivais internacionais como Cannes e Critics Choice Awards.

O Agente Secreto também foi selecionado na categoria de Melhor Elenco.

Ainda, está entre as dez produções que disputam a categoria mais cobiçada – a de Melhor Filme, em que concorre com Uma Batalha Após a Outra, Pecadores e Hamnet.

Por fim, o longa também concorre ao Oscar de Melhor Ator.

Wagner Moura, protagonista da história, entrou na competição pela estatueta.

O brasileiro disputa o prêmio de Melhor Ator da Academia com Timothée Chalamet (Marty Supreme), Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra), Michael B. Jordan (Pecadores) e Ethan Hawke (Sonhos de Trem).

No ano passado, Fernanda Torres também foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por seu trabalho em Ainda Estou Aqui.

O prêmio, no entanto, foi entregue a Mikey Madison, protagonista de Anora.

Além de O Agente Secreto, há outro brasileiro que está na disputa pelo mais importante prêmio do cinema internacional.

Adolpho Veloso foi indicado na categoria Melhor Fotografia pelo filme Sonhos de Trem, que está na Netflix.

O longa-metragem, ainda, disputa a categoria de Melhor Filme.