Mídia

Conheça as estratégias da Watch Brasil para os agregadores

Plataforma foca na monetização via mídia programática e quer atrair usuários de fora dos provedores

i 6 de fevereiro de 2026 - 17h27

Diante da fragmentação de conteúdo entre plataformas de streaming e canais de TV, agregadores de conteúdo despontam como alternativa para reduzir o estresse do consumidor e oferecer experiência personalizada.

A Watch Brasil, fundada em 2018, é um dos players desse segmento.

De fato, a empresa reúne conteúdo de streaming aos de canais de TV aberta e paga na mesma interface e fatura.

Maurício Almeida, da Watch Brasil

Maurício Almeida, da Watch Brasil (Crédito: Divulgação)

Em 2024, a Watch Brasil passou a comercializar publicidade em opção gratuita.

Assim, nessa modalidade, a empresa divide a receita a partir dos investimentos dos anunciantes com os donos do conteúdo.

Por enquanto, a venda é feita via mídia programática, mas a plataforma estrutura um time de venda direta.

“Estamos passando de 3 milhões de lares com acesso à Watch. Por que nós não criamos um pacote baseado em publicidade onde possamos ofertar para toda essa base de assinantes que ainda não têm acesso à plataforma? Tentamos monetizar via publicidade, que ainda é um processo bastante incipiente no Brasil, mas também podemos fazer o upselling da degustação desses conteúdos para os outros pacotes mais premium”, explica o presidente da Watch Brasil, Marcelo Almeida.

Em outros movimentos estratégicos, a Watch lançou o Watch Labs, spin-off focado em tecnologia e exportação de software e passou a diversificar seu inventário com o lançamento do Awdio, um serviço de streaming de áudio.

Agora, portanto, o desafio é fazer a plataforma conhecida pelo público consumidor, e não apenas entre provedores e demais empresas clientes.

“É o usuário final quem vai mover o ponteiro”, diz o executivo.

Marcelo Almeida fala sobre estratégias de diversificação de conteúdo, a concorrência crescente e tendências no mercado.

Watch e as parcerias de conteúdo

Meio & Mensagem — Vocês se posicionam como agregadores de conteúdo. Como tem sido a recepção das grandes programadoras ao modelo de distribuição por ISP em comparação com o D2C, o varejo direto?

Marcelo Almeida — Eles gostam bastante porque sempre entramos em hard bundle. Sempre a Watch é vendida com um pacote de banda larga e isso faz com que o churn seja sensivelmente menor do que o direct-to-consumer.

O tanto que somos abordados mostra que estamos com a estratégia correta.

Estamos agora nos Estados Unidos, participamos de uma feira de conteúdo na semana passada, a Content Americas, e esta semana participamos da Natpe.

Estamos conversando com todos os estúdios, os conhecidos, os médios e os independentes.

De fato, isso prova que conseguimos montar um negócio que seja sustentável e interessante para eles também.

M&M — Como vocês equilibram a atração de grandes players e players regionais menores? 

Almeida — Esse é um desafio enorme.Temos dentro da Watch uma construção de várias personas para entender o perfil de consumo porque trabalhamos com muitos nichos, até o que chamamos de supernicho.

É um desafio grande, mas permite que conversemos com todos os estúdios. Estamos conversando com gente que tem animes ou doramas; conseguimos conversar com todo mundo. A quantidade de conteúdo que chega é absurda.

Mas temos tido sucesso: recentemente, fechamos vários contratos que farão muita diferença, como Universal Plus, Sony One e Moonbug, que é de conteúdo infantil.

É difícil fazer essa seleção e, como a audiência é extremamente diversificada, o grande desafio é o que comprar e para quem.

Escolha de parceiros

M&M — Quais são os critérios que vocês usam para escolher esses parceiros?

Almeida — As pessoas gostam dos blockbusters e das franquias. Temos um público muito diverso. Imagine que a Watch está em mais de cinco mil municípios do Brasil. Lançamos mão de uma série de dados que coletamos e tentamos entender esse perfil de consumo. Conversamos também bastante com os estúdios. Serviços como o Universal Plus já são catálogos pré-estabelecidos e eles têm um histórico longo de conhecimento do que as pessoas gostam de consumir.

Temos uma mistura de novidades com coisas de cauda longuíssima. Um dos conteúdos mais assistidos na Watch é As Branquelas, um filme de mais de 20 anos que ainda performa.

Vemos o mesmo com How I Met Your Mother e The Big Bang Theory. É um desafio saber esse mix entre o que é novidade e o que está performando há muito tempo.

Desafio dos provedores

M&M — Como a empresa equilibra a quantidade de conteúdo e a capacidade de distribuir?

Almeida — Lançamos mão de tecnologia. O Brasil ainda tem uma característica pela qual os canais lineares, principalmente a TV aberta, são muito consumidos.Temos um consumo de canais lineares e vídeo sob demanda de 50 a 50.

Às vezes, o canal linear até passa um pouco, principalmente quando tem esportes ou campeonato brasileiro no ar. Montar o portfólio é o maior desafio porque preciso sentar com o provedor de internet e ver qual é o ticket médio dos pacotes que ele tem nas cidades que atende.

A Watch é reconhecida por caminhar com o provedor ajudando a montar esse portfólio, a precificar e comunicar.

M&M — Como você observa esse cenário e quais são os maiores desafios desses provedores?

Almeida — É um mercado completamente consolidado. Praticamente, não há mais onde penetrar, todo mundo já tem internet. Os provedores começaram a ter que olhar para dentro de casa e rentabilizar a própria base. Isso para nós é muito bom.

Temos cerca de 22% da base dos provedores com os produtos da Watch, portanto, temos um universo gigante para crescer.

A fórmula é entender qual é o bolso do usuário para que eu tenha oferta que faça sentido para você. Outro negócio que funciona muito bem é o combate à pirataria.

Fazemos parte tanto da Abta quanto da Abotts  e, nos últimos 90 dias, temos percebido um consumo maior dos nossos produtos devido à perda de força da pirataria no Brasil.

Personalização e segmentação

M&M — Como vocês trabalham os dados da plataforma? Vocês fazem recomendações personalizadas? Também repassam alguma inteligência de dados para os provedores?

Almeida — Temos uma área bastante robusta de BI pela qual coletamos muita informação. Estamos fazendo um trabalho bem legal com a consultoria Gartner, aplicando inteligência artificial sobre esses dados.

Rodamos algoritmos de consumo e de qualidade. Consigo saber quanto tempo o usuário levou em uma jornada desde que clicou no app até consumir o conteúdo ou os motivos de eventuais erros.

Portanto, temos um trabalho muito focado em qualidade. Temos dashboards que nos ajudam a ver qual conteúdo é mais relevante. A partir do segundo trimestre deste ano, estaremos com nova suíte de aplicativos com hiperpersonalização. O seu aplicativo será como um portal personalizado.

Assim, dependendo do horário do dia, estaremos mostrando um conteúdo que seja relevante para o usuaário naquele momento.

Sabemos que, às vezes, deixávamos a desejar na performance dos aplicativos. Estamos unindo novos conteúdos, nova tecnologia e mais performance.

M&M — Vocês mencionaram que compartilham dados com o provedor para ajudar a aumentar o ticket médio. Como funciona essa inteligência?

Almeida — Somos um B2B2C. Precisamos nos comunicar tanto com o assinante quanto com o provedor. Estamos criando dashboards para compartilhar esses dados.

Se o usuário consome conteúdo premium, mas está em um pacote básico de internet, a chance de  aceitar um pacote maior é muito grande.

De fato, trocar essa informação ajuda o provedor a trabalhar a inteligência junto com o cliente.

Relação com a concorrência

M&M — Além das fabricantes de TVs, a Amazon também tem se posicionado como agregadora. Como vocês veem essa concorrência?

Almeida — Vale quem tem a jornada do cliente e a melhor experiência.

Temos uma audiência que são os assinantes dos provedores e temos que oferecer algo que faça sentido buscando a atenção desses usuários.

Perseguimos a melhor experiência do usuário a todo instante.

Tendências do conteúdo

M&M — Como vê o futuro do conteúdo linear de TV?

Almeida — Existe um efeito geracional. O público de 50 anos ou mais continuará consumindo. Abaixo disso, existe um consumo forte de grandes eventos e esportes ao vivo.

Ainda veremos o consumo do linear por muitos anos com a TV 3.0. Vamos dar um impulso na mídia programática dentro do canal linear.

Já temos tecnologia para isso e estamos conversando com programadores para testar. Isso dará um fôlego financeiro para que esses canais produzam mais conteúdo.

M&M — Quais tendências tem observado no mercado de oferta de conteúdo?

Almeida — Existem tendências e existem modas. Moda são os microdramas, conteúdos na vertical feitos exclusivamente ou prioritariamente para dispositivos móveis; isso é algo que estamos vendo bastante.

Tendências são os conteúdos em outros idiomas. Ver pessoas consumindo novelas turcas e séries coreanas veio para ficar. O público americano, que não consumia nada com legenda, já consome bastante e isso abre um leque gigantesco para buscar boas histórias contadas em qualquer idioma.

Temos visto muita oferta de vários países dos quais não sabíamos do conteúdo audiovisual e isso está muito presente.

Quando falamos de tecnologia, por exemplo, para localização, inserção de legenda e tradução, há bastante o uso da IA, o que baixa bastante o custo.

Há uma parte de recomendação também.

De fato, esse é um desafio enorme, principalmente para o público latino-americano, que não gosta ou não vai muito atrás de sugestão por algoritmo.

Muita coisa legal está vindo por aí.