O varejo entra definitivamente na era da execução inteligente
Inteligência artificial já não ocupa o papel de experimento ou promessa futura; o setor entra agora em uma nova fase: a da execução inteligente em escala
A NRF 2026 deixou claro que o varejo atravessa uma mudança mais profunda do que a simples adoção de novas tecnologias. A inteligência artificial já não ocupa o papel de experimento ou promessa futura. O setor entra agora em uma nova fase: a da execução inteligente em escala, na qual decisões operacionais, logísticas e estratégicas passam a ser orientadas por IA de forma contínua.
Não por acaso, esta edição do evento contou, pela primeira vez, com um palco dedicado exclusivamente ao tema, o AI Stage. Mais do que um símbolo, essa escolha reflete a maturidade do debate. A pergunta deixou de ser “se” a IA será adotada e passou a ser “onde ela gera impacto real no negócio”.
Nas conversas que tive com empresas brasileiras ao longo da NRF, um ponto se repetiu com frequência: o uso de inteligência artificial em supply chain e operações. Esse tema esteve presente em três das quatro reuniões que realizei no evento e revela uma prioridade clara do varejo neste momento.
Depois de um primeiro ciclo focado em eficiência pontual e um segundo marcado pela experimentação, 2026 inaugura a fase em que a IA passa a ser aplicada no coração da operação. Estoques, previsão de demanda, logística, precificação e alocação de recursos deixam de ser áreas reativas e passam a operar com ajustes em tempo real, conectando dados de toda a cadeia.
Esse movimento é especialmente relevante em mercados como o brasileiro, onde custos logísticos, complexidade operacional e volatilidade de demanda tornam a previsibilidade um diferencial competitivo. A inteligência artificial passa a ser o elo que conecta estratégia, eficiência e experiência do consumidor.
Ao mesmo tempo, a NRF mostrou que essa evolução operacional não acontece de forma isolada. Conceitos como agentic AI e agentic commerce ganharam protagonismo, apontando para um cenário em que agentes de IA assumem funções autônomas, da gestão de estoque à recomendação e à compra, reduzindo o atrito entre intenção e conversão.
Iniciativas apresentadas por empresas como Google, Amazon e Target reforçaram essa transição. A IA deixa de atuar apenas como ferramenta de suporte e passa a operar como uma camada inteligente que conecta busca, decisão, transação e entrega. É a virada do “piloto” para a “produção”, como destacado em diversos painéis do evento.
Curiosamente, quanto mais a inteligência artificial avança, mais forte se torna o valor do fator humano. Painéis com líderes do varejo, do luxo e de marcas globais mostraram que tecnologia, por si só, não gera relevância. A IA cria valor quando amplia criatividade, empodera colaboradores e permite que as marcas se conectem com seus consumidores de forma mais autêntica e personalizada.
Esse equilíbrio ficou evidente em discussões sobre varejo físico, experiências sensoriais e relacionamento. Mesmo em um ambiente cada vez mais digital, lojas continuam sendo espaços de encontro, pertencimento e construção de marca, agora sustentadas por operações mais inteligentes e eficientes nos bastidores.
A forte presença brasileira na NRF 2026, com cerca de 5.300 participantes e mais de 30 eventos paralelos dedicados à delegação do país, reforça o quanto o varejo nacional está atento a essa transformação. O interesse não está apenas nas vitrines tecnológicas, mas em como aplicar essas inovações de forma prática, escalável e sustentável.
Se há uma mensagem central deixada pela NRF deste ano, é que o futuro do varejo não será definido apenas por quem adota IA, mas por quem consegue integrá-la à operação, à cultura e à estratégia do negócio. A era da execução inteligente começou — e ela exige decisões agora.