Marketing

Carnaval tem consumo diversificado sem tirar espaço da cerveja

Indústria amplia portfólio com opções zero álcool, drinks prontos e energéticos para diferentes perfis de consumo

i 5 de fevereiro de 2026 - 6h00

Carnaval concentra um dos períodos mais importantes de vendas para o setor de bebidas no País (Créditos: Vergani Fotografia/Shutterstock)

Carnaval concentra um dos períodos mais importantes de vendas para o setor de bebidas no País (Créditos: Vergani Fotografia/Shutterstock)

O Carnaval é tradicionalmente um dos principais momentos de consumo para a indústria de bebidas no Brasil e 2026 sinaliza uma mudança no discurso e no portfólio das empresas do setor.

Ao mesmo tempo em que reforçam a presença das cervejas tradicionais na folia, os grupos ampliam investimentos em versões zero álcool, bebidas prontas para beber (RTDs), energéticos e opções não alcoólicas, refletindo um consumidor mais plural e atento às próprias escolhas.

Dados do Anuário da Cerveja mostram que a produção de cerveja sem álcool cresceu 536,9% entre 2023 e 2024, saltando de 118,9 milhões de litros para 757,4 milhões de litros. O volume já representa 4,9% da produção nacional.

Já projeções da Euromonitor indicam que, em 2026, o consumo pode alcançar 885 milhões de litros, quase sete vezes mais do que em 2019. O Brasil ocupa, hoje, a segunda posição global na categoria, atrás apenas da Alemanha.

Para o presidente-executivo do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), Márcio Maciel, o avanço da categoria zero é um sinal de amadurecimento do mercado.

“A cerveja zero ganhou espaço porque conversa com novas rotinas e novos contextos, inclusive na festa. Mais gente quer participar com liberdade para alternar escolhas ao longo do dia. Isso não significa troca da cerveja tradicional, mas ampliação de repertório”, afirma.

O movimento também dialoga com mudanças geracionais. Pesquisa da MindMiners (O dossiê das bebidas – 2024) indica que 57% dos brasileiros afirmam consumir bebidas alcoólicas. A cerveja lidera, com 44% de preferência, seguida por vinho (37%) e destilados (36%). As bebidas prontas representam 26%.

Entre as gerações, a diferença é significativa: 45% da geração Z consomem álcool, frente a 57% dos millennials, 67% da geração X e 65% dos boomers. Entre os mais jovens, a menor adesão está associada principalmente à falta de interesse (58%) e ao sabor (35%).

O dado ajuda a explicar o crescimento de alternativas como cervejas zero, RTDs com menor teor alcoólico e bebidas energéticas, que, segundo a Nielsen, cresceram 19,2% em volume entre 2024 e 2025.

Apesar da expansão, a cerveja alcoólica segue dominante: rótulos com teor superior a 2% responderam por 94,6% da produção nacional em 2024. O cenário, segundo o setor, não é de substituição, mas de ampliação do repertório de consumo.

Segundo Maciel, a expectativa para o período é positiva, impulsionada por turismo aquecido, calendário antecipado de eventos e maior circulação em bares e restaurantes.

Ele destaca ainda que a cerveja está diretamente ligada à sociabilidade no País e à economia local, especialmente durante a folia, quando pequenos negócios e pontos de venda são impactados pelo aumento da demanda.

“Quando o debate público coloca a cerveja no centro de discussões sobre custo de vida e tributação, é importante lembrar que ela está conectada ao lazer popular e a uma cadeia extensa de pequenos negócios”, acrescenta.

Portfólio ampliado e novas ocasiões de consumo

Diante desse cenário, as principais companhias estruturam a temporada como vitrine estratégica de portfólio.

O Grupo Petrópolis projeta comercializar mais de 600 mil litros de cerveja nos eventos patrocinados. A festa integra a última etapa do Plano Verão da companhia, estação que responde por 53% do volume anual vendido.

Itaipava, Petra e TNT concentram a estratégia, com presença em eventos nas capitais e em cidades como Olinda (PE), Salvador (BA) e Belo Horizonte (MG). A empresa também reforça o portfólio de bebidas prontas com Fest Drinks, Crystal Ice e Cabaré Ice.

Na Ambev, a celebração é tratada como território cultural central. A companhia investiu mais de R$ 10 bilhões nos últimos três anos em suas operações no Brasil, incluindo expansão de linhas de produção de cervejas, refrigerantes e embalagens.

Neste ano, a Skol retorna como patrocinadora oficial do Carnaval de São Paulo após seis anos. Brahma mantém presença em Salvador, Rio e São Paulo com a campanha “O Carnaval está de Brahmas abertas”, estrelada por Carlo Ancelotti, com ações no Circuito Barra-Ondina e em outros polos da folia. Já Beats amplia protagonismo com o QG Beats, em Salvador, e patrocínio aos Ensaios da Anitta.

No campo das alternativas sem álcool, a companhia destaca o crescimento de Brahma 0,0%, Budweiser Zero e Corona Cero, além de bebidas não alcoólicas como Guaraná Antarctica Zero, que ganha espaço no chamado “pós-bloco”.

A marca aposta na embaixadora Ivete Sangalo e na releitura do jingle Pipoca com Guaraná, além de patrocínios a blocos em São Paulo, Bahia e presença em escolas de samba do Grupo Especial no Rio.

Guaraná Antarctica escolhe Ivete Sangalo como nova embaixadora (Créditos: Divulgação)

Guaraná Antarctica escolhe Ivete Sangalo como nova embaixadora (Créditos: Divulgação)

Destilados e bebidas prontas ganham espaço estratégico

Entre os grandes grupos globais de destilados, o período é tratado como momento estratégico não apenas pela visibilidade, mas também para construção de hábito e expansão de categoria.

Na Diageo, o portfólio é trabalhado de acordo com a ocasião: Smirnoff Ice e outras opções prontas para beber atendem à busca por conveniência e circulação em ambientes abertos, enquanto rótulos como Johnnie Walker e Tanqueray se conectam a experiências de coquetelaria e consumo mais elaborado.

A empresa também amplia a oferta de alternativas de menor teor alcoólico e mocktails, alinhando a estratégia ao conceito de “beber melhor e não mais”.

A Pernod Ricard posiciona a festa como período relevante para experimentação e giro no varejo. A companhia concentra esforços em Beefeater, com portfólio voltado à leveza e versatilidade no verão, incluindo variações saborizadas como Pink e Blackberry, além da linha Botanics.

Já a Coca-Cola Brasil aposta na consolidação da categoria de drinks prontos com Schweppes Mixed e a collab Absolut&Sprite.

O lançamento da Caipivodka Maracujá amplia a oferta de sabores em um momento em que, segundo a companhia, o sabor se torna um fator central na decisão de compra.

Já no segmento independente, a Xeque Mate projeta crescimento de 20% na produção entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, considerando o carro-chefe, Xeque Mate, que no ano passado avançou 26% e alcançou 9 milhões de litros, e a nova Mascate Drinks, lançada em novembro, com produção inicial de 1,04 milhão de litros.

A companhia está presente em 34 mil pontos de venda físicos, em 11 estados, e reforça o apoio a blocos em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, além de ampliar investimentos no varejo e na atuação com ambulantes durante o período.

Enquanto a versão tradicional mantém teor alcoólico de 7,9%, a Mascate aposta em 6,5% e em perfil mais leve, com apelo tropical e menor teor calórico, pensada para consumo diurno, como praia, piscina e blocos de rua. Recentemente,

“O que vemos é um portfólio cada vez mais diverso por ocasião. As pessoas continuam buscando encontro, convivência e celebração, mas com liberdade para fazer escolhas ao longo do dia”, finaliza Maciel, do Sindicerv.