A tendência que não cabe no feed
Em meio à fadiga digital, a presença surge como valor cultural e resposta à atenção fragmentada
Todo começo de ano vem com uma onda de reflexão sobre qual será a próxima grande tendência que vai direcionar as conversas e o comportamento das pessoas. Novas tecnologias, novos formatos, novas promessas de eficiência.
Eu começo 2026 pensando se este ano não nos pede outro tipo de escuta. Talvez a pergunta mais interessante não seja o que vem a mais, e sim o que está faltando.
Estamos vivenciando uma fadiga coletiva difícil de ignorar. Excesso de tempo de tela, muitos estímulos contínuos, notificações que nunca cessam, feeds que se renovam infinitamente, polarizações que drenam energia emocional.
Estamos quase sempre conectados e quase nunca inteiros. Não se trata de uma culpa individual, mas de uma condição ambiental: o mundo de hoje é desenhado para nos manter reagindo, não presentes.
Podemos observar um paradoxo muito claro. Nunca houve tanta interação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade de sustentar atenção, conversas e vínculos. Conversas interrompidas por telas. Experiências vividas pela metade. Momentos registrados demais e sentidos de menos. Aos poucos, desaprendemos algo essencial: o poder e a necessidade de estar presente para viver, criar memória e se conectar de verdade.
Essa presença não é um conceito abstrato; é algo bastante concreto: estar inteira, sem estar em constante modo multitarefa, com tempo e atenção compartilhados. E talvez por isso esta última tenha se tornado rara. Quando a atenção se fragmenta, a experiência, de certa forma, se esvazia.
Quando a nossa vida é vivida em segundo plano, as coisas se transformam em uma sequência de estímulos esquecíveis. E acredito que estamos sentindo o impacto disso de forma considerável, interferindo na relação que temos com as pessoas, com o mundo e com a gente mesmo.
O interessante é perceber que o desejo por mais presença não é individual nem isolado. Aparece espalhado pela cultura, em diferentes linguagens, estéticas e comportamentos. Não vejo como um sentimento de nostalgia de um mundo pré-digital, mas como resposta a um mundo acelerado demais para sustentar muita profundidade.
Podemos observar os sinais em todas as partes. O retorno do analógico. A valorização do sensorial. A busca por experiências físicas, que exigem tempo, corpo e envolvimento. A reintrodução de pequenos esforços em um mundo que passou anos tentando eliminar qualquer atrito: a espera, a pausa, o gesto, o caminho. Não como rejeição da tecnologia, mas como uma correção de rota cultural.
Uma tentativa coletiva de devolver densidade às experiências, depois de um longo período em que tudo foi desenhado para fluir rápido demais para criar memória.
Relatórios de comportamento e tendências, como os do Pinterest Predicts, ajudam a tornar esse movimento visível. Em diferentes tendências, aparecem sinais recorrentes de desejo por textura, materialidade e experiências vividas, não apenas vistas. No fundo, a mensagem me parece simples: as pessoas não querem menos tecnologia. Querem menos mediação.
Esse contexto ajuda a explicar também um certo esgotamento em torno das experiências excessivamente “instagramáveis”. Durante anos, espaços, eventos e ativações foram pensados como cenários perfeitos para a foto: bonitos, estéticos, reconhecíveis, replicáveis. Funcionaram como estratégia de alcance, de volume, de amplificação. Mas, em muitos casos, pararam aí. Tornaram-se experiências feitas para postar, não para viver. O registro passou a ser mais importante que a vivência. O enquadramento, mais relevante que o momento.
Sinto que estamos começando a ficar cansados de performar; esse modelo parece ter chegado a um certo limite. Um desejo maior por experiências que vão além do que cabe no seu feed, que vão criar memórias e, por consequência, mais valor. Não porque rejeitam o digital, mas porque recolocam uma possível nova ordem das coisas: primeiro você vive; depois, se fizer sentido, você posta.
Quando colocamos a presença no centro, tudo muda. Muda a forma como entendemos experiência, conexão e valor. Muda também o papel das marcas. Durante décadas, marcas competiram por atenção. Em um ambiente saturado, talvez o desafio agora seja outro: competir por qualidade de experiência.
A oportunidade não está em capturar presença, porque presença não funciona dessa forma. Está em criar condições para que ela exista. Em desenhar experiências que convidem ao foco, ao envolvimento, ao estar ali. Menos interrupção, mais convite. Menos performance social, mais vivência. Menos aceleração, mais cadência.
De onde observo, acredito que essa é a tendência que quero seguir em 2026. Não uma plataforma, nem um formato, nem uma tecnologia. Mas a presença como valor cultural. Como antídoto à fadiga. Como condição para conexão real. Presença pode fazer com que as marcas sejam lembradas muito além do fato de gritarem mais alto, mas também por terem ajudado as pessoas a viver experiências por inteiro.