Maquiavel, Zuckerberg e o papel de um bode expiatório

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Opinião

Maquiavel, Zuckerberg e o papel de um bode expiatório

Mark e sua big tech absorveram quase que unicamente um expediente negativo que, numa visão mais realista, pertence a todo o setor e não apenas à Meta


19 de fevereiro de 2024 - 6h00

Um estudante da Universidade de Harvard inventou uma plataforma que mudou tudo no planeta. O jovem se chamava Mark Zuckerberg. E a plataforma: Facebook, que completou 20 anos este mês. Ao longo de duas décadas, o Facebook se tornou a Meta, um ecossistema gigantesco, que impacta a economia e política ao redor do mundo, além de se tornar sinônimo de “internet” para muitos. Virou até filme ganhador de Oscar.

Tudo isso veio com um ônus alto. Ninguém em todo Vale do Silício tem reputação mais odiosa ou negativa do que Mark Zuckerberg. É como se todas as questões polêmicas e complexas sobre privacidade, distorção de psicologia social e vazamento desmedido de dados sensíveis fossem culpa desse empreendedor mundialmente popular. Algoritmos que incentivam uma discórdia que, às vezes, custa vidas; ferramentas projetadas para criar dependência e aumentar o consumo e até o que causou mais revolta recentemente nos Estados Unidos: que seus gestores sabiam que aquilo que oferecem leva uma parcela nada desprezível das adolescentes (13%) ao abismo dos pensamentos suicidas e da anorexia. Isso para falar apenas de pautas estruturais que atingiram a sociedade como um todo, mas a lista – pensando em questões ainda mais específicas – é mais extensa quando, por exemplo, resgatamos o longínquo fim da propagação orgânica dos posts, o que compulsoriamente obriga todos a desembolsarem algum valor monetário para terem alcance e impacto perante os que até outro dia eram seus seguidores genuinamente conquistados.

Claro que não é desprezível discutir e julgar o mérito de todas essas polêmicas e não me cabe estabelecer qualquer posicionamento que endosse ou absolva essas questões todas, mas esse tom binário me remete muito mais à polaridade que vivemos no Brasil político/eleitoral dos dias atuais – suas semelhanças são flagrantes.

Digo isso por entender que o Mark e sua big tech absorveram quase que unicamente um expediente negativo que, numa visão mais realista (pra ser delicado), pertence a todo o setor e não apenas à Meta. É como se toda a publicidade e lastro tivessem recaído sobre ele como representante desse eventual “mal social digital”, que não é muito diferente quando pensamos em todas as outras plataformas concorrentes da Meta.

E há um contraponto que esquecemos e abandonamos nesta última década, que tem efeitos muito significativos para os consumidores globalmente, e por mais curioso que possa parecer, os mais vulneráveis: hoje, no planeta, estima-se que o WhatsApp gere uma economia em custos para cidadãos comuns na ordem de US$ 890 milhões mensais na renúncia nas contas de ligações de voz e envios de mensagem outrora cobrados pelas operadoras de telefonia. Pensando em países com renda per capita como o nosso, o impacto dessa economia para uma pessoa é exponencial. Não há e não houve qualquer perspectiva de que isso seja taxado ou cobrado.

Outra esfera não menos relevante é a democratização de ferramentas de marketing e relacionamento para microempreendedores. A possibilidade de fazer de um perfil no Instagram a forma de divulgar e fidelizar clientes é até 92% mais eficiente (barato no português claro) que as ferramentas disponíveis até então para esse setor da economia. E como ignorar o efeito que a popularidade das redes gerou como canal de denúncia e reclamações de consumidores com grandes empresas? Não existe entidade de classe, como Procon ou Reclame Aqui, que tenha alterado tanto o cenário de resolução de problemas e prestação de contas do que as plataformas da Meta – a chance de você ter um problema solucionado a partir de um post público em redes sociais é 14 vezes maior que por vias formais de SAC e Ouvidoria no Brasil, conforme dados do Sebrae de 2020.

A pergunta que fica é obviamente maquiavélica: “os fins justificam os meios?”. O que fica absolutamente claro é que a resposta não pode ser binária como num processo eleitoral. Mark não é candidato, nem a Meta é um partido político, mas ilustram em sua trajetória um fenômeno coletivo que temos testemunhado cada vez mais: passionalidade não deveria ser um ativo para exercer seu voto, nem para eleger heróis e vilões no mundo corporativo.

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