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Opinião

Nós somos melhores que isso

Comportamento dos jogadores de futebol brasileiros carrega valores muito negativos, afugenta patrocinadores e diminui potencial como produtos de marketing

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4 de dezembro de 2017 - 13h19

Gérson de Oliveira Nunes, conhecido simplesmente como “Canhotinha de Ouro”, escreveu seu nome no Hall da Fama do futebol mundial jogando como titular na mais famosa de todas as famosas seleções brasileiras de futebol, a campeã da Copa do Mundo do México em 1970.

Em 1976, graças a uma propaganda dos cigarros Vila Rica, Gérson tornou-se injustamente sinônimo de malandragem. Logo ele, que de malandro não tinha quase nada. Para justificar a escolha da marca popular, Gérson dizia: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?” Para completar, convidava todos a fazer o mesmo: “Leve vantagem você também!” Nascia a “Lei de Gérson”.

Nem Maquiavel nem Gérson disseram que “os fins justificavam os meios”, mas foi assim que todos entenderam. Levar vantagem em tudo e a todo custo, tornava-se possível e aceitável. A cultura brasileira da malandragem e fins-que-tudo-justificam não nasceu com a propaganda de Vila Rica nem com o Gérson. Mas, depois do famoso comercial, ela ganhou status de lei e passou a fazer parte da identidade e do estereótipo nacionais.

A manifestação máxima da malandragem brasileira ocorre no futebol. Nada é mais humilhante para os torcedores de boa índole que assistir a nossos craques mergulhando, reclamando de faltas inexistentes e simulando contusões para dissuadir os árbitros. Nenhum bom esportista se orgulha disso.

Árbitros são treinados para reconhecer a simulação e prestar atenção especial em nossos jogadores. Brasileiros bons de futebol, mas péssimos nas artes cênicas, são advertidos todas as rodadas pelas suas más performances. Um contraste enorme com a disciplina e o fair play europeu.

Há poucos dias, na partida da Juventus de Turim contra o Barcelona, Paulinho levou um cartão amarelo por simular uma falta na área. Foi tão patético que até a torcida do seu time o vaiou. Na mesma partida, Giggi Buffon foi aplaudido pela torcida adversária quando se aproximou dela para agradecer sua visita ao seu estádio em Turim.

O comportamento dos jogadores brasileiros carrega consigo valores muito negativos, afugenta patrocinadores e diminui seu potencial como produtos de marketing. Boas marcas pensam muitas vezes antes de se associar a jogadores que agem assim. Afinal, se eles mentem e tentam “levar vantagem em tudo” nos campos, como saber até que ponto vai sua desonestidade fora deles? Por que contratar alguém como Paulinho, apenas um exemplo no batalhão de malandros profissionais, se posso contratar o Giggi Buffon?

Dentre os brasileiros há ótimos exemplos como Kaká e Gabriel Jesus. Eles fazem bem aos seus times e patrocinadores. Por isso mesmo, têm muitos e bons parceiros comerciais. Além de fazer seu dever de casa dentro dos campos, tiveram a disciplina para construir uma excelente imagem fora deles.

Enquanto isso em Porto Alegre, assistimos a mais uma deprimente manifestação de malandragem com o drone-gate. Um exemplo clássico do pior que há no futebol brasileiro. Não importa se “todo mundo faz” ou se a “espionagem no futebol existe desde sempre”. É triste ver exemplos como este vindo de uma das maiores referências do futebol nacional. Os jovens jogadores e clubes brasileiros precisam de mais exemplos como os de Kaká, Gabriel Jesus e Giggi Buffon e menos como os de Renato Gaúcho. Ganhar a todo custo não pode ser a medida do sucesso de nenhum profissional.

Eu não entendo muito de futebol, mas conheço bastante o marketing do esporte. No campo dos patrocínios, posso garantir que a maioria das empresas que investem não quer suas marcas associadas à desonestidade. “O mundo é dos espertos” de Renato Gaúcho é o novo “o importante é levar vantagem em tudo” de Gérson. A diferença é que Gérson não pensava assim. Pelo bem do esporte e pelo sucesso comercial de times e jogadores, precisamos mudar este comportamento. Que a “Lei de Renato” tenha vida curta. Nós somos melhores que isso.

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