Perfumaria árabe inspira investimentos de gigantes brasileiras
Natura, Boticário e Hinode investem na perfumaria árabe como a nova fronteira de luxo no País

Marcas elevam investimentos na opulência árabe para atender demanda por luxo e alta performance olfativa (Crédito: Stanislav71/Shutterstock)
A perfumaria árabe, inspirada no Oriente Médio, antes restrita a nichos de entusiastas, tornou-se a nova fronteira de crescimento para grandes marcas brasileiras. Dados recentes do Google Trends e estudos da DSM-Firmenich revelam que as buscas por perfumes árabes cresceram 24 vezes em apenas dois anos. Mais impressionante ainda: o Brasil já representa 40% da audiência digital global sobre o tema.
Em 2024, a categoria registrou um salto de 380%, movimentando mais de R$ 20 milhões, de acordo com dados da Circana. Esse fenômeno não passou despercebido pelos gigantes nacionais do setor. O Grupo Boticário, por exemplo, realizou seu maior investimento histórico em um único lançamento com a marca Hadiya, destinando recursos que superam em 50% sua média histórica para a categoria.
Essa transformação no “paladar olfativo” nacional é explicada pela perfumista Márcia Scansani como um reflexo de mudanças técnicas e comportamentais. Segundo a especialista, o consumidor brasileiro deixou de enxergar o perfume apenas como um item de higiene para adotá-lo como uma “afirmação de identidade e exclusividade”. “Redes sociais, influência da cultura árabe de luxo, viagens internacionais e o crescimento do mercado de nicho educaram o consumidor”, explica.
Para ela, o avanço tecnológico permitiu que notas densas como o Oud e acordes ambarados se tornassem mais “transparentes”, facilitando a adaptação ao clima tropical sem o peso oleoso de antigamente.
Como as marcas estão moldando seus portfólios à tendência?
- Natura: o encontro do oriente com a biodiversidade amazônica
A marca, que já explorava esse território desde 2017 com o lançamento do Essencial Oud, enxerga na tendência uma oportunidade de reafirmar sua expertise de construir combinações improváveis, de acordo com Diego Costa, diretor sênior global de perfumaria da Natura. “Queremos que nossos futuros lançamentos entreguem essa ‘joia olfativa’ unindo o melhor da influência árabe, mas com o DNA ético de uma marca genuinamente brasileira”, afirma.
O executivo explica que a competitividade da Natura reside em oferecer qualidade e inovação, com foco na riqueza da biodiversidade brasileira e amazônica, atentos às questões ambientais, sociais e econômicas.
Costa revela que a estratégia para 2026 é capitalizar o sucesso de linhas consagradas, aumentando seu portfólio: “Ao longo deste ano daremos protagonismo a um novo ingrediente em Essencial para continuar surpreendendo quem busca o máximo de elegância e duração em nossa perfumaria”.
O objetivo é manter a marca competitiva em um segmento que, embora hoje represente menos de 1% das fragrâncias internacionais no País, possui espaço para crescer: “Para a Natura, a perfumaria árabe não é um pico, mas uma influência que veio para ficar. Temos previstos investimentos globais e locais, sempre reforçando nossa autenticidade.”
- O Boticário: a criação de uma plataforma estratégica
Para o Grupo Boticário, o investimento na estética árabe representou o maior aporte histórico em um único lançamento com a marca Hadiya. A estratégia da empresa não foi apenas lançar um produto, mas construir uma “plataforma de perfumaria dedicada”, com arquitetura de marca, narrativa e parâmetros técnicos próprios. Gustavo Dieamant, diretor de P&D do grupo, afirma que a leitura de tendências da companhia indicou que o público estava pronto para um novo patamar de exigência: “Vemos um consumidor que demonstra curiosidade, entendimento técnico e apetite real por construções olfativas de maior intensidade e profundidade.”
Olhando para o futuro, Dieamant destaca que os aprendizados técnicos dessa plataforma influenciarão todo o portfólio do grupo, mas ressalta o cuidado em não descaracterizar linhas icônicas como Malbec e Lily. “Nosso compromisso é preservar essa essência — e nunca descaracterizá-la. A perfumaria árabe exige um espaço próprio para prosperar com autenticidade, e é nesse caminho que seguimos.”
Ele ainda detalha que a tática para fazer com que a intensidade das fragrâncias orientais fosse bem recebida e compreendida pelos brasileiros de norte a sul do País é convidar o consumidor a fazer parte da experiência olfativa.
“Trabalhamos para traduzir a perfumaria árabe de forma acessível, contextualizando o uso, o ritual e a aplicação. A experimentação em loja tem um papel central nesse processo. Esse contato direto ajuda a quebrar a ideia de que intensidade não combina com o Brasil, quando, na verdade, o que faz a diferença é a forma de usar”, argumenta.
- Hinode: desenvolvimento na fonte e experiência premium
A Hinode adotou um caminho de imersão direta para sustentar sua competitividade no nicho. Ao desenvolver os elixires da linha Inebriante diretamente em Dubai, epicentro da perfumaria árabe contemporânea, e sob a assinatura do perfumista Iliás Erminides, a empresa buscou um diferencial de “autenticidade e profundidade”.
“Cada elemento foi cuidadosamente pensado e desenvolvido para representar da melhor forma possível toda a riqueza do universo árabe. É uma expressão de cultura e respeito, diferenciais que nos posicionam de forma exclusiva frente às fragrâncias que apenas tentam replicar o olfativo árabe no mercado brasileiro”, explica Lorhayne de Oliveira Madeira, analista de produtos da marca.
A estratégia resultou em um aumento significativo e relevante para a empresa de share e ticket médio, atraindo novos consumidores que buscam um posicionamento mais aspiracional. O plano estratégico da marca para 2026 prevê a expansão desse território com novas interpretações olfativas, baseadas em estudos realizados em parceria com a Firmenich.
“Dentro desse contexto, e para os próximos cinco anos, a Hinode projeta esse segmento como um território sólido e em expansão, com evolução para propostas cada vez mais inovadoras e alinhadas às tendências de mercado”, conclui Madeira.
O futuro é o fim do minimalismo olfativo?
Embora o mercado de tendências seja cíclico, Márcia Scansani acredita que a perfumaria árabe estabeleceu um novo padrão de qualidade técnica que dificilmente retrocederá. O foco agora é o equilíbrio: a fusão entre a opulência oriental e a sustentabilidade brasileira.
A perfumista projeta que, mesmo que o minimalismo retorne, ele não ocupará o centro do mercado como antes. “O consumidor aprendeu que o perfume pode ser mais”, pontua.
Ela também acrescenta que além da busca maior por parte das casas de perfumaria brasileiras por ingredientes orientais, existe uma transformação também nos objetivos dos produtos desenvolvidos, que ganharam um direcionamento mais abstrato e comportamental: “Fala-se mais de sensação, poder, presença, assinatura, menos de frescor, limpeza e consenso. Isso indica um amadurecimento do mercado e uma abertura maior para riscos criativos, expandindo o repertório nacional”, finaliza.