Opinião

Retratos estáticos de um País em movimento

Pessoas transitam entre essas categorias com velocidade impressionante, especialmente quando estímulos emocionais, econômicos ou simbólicos entram em cena

Igor Puga

Líder de marketing e growth do PicPay 12 de janeiro de 2026 - 20h01

Toda sociedade recorre a classificações quando a realidade começa a parecer caótica. Para empresas, marcas e líderes, esse impulso é ainda mais forte: mapas conceituais ajudam a reduzir incertezas, organizar decisões e transformar complexidade social em estratégia. O novo livro de Felipe Nunes, CEO da Quaest (Brasil no espelho: Um guia para entender o Brasil e os brasileiros), nasce exatamente desse desejo, ao propor uma fotografia comportamental e ideológica do brasileiro a partir de nove bolhas sociais.

O esforço é ambicioso — e relevante. Em vez de insistir na polarização rasa entre dois polos antagônicos, o estudo organiza o País em agrupamentos atravessados por valores morais, expectativas econômicas, relação com o Estado, visão de autoridade e percepção de ameaça. O retrato que emerge é menos ideológico do que funcional: pessoas respondem menos a rótulos políticos clássicos e mais à sensação de ordem, segurança e previsibilidade. O Brasil revelado pelo estudo é um país desconfiado, ambivalente e profundamente adaptativo.

Na obra, essa ambivalência se materializa na identificação das nove bolhas. O maior grupo é formado pelos conservadores populares, cerca de 19% da população, defensores de valores tradicionais, da religião e da ordem, mas sem rejeição automática ao Estado ou a políticas de proteção social. Em seguida, aparecem os chamados pragmáticos de centro, aproximadamente 15%, grupo frequentemente citado pelo autor como reflexo do cansaço da polarização: pouco ideológicos, avessos ao conflito político e orientados por soluções imediatas.

Vêm, depois, os progressistas engajados, cerca de 13%, alinhados a pautas identitárias, direitos civis e valores culturais liberais, seguidos pelos conservadores liberais, cerca de 12%, que combinam discurso moral tradicional com defesa de mercado e autonomia individual. Há, ainda, os despolitizados, aproximadamente 11%, com baixo interesse por política institucional e decisões guiadas por necessidades práticas do dia a dia, e os moderados ambíguos, perto de 10%, que oscilam de posição conforme o contexto econômico, social ou emocional.

Completam o retrato os autoritários, cerca de 8%, mais descrentes da democracia representativa e abertos a soluções centralizadoras; os progressistas pragmáticos, aproximadamente 7%, menos mobilizados por identidade e mais por políticas públicas funcionais; e os liberais cosmopolitas, apenas 5%, minoria altamente escolarizada, aberta à globalização e a valores liberais amplos.

À primeira vista, o País parece finalmente organizado. À segunda, o que salta aos olhos é o oposto: um Brasil fragmentado em zonas cinzentas, no qual pragmatismo defensivo, ambiguidade moral e deslocamentos constantes entre posições são mais a regra do que a exceção. O centro existe, mas não domina. O conservadorismo é plural. O progressismo é consistente, porém minoritário. E uma parcela relevante se move conforme o cenário aperta ou afrouxa.

Esse diagnóstico ajuda a entender por que incoerências aparentemente opostas convivem com tanta naturalidade no cotidiano brasileiro. O mesmo indivíduo pode rejeitar a política institucional e, ao mesmo tempo, esperar que o Estado resolva tudo; defender valores morais tradicionais e consumir produtos culturais progressistas; reclamar de impostos enquanto cobra serviços públicos melhores; declarar cansaço da polarização discursiva e aderir, circunstancialmente, a soluções autoritárias quando sente ameaça ou insegurança. Essas contradições não são ruído nem falha de caráter — são respostas adaptativas a contextos específicos. Nesse Brasil descrito pelo livro, valores não funcionam como âncoras estáveis, mas como recursos acionados conforme o ambiente pressiona.

Em entrevista concedida a O Globo, Nunes afirma que o cansaço da polarização estaria empurrando especialmente os jovens para posições mais centristas e menos ideológicas. A leitura faz sentido à luz dos dados, mas carrega uma armadilha interpretativa: confundir desideologização com estabilidade. Em contextos de medo, escassez ou crise institucional, o pragmático pode rapidamente aderir a discursos mais duros. O centro, neste Brasil, raramente é destino — costuma ser travessia.

Para marcas, publicitários e líderes empresariais, é aqui que o retrato começa a exigir cuidado. Bolhas ajudam a explicar padrões médios de comportamento, mas não trajetórias individuais. Pessoas transitam entre essas categorias com velocidade impressionante, especialmente quando estímulos emocionais, econômicos ou simbólicos entram em cena. O mesmo consumidor pode parecer pragmático pela manhã, conservador à tarde e progressista à noite — dependendo do risco percebido, da narrativa dominante ou do espaço social em que está inserido.

Ainda assim, o ecossistema de negócios tem forte atração por tipologias. Dados viram briefing. Bolhas viram persona. Persona vira atalho criativo. Ideologia vira chave explicativa suficiente para decisões culturais complexas. O resultado são estratégias que funcionam bem no curto prazo, mas carregam fragilidade estrutural: falam com o grupo “correto”, mas ignoram que os próprios indivíduos atravessam várias bolhas ao longo do dia.

Para lideranças empresariais, o risco é confundir fotografia com previsão. Quanto mais organizado parece o diagnóstico, maior a tentação de tratá-lo como mapa confiável do futuro. Mas comportamento social não responde a planilhas com a mesma disciplina que responde a incentivos, medo, pertencimento e promessa de ordem. Bolhas oferecem conforto cognitivo — não garantia estratégica.

Nada disso diminui o valor do livro. Pelo contrário. Seu mérito maior talvez seja expor, com mais honestidade do que estamos acostumados, o grau de ambivalência e tensão que estrutura o Brasil contemporâneo. Mas esse mesmo mérito impõe um alerta para quem consome o diagnóstico como ferramenta de decisão.

No fim, a pergunta mais incômoda para marcas e líderes não é se o Brasil cabe em nove bolhas. A pergunta real é: por que precisamos tanto que ele caiba? Estamos usando esses retratos para entender melhor a sociedade com a qual desejamos dialogar ou para reduzir sua complexidade a categorias administráveis que nos deem a sensação de controle?

Porque o verdadeiro risco estratégico não está em errar o diagnóstico. Está em se apegar demais a ele.