Retratos estáticos de um País em movimento
Pessoas transitam entre essas categorias com velocidade impressionante, especialmente quando estímulos emocionais, econômicos ou simbólicos entram em cena
Toda sociedade recorre a classificações quando a realidade começa a parecer caótica. Para empresas, marcas e líderes, esse impulso é ainda mais forte: mapas conceituais ajudam a reduzir incertezas, organizar decisões e transformar complexidade social em estratégia. O novo livro de Felipe Nunes, CEO da Quaest (Brasil no espelho: Um guia para entender o Brasil e os brasileiros), nasce exatamente desse desejo, ao propor uma fotografia comportamental e ideológica do brasileiro a partir de nove bolhas sociais.
O esforço é ambicioso — e relevante. Em vez de insistir na polarização rasa entre dois polos antagônicos, o estudo organiza o País em agrupamentos atravessados por valores morais, expectativas econômicas, relação com o Estado, visão de autoridade e percepção de ameaça. O retrato que emerge é menos ideológico do que funcional: pessoas respondem menos a rótulos políticos clássicos e mais à sensação de ordem, segurança e previsibilidade. O Brasil revelado pelo estudo é um país desconfiado, ambivalente e profundamente adaptativo.
Na obra, essa ambivalência se materializa na identificação das nove bolhas. O maior grupo é formado pelos conservadores populares, cerca de 19% da população, defensores de valores tradicionais, da religião e da ordem, mas sem rejeição automática ao Estado ou a políticas de proteção social. Em seguida, aparecem os chamados pragmáticos de centro, aproximadamente 15%, grupo frequentemente citado pelo autor como reflexo do cansaço da polarização: pouco ideológicos, avessos ao conflito político e orientados por soluções imediatas.
Vêm, depois, os progressistas engajados, cerca de 13%, alinhados a pautas identitárias, direitos civis e valores culturais liberais, seguidos pelos conservadores liberais, cerca de 12%, que combinam discurso moral tradicional com defesa de mercado e autonomia individual. Há, ainda, os despolitizados, aproximadamente 11%, com baixo interesse por política institucional e decisões guiadas por necessidades práticas do dia a dia, e os moderados ambíguos, perto de 10%, que oscilam de posição conforme o contexto econômico, social ou emocional.
Completam o retrato os autoritários, cerca de 8%, mais descrentes da democracia representativa e abertos a soluções centralizadoras; os progressistas pragmáticos, aproximadamente 7%, menos mobilizados por identidade e mais por políticas públicas funcionais; e os liberais cosmopolitas, apenas 5%, minoria altamente escolarizada, aberta à globalização e a valores liberais amplos.
À primeira vista, o País parece finalmente organizado. À segunda, o que salta aos olhos é o oposto: um Brasil fragmentado em zonas cinzentas, no qual pragmatismo defensivo, ambiguidade moral e deslocamentos constantes entre posições são mais a regra do que a exceção. O centro existe, mas não domina. O conservadorismo é plural. O progressismo é consistente, porém minoritário. E uma parcela relevante se move conforme o cenário aperta ou afrouxa.
Esse diagnóstico ajuda a entender por que incoerências aparentemente opostas convivem com tanta naturalidade no cotidiano brasileiro. O mesmo indivíduo pode rejeitar a política institucional e, ao mesmo tempo, esperar que o Estado resolva tudo; defender valores morais tradicionais e consumir produtos culturais progressistas; reclamar de impostos enquanto cobra serviços públicos melhores; declarar cansaço da polarização discursiva e aderir, circunstancialmente, a soluções autoritárias quando sente ameaça ou insegurança. Essas contradições não são ruído nem falha de caráter — são respostas adaptativas a contextos específicos. Nesse Brasil descrito pelo livro, valores não funcionam como âncoras estáveis, mas como recursos acionados conforme o ambiente pressiona.
Em entrevista concedida a O Globo, Nunes afirma que o cansaço da polarização estaria empurrando especialmente os jovens para posições mais centristas e menos ideológicas. A leitura faz sentido à luz dos dados, mas carrega uma armadilha interpretativa: confundir desideologização com estabilidade. Em contextos de medo, escassez ou crise institucional, o pragmático pode rapidamente aderir a discursos mais duros. O centro, neste Brasil, raramente é destino — costuma ser travessia.
Para marcas, publicitários e líderes empresariais, é aqui que o retrato começa a exigir cuidado. Bolhas ajudam a explicar padrões médios de comportamento, mas não trajetórias individuais. Pessoas transitam entre essas categorias com velocidade impressionante, especialmente quando estímulos emocionais, econômicos ou simbólicos entram em cena. O mesmo consumidor pode parecer pragmático pela manhã, conservador à tarde e progressista à noite — dependendo do risco percebido, da narrativa dominante ou do espaço social em que está inserido.
Ainda assim, o ecossistema de negócios tem forte atração por tipologias. Dados viram briefing. Bolhas viram persona. Persona vira atalho criativo. Ideologia vira chave explicativa suficiente para decisões culturais complexas. O resultado são estratégias que funcionam bem no curto prazo, mas carregam fragilidade estrutural: falam com o grupo “correto”, mas ignoram que os próprios indivíduos atravessam várias bolhas ao longo do dia.
Para lideranças empresariais, o risco é confundir fotografia com previsão. Quanto mais organizado parece o diagnóstico, maior a tentação de tratá-lo como mapa confiável do futuro. Mas comportamento social não responde a planilhas com a mesma disciplina que responde a incentivos, medo, pertencimento e promessa de ordem. Bolhas oferecem conforto cognitivo — não garantia estratégica.
Nada disso diminui o valor do livro. Pelo contrário. Seu mérito maior talvez seja expor, com mais honestidade do que estamos acostumados, o grau de ambivalência e tensão que estrutura o Brasil contemporâneo. Mas esse mesmo mérito impõe um alerta para quem consome o diagnóstico como ferramenta de decisão.
No fim, a pergunta mais incômoda para marcas e líderes não é se o Brasil cabe em nove bolhas. A pergunta real é: por que precisamos tanto que ele caiba? Estamos usando esses retratos para entender melhor a sociedade com a qual desejamos dialogar ou para reduzir sua complexidade a categorias administráveis que nos deem a sensação de controle?
Porque o verdadeiro risco estratégico não está em errar o diagnóstico. Está em se apegar demais a ele.