Um bilhão de seguidores

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Opinião

Um bilhão de seguidores

Se as redes sociais existissem na década de 1970, Pelé teria mais que seguidores e sim discípulos do seu talento, imaginação, tenacidade, visão e insuperável gana


10 de janeiro de 2023 - 6h00

Crédito: Divulgação

Recreio, escola primária, eu, seis aninhos.
Multidão em volta de mim.
Todo mundo querendo ser amigo.
Me chamando para o time.
Muitas perguntas.
Adulação.
Eu?
Tímido, enfim redimido.
Peito estufado.
— Sim, brasileiro. Sim, como ele.
Pela primeira vez, orgulho da pátria incógnita, distante, fantasiada.
Que orgulho desse Rei que me coroou!
Um Rei que descobri na véspera, na festa em casa, na noite do domingo, 21 de junho de 1970, Paris, Boulevard Malesherbes: adultos chorando, gritando, dançando; mãe abraçada em uma bandeira; e, acima da TV, ele, gigante-gigantesco, o mais orgulhoso, o mais forte, o mais brasileiro de todos os brasileiros, Pelé.

Pelé me ungiu brasileiro.

Muitas décadas depois, eu, brasileiro-meio-francês-meio-brasileiro, saio de uma reunião profissional e ouço uma voz rouca e gingada. Pergunto ao cliente:
— Marcos, Tonico, essa voz… essa voz é do Pelé?
Era.
Dei uma mão comportada ao Rei. Mas eu queria era beijar-lhe os pés. Dizer-lhe que ele era o meu Brasil. O Brasil criativo. O Brasil sorridente e carinhoso. O Brasil soberano, inclusivo, inteligente, aberto e generoso. O Brasil da gana. Balbuciei um obrigado tímido, todo francesinho envergonhado.

Naquele ano, a F/Nazca Saatchi & Saatchi, onde eu trabalhava, teve a felicidade de criar o site da biografia superlativa do Pelé para o zip.net, que estava lançando um portal de esporte com seu nome (pele.net). Implorei essa honra ao Fabio Fernandes, meu chefe, e Marcos de Moraes, nosso cliente. Justiça feita ao Rei: Leão de Ouro em 2001.

Pelé foi um grande homem, um grande jogador, um grande brasileiro. Foi também o maior de todos os garotos-propaganda, a maior celebridade, o melhor influencer do Brasil de todos os tempos. Se as redes sociais existissem na década de 1970, Pelé teria um bilhão de seguidores, dois bilhões talvez. Seguidores no sentido metafórico da palavra: discípulos do seu talento, imaginação, tenacidade e visão. Discípulos da sua insuperável gana.

Vivemos um tempo em que a fama – e a grana que dela depende – se mede em quantidade, e não em qualidade. Vale mais quem tem mais, e não quem é melhor. Apesar de nos fazerem acreditar que a falaciosa métrica de engajamento dá a verdadeira dimensão qualitativa dos conteúdos, no fundo, lá no fundo, é com a quantidade que nos locupletamos. Quantidade de seguidores, likes, risadinhas, aplausinhos, “emoticonzinhos”, “kkks” e inúmeros outros comentários superlativos. Nesse mundo quase distópico, a fama se alimenta da fama. E o conteúdo, o feito e a ideia – a ideia também – viraram tributários da fama.

— Por que escolheram tal pessoa para ser seu influencer?
— Porque essa pessoa é gigante!
— Ela fez o que para ser gigante?
— Ué, milhões de seguidores, likes e “kkkks”.

Ninguém é gigante porque criou o clipe, o fósforo, a palha de aço ou a batata chips. Ninguém é gigante porque é talentoso, criativo e original. É gigante porque conquistou seguidores. A fama se alimenta da fama. A fama não se merece. A fama se cria.

Mas Pelé não tinha seguidores. Tinha discípulos. Lição do Rei: não me sigam pela fama, sigam-me pela gana.

Pelé fez Pepsi, Atari, Bombril – é claro –, VW Gol – é óbvio –, Nokia, Vivo, Emirates, a emocionante homenagem do Itaú e tantas mais propagandas. Algumas campanhas publicitárias inesquecíveis, outras não tão memoráveis. Não era pelas fotos, pela pose. Pelé não era bom ator. Estrelava as propagandas que retratavam espírito, originalidade, vitória e gana.

Pelé, sempre escalado pelo que era, e não pelo que parecia, foi um Rei digno de seu um bilhão de discípulos.

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