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A morte da compra de mídia

A operação se tornou o novo core estratégico?

Luiz Fernando Ruocco

VP Sênior de Performance da Monks Brasil 29 de janeiro de 2026 - 10h08

O mercado publicitário vive uma ilusão de continuidade. Se você ainda encara a mídia como um mero canal de distribuição da estratégia e não como o seu próprio núcleo, é hora de recalibrar os fundamentos do seu negócio.

Para avançarmos, precisamos resgatar a distinção clássica de Michael Porter entre dois pilares que o mercado frequentemente confunde:

● Eficácia Operacional: fazer o que os concorrentes fazem, mas de forma mais ágil ou barata. É a adoção das ditas ‘melhores práticas’ – ou, na verdade, o básico para a sobrevivência.

● Estratégia: Criar uma vantagem competitiva sustentável ao realizar atividades diferentes ou executar atividades similares de maneira única e irreplicável.

Aí que está a diferença do jogo. Enquanto a maioria das agências ainda se limita a ‘comprar’ mídia, o verdadeiro diferencial competitivo está em ‘operar’ a mídia.

Do espaço comercial ao algoritmo: a evolução do ecossistema

Historicamente, a área de mídia nasceu para rentabilizar inventários de alta visibilidade. O trabalho era pautado por negociação e planejamento de grade: a busca era basicamente em estar no lugar certo, na hora certa. Era um jogo de braço de ferro por preço e posicionamento.

A digitalização transformou esse cenário em um ecossistema de complexidade exponencial.
Saímos dos formatos fixos para o leilão em tempo real (RTB), onde o bid e a segmentação granular passaram a ditar o alcance.

Em 2017 (sim, desde essa época), a inteligência artificial consolidou-se com o smart bidding, permitindo que não comprássemos apenas audiências, mas ‘sinais de sucesso’.

O custo da inércia em 2026

Chegamos à 2026 com uma inevitável pergunta: por que tantas agências ainda operam com o mindset de 2010?

Os dados são implacáveis. Um estudo recente da consultoria Lunio (o The Global Invalid Traffic Report 2026) revelou que o ecossistema global de cliques gerou nada menos do que US$ 63 bilhões em tráfego inválido.

Quando olhamos para a compra programática, um relatório da Association of National Advertisers (ANA), de agosto de 2025, apontou um desperdício alarmante de 36,5% do investimento total.
Ou seja: vender ‘impressões’ em 2026 não é estratégia. É negligência com o capital do cliente.

A inversão do fluxo: da criação isolada à operação integrada

Tradicionalmente, a Criação detinha o monopólio da estratégia porque a mídia era vista apenas como um braço de negociação.

As grandes estruturas das agências foram moldadas em torno do ‘grande filme’, o carro-chefe da campanha, enquanto a mídia se virava para ‘fatiar’ a peça e fazê-la caber nos formatos digitais.

Tudo mudou. Agora, ser estratégico exige romper com esse fluxo geracional.
Considere o modelo obsoleto: a Criação define o roteiro, o Planejamento faz um dossiê do consumidor, e a Mídia executa o corte técnico. O resultado? Relatórios inflados de impressões que ignoram a conversão real e o negócio do cliente. Não tem como dar certo.

A alternativa estratégica: mídia como operação de inteligência

Qual a saída? No lugar de campanhas sazonais, é melhor tocar uma operação always on, com um plano estratégico que crie conexão, onde a estrutura é perene e os criativos são as variáveis de teste.

Em um modelo como esse, passamos a ter:

eficiência: otimizações contínuas podem elevar a eficiência em níveis superiores a 95%;

inteligência de ativos: audiências e peças são testadas e retestadas por meses, principalmente para decifrar os atributos que realmente movem o ponteiro do negócio;

produção fluida: o briefing nasce da segmentação e dos dados de performance. O roteiro não é uma peça fechada, mas um ecossistema de possibilidades para uma hiperpersonalização em tempo real. As possibilidades se tornam infinitas.

O novo indicador de sucesso

Desta forma, a ‘cereja do bolo’ deixa de ser o CPC ou o CPM. É a mensuração do investimento baseada no resultado real de negócio (incrementalidade e ROI).

Neste novo paradigma, a mídia deixa de ser um ‘departamento’ para se tornar uma operação logística de alta precisão.

Com esse contexto, a pergunta que fica para marcas e agências não é mais ‘onde vamos anunciar?’, mas sim: ‘como vamos operar nossa vantagem competitiva hoje?’. E você: como pretende ter essa vantagem?