Liderança pós-IA com respostas do passado que não servem
Debate sobre o futuro do trabalho deixa ferramentas e foca na sensibilidade humana contra o Work Slop
Durante o SXSW 2026, os painéis que acompanhei confluíram de uma maneira surpreendente. Uma delas foi a apresentação “Skills You’ll Need to Succeed in the Post-AI Age” (em português: “As habilidades que vão importar na era pós-IA”) conduzida por Kai Riemer e Sandra Peter, da Universidade de Sydney. Os pesquisadores denominam o momento atual como a “década da desorientação”, um período marcado por mudanças estruturais simultâneas e difíceis de prever.
Essas transformações constantes enfraquecem a concepção de megatendências lineares. Essa percepção dialoga com o conceito da futurista Lyn Jeffery sobre as “zombie ideas”: ideias refutadas pelos fatos, mas que se recusam a morrer. No painel “Strategy in Times of Chaos” (em português: “Estratégia em tempo de caos”) apresenta a crença de que o diploma universitário é um passaporte garantido para a ascensão social como uma ideia zumbi ainda muito presente nos dias atuais.
Segundo a futurista, na década de 50 um diploma garantia 250% mais riqueza, enquanto três décadas depois, esse ganho despencou para 42%. Isso porque o mercado não tem condições de criar empregos qualificados na mesma proporção de formados. E acrescentaria que a formação nem sempre consegue acompanhar a necessidade real do mercado. Situação que gera um descompasso. Por isso, me atraiu a proposta dos novos modelos institucionais considerando uma reestruturação na formação, trazendo a IA para a personalização do aprendizado e do feedback direcionado. Ela também propõe o desenvolvimento de capacidades que a inteligência artificial ainda não consegue reproduzir com eficácia, como o pensamento crítico, a criatividade, a empatia, a colaboração e a ética.
A intuição, habilidade apresentada por Steven Spielberg como “nosso melhor amigo” e um guia fundamental no processo criativo, também precisa ser estimulada. Aqui vejo um papel importante do líder, porque ele precisa prover esse espaço de improviso e ter sensibilidade para perceber quando a ousadia pode romper barreiras e gerar conexões.
Creio que isso conversa diretamente com o perfil de “líder com os pés no chão” (grounded leader), defendido por Riemer e Peter. Um profissional que vai precisar saber equilibrar tensões entre eficiência algorítmica e controle humano. Para isso, esse líder deve dominar o pensamento sistêmico e a alfabetização em IA para colaborar criticamente, sem abrir mão das decisões estratégicas.
O futuro não será uma escolha binária entre humanos ou máquinas, mas sobre a coragem de liderar integrando o melhor de ambos. O risco real não é a substituição, mas a complacência: permitir que o uso acrítico da IA atrofie a expertise humana. Se a busca pela eficiência se transformar em comodidade intelectual, cairemos na armadilha do Work Slop — um oceano de entregas medíocres e sem alma. Para navegar nesta “década da desorientação”, o líder precisa ser o guardião do julgamento humano. Afinal, a tecnologia deve servir para elevar nossa performance ao extraordinário, e não para nos nivelar pelo caminho mais fácil.