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Performance sem limite tem custo humano

No SXSW, debate sobre IA questiona limites no aprendizado e o papel do esforço no desenvolvimento infantil

Felipe Calbucci

CEO LATAM da TotalPass 17 de março de 2026 - 14h41

Acompanhar o SXSW é, todos os anos, um exercício interessante de leitura de futuro. Em meio a tantas discussões sobre tecnologia, inovação, comportamento e transformação dos negócios, um tema em especial me chamou a atenção desta vez: burnout.

Na palestra “The Burnout Economy: Leading in an Age of Exhaustion”, do Dr. Daniel Augusto Motta, a principal provocação era clara: burnout não é apenas uma questão individual. Muitas vezes, é consequência de sistemas de trabalho que passaram a tratar a exaustão como parte natural da alta performance.

Os dados ajudam a dimensionar esse cenário. No relatório Artificial Happiness, da BMI, 74,2% dos respondentes afirmam que metas de performance estão entre os maiores impulsionadores de estresse no trabalho. Outros 69,3% dizem que críticas no ambiente profissional podem empurrar pessoas para o uso de medicações voltadas ao aumento de desempenho. Mais de 90% acreditam que colaboradores e executivos tendem a recorrer cada vez mais a substâncias para lidar com pressão e expectativa por resultados.

Isso mostra que o esgotamento não pode mais ser tratado apenas como um tema de saúde individual. É uma conversa sobre cultura, liderança e desenho do trabalho.

E discutir isso também é discutir comunicação. A forma como prioridades são definidas, como urgências são colocadas, a clareza, ou a falta dela, nas mensagens, o excesso de interrupções e a sensação de que nada nunca termina comunicam, todos os dias, o que a empresa espera das pessoas.

Não por acaso, o mesmo relatório mostra que 61% dos respondentes acreditam que a pressão gerencial crescente por máxima performance contribui diretamente para esse tipo de comportamento. Há ainda outro dado simbólico: quase 70% dos respondentes consideram essencial enxergar propósito no trabalho, e 69,3% associam satisfação profissional à realização e ao significado no que fazem.

Para mim, um dos principais pontos da palestra foi justamente esse: liderança não é só direcionamento. Liderança também é sinalização. Cada decisão, cada mensagem e cada prioridade reforçam um ambiente de calma ou ansiedade, de segurança ou instabilidade, de foco ou sobrecarga.

Durante muito tempo, eficiência foi a principal pergunta da gestão: como fazer mais, mais rápido e com mais intensidade. Mas talvez a pergunta mais importante daqui para frente seja outra: essa decisão gera ou consome energia humana?

Essa mudança de perspectiva importa porque nenhuma empresa sustenta resultados no longo prazo drenando a capacidade cognitiva, emocional e relacional das pessoas. A conta da exaustão pode não aparecer no primeiro momento, mas aparece em queda de foco, piora nas relações, retrabalho, afastamentos e perda de conexão com o propósito.

Na TotalPass, essa é uma reflexão que faz parte da nossa visão de negócio. Quando falamos sobre bem-estar, não estamos falando apenas de benefício, mas de estratégia. Cuidar da energia das pessoas, ampliar o acesso à saúde integral e ajudar empresas a construírem rotinas mais sustentáveis não é um tema paralelo à performance. É parte do que torna a performance possível no longo prazo.

No fim, a pergunta mais estratégica para as lideranças talvez já não seja mais “como extrair mais performance?”, mas sim “que tipo de ambiente estamos construindo para que ela não custe as pessoas no processo?”.

Porque o resultado sustentável não vem de consumir energia, mas de saber protegê-la.