Como amizades reforçam a construção de ambientes inclusivos
Empresas que estimulam relações interpessoais apostam em uma cultura de inclusão, saúde mental e retenção de talentos

(Crédito: Shutterstock)
Quando o tema é inclusão no ambiente corporativo, é comum pensarmos em acessibilidade física, adaptações tecnológicas e políticas de diversidade. Mas existe um fator silencioso, muitas vezes negligenciado, que pode transformar radicalmente a experiência de pessoas com deficiência e neurodivergentes no trabalho: a amizade.
A segunda edição da pesquisa “Radar da Inclusão 2025”, sobre empregabilidade de pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes, da Talento Incluir e Pacto Global da ONU, revela dados inéditos sobre uma realidade preocupante: 24% dos profissionais com deficiência e neurodivergentes sentem que não têm ninguém com quem conversar ou desabafar no trabalho.
Além disso, 35% relatam não ter amigos no ambiente corporativo e 20% avaliam de forma negativa a relação com chefes e lideranças. Esses números mostram que, para muitos, o ambiente de trabalho ainda é um espaço de solidão e barreiras emocionais.
Um outro estudo, realizado pela Gallup e KPMG, aponta que profissionais que têm amigos no trabalho são até sete vezes mais engajados. Amizades genuínas aumentam a satisfação, a produtividade e a retenção de talentos. Para pessoas com deficiência, esse engajamento é ainda mais valioso: ele representa pertencimento, apoio e oportunidades reais de crescimento. Enquanto isso, as empresas usufruem dos melhores benefícios dessas amizades, colhendo mais possibilidades de inovação, de trabalho em time entre outros ganhos.
Em nossa rotina de trabalho frente à Talento Incluir, eu, Tabata Contri e Katya Hemelrijk criamos o grupo no WhatsApp que carinhosamente chamamos de “Hebe, Lolita e Nair”, uma alusão às celebridades que marcaram história com a amizade que era exemplo de alegria e companheirismo. O objetivo do nosso grupo era ir além do trabalho e para nos lembrar quem somos e de onde viemos, juntas. Especialmente na pandemia, quando não podíamos estar fisicamente próximas, o grupo foi nossa melhor maneira de mostrar que uma não ia largar a mão da outra.
Nos unimos como pessoas com deficiência. Conheci Tabata na reabilitação que fizemos na Rede Sarah, quando nos tornamos pessoas com deficiência. Ela por um acidente de carro e eu por um acidente de moto. A reabilitação é um processo que ajuda a pessoa com deficiência a adquirir independência e autonomia. Também colabora na prevenção de complicações secundárias e na promoção da saúde e do bem-estar geral da pessoa. A gente se conectou por nossa nova realidade, estilo de vida, entendimento do mundo, por nossas dúvidas, medos e desafios que nem imaginávamos que iríamos cruzar.
A Katynha chegou a mim por meio do teatro, quando eu e Tabata decidimos ajudar o Deto Montenegro a montar a primeira companhia de teatro formada por atores com deficiência e primeiro fruto da inclusão do grupo que já era sucesso: Oficina dos Menestréis. E foi incrível. Tabata se descobriu atriz naquela oportunidade.
Nossa aproximação se deu por meio da nossa realidade, mas é preciso deixar claro que essa não é a única forma de conexão, em especial no trabalho. Pessoas com deficiência também podem encontrar amizades nos times, por meio de outras conexões, como o fato de ser mãe ou pai, de atuar em áreas profissionais semelhantes, de gostos parecidos para artes, lazer, pela forma de entender o mundo, entre outros. Motivos comuns que aproximam as pessoas com suas características.
Somos, por acaso, três mulheres com deficiência, mães, esposas, profissionais, que se encontraram em desafios e no propósito que nos guia até hoje: entre trancos e muitos barrancos, atuar para a inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho de forma digna.
Ali, somos amigas, confidentes, parceiras e defensoras umas das outras. Compartilhamos desafios de acessibilidade, discutimos casos reais e criamos soluções inovadoras para tornar o ambiente mais justo e acolhedor na empresa e nos nossos clientes. Formamos uma rede com qualidades e aprendizados que são complementares entre nós. Não, nem tudo são flores. É uma relação real de amizade. Sujeita às variações do clima, dos complexos desafios e tudo mais. Porque conviver é a melhor instrução.
Nossa amizade nos permitiu enfrentar barreiras que, sozinhas, seriam intransponíveis. Juntas, criamos projetos que impactaram positivamente a vida de pessoas com deficiência, da própria Talento Incluir e das empresas que atendemos. O apoio mútuo nos deu coragem para buscar por qualidade de inclusão, de direitos, propor mudanças, concordar e discordar (faz parte) e construir um espaço seguro para todas as pessoas no ambiente de trabalho.
A junção do grupo “Hebe, Lolita e Nair” nos ensina que ter amizades no trabalho é mais do que ter companhia para as pessoas com deficiência: é ter alguém que entende suas vivências, desafios, que oferece suporte nos momentos difíceis e que celebra suas conquistas. Para pessoas com deficiência, essa rede de apoio é fundamental para evitar o isolamento, a exclusão e a autoexclusão, fortalecer a autoestima e promover saúde mental. A amizade tem o poder de despertar breves e pequenas felicidades no nosso dia a dia e não precisa ser somente entre pessoas com deficiência.
Aprendemos umas com as outras a confiar em uma ideia, a entender com mais profundidade as histórias reais de pessoas com deficiência no trabalho, respeitar a opinião e ter o conforto privilegiado de ser acolhida quando uma ação não tem o sucesso esperado. Ainda estamos em construção daquilo que está longe de ser perfeito e que lida com os limites do que é amizade e o que é trabalho, mas que se prova tão importante para nossa trajetória profissional, nossa criatividade, nossa resiliência e nossos objetivos maiores.
A amizade também é uma ponte para a inclusão verdadeira. Pode ser um poderoso elo entre pessoas com deficiência e pessoas sem deficiência na empresa. Isso ajuda e muito a romper estereótipos, aproximar pessoas de diferentes realidades e criar ambientes colaborativos, onde todos podem contribuir com suas singularidades.
É preciso que empresas repensem na formação dessas redes e se possibilitem um ambiente favorável para incentivar conversas, criar ambientes seguros e celebrar as conexões humanas. Empresas que estimulam relações interpessoais não só retêm talentos, mas inovam mais e têm equipes mais felizes.
Equipes amigas tornam-se um ativo potente e invisível que transforma empresas e vidas, formando times mais fortes, mais criativos e mais felizes. As amizades no trabalho são o caminho para uma inclusão real e duradoura. Investir em amizades no ambiente de trabalho é muito mais do que promover momentos de descontração. É apostar, de forma estratégica e humana, em uma cultura espontânea de inclusão, em saúde mental e na retenção de talentos a longo prazo.
Valorizar as amizades é, acima de tudo, construir empresas mais humanizadas, onde cada pessoa, com deficiência, neurodivergente ou não, possa ser quem realmente é, contribuir com todo seu potencial. Meu convite para as empresas em 2026 é despertar para esse investimento transformador. Que o exemplo da amizade cheia de nuances, aprendizados e conquistas compartilhadas de “Hebe, Lolita e Nair” possa se espalhar não apenas em prol da empresa, mas por algo ainda mais valioso: sentir-se parte de uma história ainda maior. Obrigada por existirem, amigas.