Como escapar de um abismo de habilidades no Brasil?
Enquanto em outros países as perdas estão mais ligadas à automação, aqui as transições profissionais ainda são o principal desafio

(Crédito: Unsplash)
Há quase um ano, no último Fórum Econômico Mundial, acompanhei o lançamento de uma nova série de pesquisas. Trata-se da Lost in Transition, um estudo que, na sua primeira edição sobre a economia estadunidense, já trouxe um dado preocupante: transições de carreira mal geridas custam mais de US$ 1,1 trilhão por ano aos Estados Unidos, pouco mais de 4% do seu PIB.
A pesquisa calculou perdas causadas por falhas no processo de aprendizado, focando em três pontos no ciclo de trabalho, onde essas lacunas são mais evidentes: a transição do fim do ciclo escolar para o mercado de trabalho; o movimento de um emprego para outro e a automação, em que tarefas humanas são substituídas pela tecnologia.
Ao me deparar com esse cenário na maior economia do globo, me inquietei para saber quais seriam as perdas e os impactos no Brasil, onde temos grandes desafios estruturais a superar na educação e no trabalho. Por isso, depois de analisar Austrália, Canadá, Arábia Saudita, Reino Unido e Estados Unidos (incluindo estudos específicos para Califórnia e Nova York), fizemos um retrato brasileiro a partir da mesma metodologia. E, infelizmente, ele surpreende de forma negativa. Os dados revelaram que, no país, as perdas econômicas em comparação ao PIB são as mais altas entre as economias já analisadas: cerca de 9% do PIB (2024), o que equivale a R$ 1,08 trilhão. Na Arábia Saudita, por exemplo, elas representaram apenas 1,3%.
Descobrimos que são nas transições de emprego onde estão nossas maiores perdas: 65% do total, refletindo o longo período de busca por trabalho. Em 2024, mais de 20% dos desempregados estavam há mais de dois anos à procura de emprego (cerca de 1,4 milhão de pessoas), com duração média de desemprego de 42 semanas, muito maior que no Canadá (18 semanas) e Reino Unido (32 semanas).
Esse cenário torna o desemprego de longa duração a maior fragilidade do Brasil. Enquanto em outros países as perdas estão mais ligadas à automação, aqui as transições profissionais ainda são o principal desafio. Nesse contexto, é clara a urgência de qualificar profissionais para evitar que milhões se tornem obsoletos.
Mas já conseguimos identificar alguns caminhos e mudanças culturais para criar uma força de trabalho mais adaptável e resiliente. Destaco um exemplo positivo vindo do Norte do nosso país. Segundo o estudo “Idiomas e Habilidades”, conduzido também em 2025 pela Pearson e Opinion Box, a região lidera a valorização de habilidades (skills) relacionadas às áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Por lá, o uso de tecnologias digitais (64%), skills de tecnologia (61%), análise de dados (53%) e inteligência artificial (46%) são apontadas como as habilidades para o trabalho mais importantes, segundo os entrevistados. Esse reconhecimento pode ser atribuído ao fortalecimento do ecossistema de inovação e incentivos à qualificação nos últimos anos. Como resultado, o número de startups na região cresceu de 94 em 2021 para 644 em 2024, segundo o Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups, da Associação Brasileira de Startups.
A exemplo dessa postura de aprendizagem ao longo da vida, que encontramos na região Norte, precisamos atualizar nosso olhar para o futuro do trabalho e investir em caminhos para superar lacunas de competências e avançar no desenvolvimento profissional. Lembro-me de vivenciar essa necessidade na pele. Aos 27 anos, motivada pelo feedback de um recrutador que estranhou o fato de eu não dirigir, decidi superar o medo que eu tinha e aprender. Foi nesse processo que ouvi do meu pai uma lição que carrego comigo até hoje: “O carro é só uma ferramenta. Quem está no controle em aprender como dominá-lo, ou não, é você”.
Da mesma forma, sem ações em escala efetivas para que profissionais assumam o controle e acelerem o desenvolvimento de competências, essas lacunas podem se transformar em um verdadeiro abismo de habilidades. É fundamental escalar programas de capacitação que levem nossos profissionais a se reinventarem constantemente. O Brasil ainda tem potencial de surpreender, mas dessa vez positivamente.