Opinião WW

O que aprendi com a Índia

Por que trabalhar com o time indiano de marketing do Google tem sido um exercício constante de desconstrução e recompensa

Maia Mau

Diretora de marketing do Google no Brasil 21 de janeiro de 2026 - 8h02

(Crédito: Shutterstock)

(Crédito: Shutterstock)

Escrevi esta coluna aproveitando as longas horas enquanto retorno de uma imersão profunda de negócios na Índia. Desde 2024, tenho o privilégio de liderar, ao lado de Shelar Koshla, CMO do Google na Índia, um grupo de trabalho focado em áreas prioritárias para os nossos mercados.

À primeira vista, a distância e as diferenças culturais saltam aos olhos. Mas, desde as nossas primeiras conversas, decidimos um caminho diferente: em vez de focar no que nos separa, mergulhamos no que nos une. E não é pouca coisa. Encontramos nos dois países uma população online engajada, entusiasmada com o potencial da inteligência artificial, uma base de Android expressiva e desafios de mercado muito semelhantes.

O que começou com calls em horários desafiadores e trocas de boas práticas evoluiu, neste último ano, para algo muito mais potente: a adoção de projetos de marketing entre Brasil e Índia. No entanto, mesmo com toda a tecnologia a nosso favor, o “poder do encontro” se provou insubstituível. No início de 2025, recebemos o time indiano em São Paulo, e ao final de dezembro, foi a nossa vez de aterrissar no país que já é a maior população do mundo — onde, curiosamente, circulam mais de 10 milhões de tuk-tuks pelas ruas todos os dias.

O perigo da história única

Nesta viagem, o que mais me surpreendeu foi, ironicamente, não ficar surpresa. Ao conversar com estudantes e jovens da genZ, vi espelhados ali os mesmos hábitos digitais, as mesmas inquietações e os mesmos sonhos que vejo por aqui.

Durante o voo de volta, li “O Perigo de uma História Única”, livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Ela nos alerta: “mostre um povo como uma coisa, uma coisa só, sem parar, e é isso que esse povo se torna”.  Na nossa vida corporativa, muitas vezes caímos nesta armadilha com mercados distantes. O estereótipo da Índia carente não é necessariamente uma mentira, mas, como diz a autora, é incompleto.

Trabalhar com o time indiano tem sido um exercício constante de desconstrução e recompensa. Conseguimos ser mais eficientes servindo a milhões de consumidores justamente porque abraçamos a complexidade e a colaboração como sentido para 2025.

Ao iniciarmos este ano de 2026, meu convite para o grupo é para que usemos a curiosidade para explorar como a IA pode facilitar processos. Imagino um futuro próximo onde investigamos como insights e tendências de consumo são automatizados e comparados em tempo real entre diferentes geografias; ou como a criação de assets digitais e traduções contextuais eliminam as barreiras linguísticas entre o português e as línguas indianas.

Volto com a mala cheia de novos sabores e experiências, mas, acima de tudo, com a convicção de que a inquietação e o “poder do não saber” nos levam a parcerias extraordinárias.

Fica a provocação para vocês:

– Qual parceria “improvável” pode ser desbloqueada na sua empresa hoje?

– Com quais áreas ou geografias você pode esticar seu aprendizado?

– E, principalmente: onde a IA pode ajudar a construir essa ponte?

Namastê. Obrigada!