Opinião WW

O ritual silencioso de começar de novo

Uma jornada de autoconhecimento e gentileza na busca por quem realmente desejamos ser

Ana Célia Biondi

CEO da JCDecaux Brasil 12 de janeiro de 2026 - 14h57

(Crédito: Shutterstock)

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Há um momento entre o fim de dezembro e o início de janeiro em que o mundo parece apertar o botão de “reiniciar”. A rotina ainda não voltou completamente ao normal, e vem a sensação de que é possível recomeçar. É nessa fresta de tempo que muitos de nós pegamos o velho caderno, abrimos uma nota no celular ou pegamos uma folha em branco para fazer a famosa lista de metas para o novo ano.

Quem nunca fez uma? Objetivos profissionais, promessas de vida saudável, planos de viagem, mudanças de hábito. A lista, por si só, já é um exercício de esperança. Ela diz muito menos sobre o que, de fato, vamos cumprir, e muito mais sobre quem gostaríamos de ser.

Confesso: faço minha lista todos os anos. Mas não começo pelo futuro. Começo voltando um ano no tempo. Antes de escrever qualquer nova meta, releio a lista do ano anterior. É a minha pequena cerimônia de prestação de contas comigo mesma. O que consegui realizar? O que ficou pelo caminho? O que perdeu o sentido no meio do percurso?

Esse olhar para trás é, talvez, a parte mais importante do ritual. Porque nem sempre o que ficou em branco é sinônimo de fracasso. Às vezes, a meta não cumprida revela apenas que mudamos. Aquela viagem que parecia urgente deixou de fazer sentido diante de outra prioridade que surgiu. O curso adiado deu lugar a um desafio profissional inesperado. O hábito saudável que não vingou acabou substituído por outro cuidado que não estava nos planos. A vida, afinal, não lê nossas listas.

Ao revisar o ano que passou, há pequenas vitórias escondidas nas entrelinhas – conquistas que nunca foram formalmente anotadas, mas que aconteceram. Uma conversa difícil que finalmente foi enfrentada. Um laço de amizade fortalecido. Uma escolha difícil, mas necessária. Tudo isso também conta, mesmo que não estivesse “planejado”.

Planejar o próximo ano, então, vai muito além de empilhar desejos. É um exercício de autoconhecimento. Ao decidir o que entra na lista, somos obrigados a responder silenciosamente a algumas perguntas incômodas: “O que, de fato, importa para mim agora? O que estou disposta a priorizar? Quanto tempo eu realmente tenho – e quero dedicar – a isso?”. E, talvez a mais delicada: “O que eu preciso deixar de fora?”

É tentador encher o papel, como se o número de itens fosse proporcional à nossa determinação. Mas, com o tempo, aprendemos que planejar também é saber recusar. Uma lista infinita costuma ser uma receita para frustração. Já uma lista enxuta, pensada com honestidade, tende a ser um mapa mais fiel.

Por isso, gosto dessa pausa de início de ano, justamente porque ela combina duas atitudes raras no nosso dia a dia: análise e intenção. Olhar para o ano que passou com sinceridade é um ato de coragem. E escolher, com calma, o que queremos buscar no próximo é um ato de responsabilidade. É como se disséssemos a nós mesmos: “Eu assumo a autoria da minha história, na medida do que consigo controlar”.

Claro, nada disso garante que as metas serão cumpridas. A vida continuará sendo atravessada por imprevistos, mudanças de rumo, surpresas boas e ruins. Mas o valor desse ritual não está apenas na execução perfeita do plano. Está na disposição de parar, pensar, ajustar a rota e tentar de novo.

Talvez devêssemos falar mais sobre isso: o direito de reescrever metas, de abandonar objetivos que já não combinam conosco, de admitir que mudamos no meio do caminho. O ano novo não exige coerência absoluta com quem fomos, mas sinceridade com quem estamos nos tornando.

Quando pego a lista do ano anterior, descubro que algumas metas se repetem ano após ano. Em outros tempos, eu veria isso como um fracasso insistente. Hoje, enxergo como uma pista. Talvez sejam justamente esses pontos recorrentes que mereçam mais atenção, mais estratégia ou até mais gentileza comigo mesma. Persistem na lista porque persistem em mim.

No fim das contas, o que mais me interessa nesse rito anual não é cumprir 100% da lista, mas ter esse encontro marcado comigo: revisar, aprender, escolher de novo. Entre o que passou e o que vem, há esse breve intervalo em que podemos pensar a vida com mais calma.

Talvez seja isso que torna os planos de ano novo algo tão especiais. Eles não são apenas promessas jogadas ao futuro, mas uma conversa íntima entre quem fomos, quem somos e quem ainda queremos ser. E, enquanto essa conversa existir, haverá sempre um jeito de começar de novo.