Queremos COPs menos vendidas para o algoritmo
Reduzir o evento à lógica do entretenimento, da polêmica ou da criação de conteúdo rápido é abrir mão da função pedagógica da comunicação

(Crédito: Raimundo Pacco/COP30)
Que a escolha das palavras atualmente é baseada na quantidade de audiência que elas podem atrair a gente já sabe, mas a COP30, realizada pela primeira vez na Amazônia, deveria ser tratada pela imprensa como um marco histórico. Não apenas por ocorrer em um dos biomas mais estratégicos do planeta, mas porque representa o ponto mais crítico de todas as conferências climáticas já realizadas.
É o encontro global que acontece quando o mundo ultrapassa limites planetários, acumula tragédias climáticas e vive retrocessos políticos inéditos. No entanto, grande parte da cobertura jornalística brasileira reduziu a complexidade do evento a narrativas superficiais focadas em infraestrutura e na coxinha e, pior, desconectadas de seu propósito real.
Embora exista uma parcela, especialmente de jornalismo independente, que fez um trabalho muito relevante tanto de cobertura quanto de divulgação científica, por outro lado existiu o conteúdo encomendando pelas grandes empresas patrocinadoras, muito “jabá” também entre os creators. Em outras palavras, muito hype e pouco uso da mídia como ferramenta de transformação social.
Em vez de contextualizar o papel histórico das COPs, muitos veículos optaram por manchetes centradas no preço da comida em Belém, no trânsito, no deslocamento de celebridades ou nos memes gerados por discursos negacionistas. A lógica é a da “economia da atenção”: o importante não é informar, é capturar cliques. E isso transforma a COP em espetáculo, não em jornalismo.
As COPs nasceram em 1992, durante a Earth Summit, no Rio de Janeiro, com a missão de construir acordos multilaterais que impeçam o colapso climático. São processos lentos, técnicos, complexos e absolutamente essenciais. É ali que os países negociam metas, discutem financiamento, definem responsabilidades e constroem diretrizes para manter o planeta habitável. Nada disso aparece quando o noticiário se ocupa apenas de trivialidades. O que deveria ser tratado como a conferência mais importante da década vira entretenimento de baixa resolução.
O Instituto Oyá nasce exatamente para democratizar o assunto clima. Durante a minha primeira COP, me marcou a proposital dificuldade dos temas, o que gera exclusão. Eu também não consegui entender os termos, então agora meu chamado é para encontrarmos um equilíbrio entre o hype e “eduinformar”.
Mas o problema não está apenas no jornalismo. Parte dos criadores de conteúdo que foram à COP30, muitas vezes convidados por marcas ou instituições, também contribui para a superficialidade. Falam sobre temas que não entendem, replicam informações sem verificação e tratam decisões altamente técnicas como se fossem trends passageiras. Não são apenas “pessoas na internet”. São formadores de opinião, com impacto real na compreensão pública sobre a maior crise de nossa era. Influenciar exige responsabilidade. E responsabilidade exige preparo.
A obsessão por “quanto custa o almoço” durante uma conferência climática é sintoma de algo maior: a desconexão entre parte das redações, parte dos influenciadores e a agenda climática. Enquanto cientistas alertam que sete das nove fronteiras planetárias foram ultrapassadas, nessa COP pela primeira vez tivemos Planetary Science Pavilion liderado por cientistas como Carlos Nobre, Johan Rockström e Tim Lenton, mas mesmo assim a cobertura dominante preferiu focar nas falas superficiais ou negacionistas. Isso não é apenas um erro editorial, mas uma distorção do papel público da comunicação.
Questões locais, como impacto econômico, infraestrutura e logística, são relevantes, mas não podem ocupar o centro da narrativa quando o que está em jogo é tão maior:
– o funcionamento das negociações internacionais;
– a urgência da transição energética;
– o papel da Amazônia no equilíbrio climático global;
– o impacto direto de cada fração de grau a mais no futuro de bilhões de pessoas.
Reduzir a COP30 à lógica do entretenimento, da polêmica ou da criação de conteúdo rápido é abrir mão da função pedagógica do jornalismo e da comunicação. É deixar a sociedade desinformada sobre o maior desafio coletivo da humanidade.
O Brasil, como anfitrião da COP30, está no centro do debate climático global. A imprensa e os influenciadores deveriam ter ocupado esse momento com responsabilidade equivalente. Isso significa explicar, contextualizar, aprofundar, traduzir dados, conectar ciência e política, garantir espaço às vozes dos territórios e aos especialistas que há décadas alertam sobre o que está acontecendo.
Se o jornalismo brasileiro e os criadores de conteúdo realmente querem cumprir seu papel, precisam assumir que informar não é apenas publicar, é engajar com profundidade, é educar, é influenciar com responsabilidade.
Enquanto cientistas pedem urgência e povos amazônicos defendem suas vidas e territórios, parte da cobertura insiste em olhar para o lado errado. Está na hora de lembrarmos que comunicar a crise climática não é escolher o que viraliza mais, é escolher o que importa.