A grande inovação pode ser o bom senso
Com a IA como infraestrutura, o foco do festival se volta ao repertório e ao senso crítico humano
Se nos últimos dois anos a inteligência artificial dominou os corredores de Cannes, acredito que 2026 será o ano em que a indústria começará a discutir algo ainda mais importante: a inteligência natural.
Não porque a IA tenha perdido relevância. Pelo contrário. Ela finalmente deixou de ser novidade para se tornar infraestrutura. Assim como aconteceu com a internet, o mobile e os dados, a inteligência artificial já não é mais um diferencial por si só. Ela passou a ser uma camada integrada aos processos.
O que muda agora é o foco da conversa.
Vejo uma evolução natural do debate. Saímos da capacidade tecnológica para a responsabilidade humana. Menos deslumbramento com o que a tecnologia é capaz de fazer e mais reflexão sobre como escolhemos utilizá-la.
Observando a programação deste ano, fica evidente que temas como a criatividade em ambientes orientados por IA, a transformação dos modelos de marketing, a cultura, a liderança e o impacto social ganham protagonismo. Isso sugere uma maturidade importante do mercado: a compreensão de que inovação não é apenas acelerar processos, mas garantir que continuemos fazendo as perguntas certas.
Em um momento onde máquinas produzem conteúdos em textos, imagens, vídeos e até decisões estratégicas, o diferencial competitivo deixa de ser apenas o acesso à tecnologia. Passa a ser o repertório, o senso crítico, a ética, o contexto cultural, a empatia e a capacidade de julgamento.
A abundância de conteúdo gerada por algoritmos torna ainda mais valiosa a habilidade humana de interpretar nuances, identificar tensões culturais e construir conexões genuínas. Afinal, criatividade não é apenas produzir mais rápido, mas, principalmente, conseguir atribuir significado.
Acredito que Cannes Lions 2026 será menos sobre inteligência artificial e mais sobre inteligência humana aplicada a um mundo potencializado por inteligência artificial.
Porque, no final, não serão as ferramentas que definirão o futuro da criatividade. Serão as escolhas das pessoas que as utilizam. Assim espero.