Cannes

Criatividade não precisa de muletas

No júri de Outdoor, a lição é clara: ideias verdadeiras se sustentam sozinhas, sem excesso de camadas

Emilia Rabello

NÓS - Novo Outdoor Social 23 de junho de 2026 - 12h45

No primeiro dia do festival o Brasil brilhou em Cannes com Mercado Livre e GUT conquistando o Grand Prix de Outdoor com a campanha “Código de Barras”.

Um reconhecimento que reforça a potência da criatividade brasileira, que a partir de uma ideia simples, mas culturalmente relevante e conectada ao negócio, encontra a rua.

Participei também do Inside of Jury Outdoor, que para mim é um dos momentos mais ricos do festival para entender quais critérios realmente diferenciam uma ideia criativa genuína de uma campanha que apenas usa tecnologia, dados ou até mesmo causas sociais como muleta.

Entre todos os trabalhos discutidos, a campanha que ganhou meu coração verde e amarelo foi a mexicana “The Last Coke in the Desert”, criada pela VML do México para a Coca-Cola e que levou o Leão de Ouro. Foi inspirada em um ditado popular e encontrou a última Coca-Cola no deserto.

O deserto é, por natureza, um território árido, vasto, com pouca circulação de pessoas e difícil de habitar. Ainda assim, a marca encontra sua Coca-Cola em vários pequenos comércios locais, valorizando os microempreendedores que revendem com capilaridade o produto.

É uma ideia que fala muito sobre o nosso universo das favelas brasileiras, das comunidades, dos pequenos revendedores e da economia da proximidade.

Assim como acontece nas periferias do Brasil, no México são os pequenos comércios que garantem presença, acesso e capilaridade para as grandes marcas. São eles que fazem o produto chegar aonde a logística tradicional muitas vezes não alcança. São eles que transformam distribuição em relação.

A campanha valoriza exatamente esse protagonista: o revendedor local. E faz isso sem romantizar ou usar esse personagem como pano de fundo. Ele é o centro da narrativa.

Ao citar sua rede de cerca de 1,2 milhão de pequenos comércios no México, a Coca-Cola fala de uma rede humana que sustenta a presença da marca no cotidiano.

É por isso que a campanha tem alma.

Ela não precisa de uma explicação complexa. Não depende de tecnologia para parecer. Ela parte de uma verdade humana, de uma relação real entre marca, território e comunidade.

A discussão do júri de Outdoor reforçou justamente essa percepção: criatividade não é sobre adicionar camadas. Ela precisa encontrar uma verdade tão forte que a ideia se sustente sozinha.

Os trabalhos que realmente se destacam não precisam de muletas. Não dependem de tecnologia para parecerem inovadores, nem de causas para parecerem relevantes.

Eles têm uma ideia forte: uma ideia que pertence à marca, que pode ser entendida rapidamente, que usa a tecnologia como ferramenta, que fala com pessoas, não apenas com consumidores, e que tem a coragem de ser simples em um mundo que insiste em complicar tudo.