Muito além do Palais
Entre praias, hotéis e cafés, o festival se consolida como o principal ponto de encontro global da comunicação
Quando pensamos no Cannes Lions, é natural imaginar o Palais des Festivals.
É ali que acontecem as palestras mais disputadas, a entrega dos Leões e boa parte dos encontros que movimentam a indústria durante a semana.
Mas depois de apenas algumas horas circulando por Cannes, fica evidente que o festival acontece muito além do Palais.
A criatividade continua sendo o centro de tudo. E deve continuar sendo. Afinal, são as ideias que justificam a existência do festival e atraem profissionais do mundo inteiro para a Riviera Francesa todos os anos.
Mais do que um festival de criatividade, Cannes também se consolidou como um grande ponto de encontro da indústria.
Ao caminhar pela Croisette, entrar nos hotéis, passar pelos beach clubs ou simplesmente sentar para um café, a sensação é que toda a indústria global da comunicação se encontra em um único lugar.
Executivos de marcas, agências, veículos, plataformas, criadores de conteúdo e empresas de tecnologia ocupam praticamente toda a cidade. Os encontros se espalham pelas praias, pelos rooftops, pelos restaurantes e pelos inúmeros espaços montados especialmente para a semana.
Poucos eventos conseguem reunir, ao mesmo tempo, perspectivas tão diferentes sobre os mesmos desafios da indústria. Cannes reúne visões distintas, mercados diversos e modelos de negócio que convivem e se cruzam ao longo da semana, o que talvez explique parte de sua relevância para o setor.
Em poucas horas de festival, já conversei com líderes de agências, anunciantes, empresas de tecnologia, veículos de mídia e plataformas de diversos países. Brasileiros, latino-americanos, europeus e norte-americanos. Mercados diferentes, realidades distintas, mas com inquietações surpreendentemente parecidas.
Uma executiva de um dos maiores grupos de mídia da América Latina me relatou desafios muito semelhantes aos de uma empresa digital criada há apenas alguns anos. Em comum, a busca por formas mais eficientes de crescer, gerar relevância e responder às transformações que afetam toda a indústria.
É também nesse ambiente que começam a surgir conversas sobre novas parcerias, modelos de negócio e soluções que muitas vezes extrapolam os limites da programação oficial do festival.
Como comentei no meu primeiro texto, a sensação é que estamos acompanhando uma nova fase da comunicação e do marketing.
Durante muitos anos, o desafio era acessar informação. Hoje, o desafio parece ser outro: existe informação demais.
Talvez por isso tantas conversas que surgem naturalmente em Cannes estejam menos focadas em encontrar respostas definitivas e mais em entender quais perguntas realmente importam.
Como medir resultados em um ambiente cada vez mais fragmentado? Como equilibrar criatividade e performance? Como utilizar inteligência artificial de forma relevante e responsável? Como compreender melhor o comportamento das pessoas em jornadas cada vez menos lineares?
O interessante é perceber que essas questões não aparecem apenas nas apresentações dos palcos oficiais. Elas surgem nos corredores, nos cafés, nos encontros improvisados e nas conversas que acontecem entre profissionais de diferentes partes do mundo.
E talvez seja justamente essa uma das maiores riquezas de Cannes.
Os palcos ajudam a apontar tendências. Os cases ajudam a mostrar caminhos. Mas são as conversas que ajudam a entender como essas transformações estão sendo interpretadas por quem está tomando decisões todos os dias.
Mais do que um festival para celebrar o que a indústria produziu no último ano, Cannes se tornou um espaço para discutir o que ela pretende construir a partir de agora.
Os Leões continuam sendo o grande símbolo do evento. Mas eles contam apenas uma parte da história.
A outra acontece fora do Palais, nos encontros, nas trocas de experiências e nas discussões sobre os desafios que devem moldar os próximos anos da comunicação, da mídia e dos negócios.
E, ao menos neste início de festival, essa história parece tão interessante quanto a que acontece nos palcos.