Quanto mais tecnológico o mundo, mais humano ele precisa ser
Entre IA, globalização e futurismo, festival reforça que tecnologia só faz sentido quando fortalece o humano
Ouvi uma frase hoje em Cannes que não saiu da minha cabeça.
“The future of humanity is human.”
“O futuro da humanidade é humano.”
Curiosamente, ela apareceu em um painel sobre futurismo. Mas poderia ter sido dita em qualquer um dos outros dois que acompanhei ao longo do dia.
O primeiro celebrava a AB InBev como Creative Marketer of the Year. O segundo discutia a expansão global da China a partir do case da BYD. O terceiro reunia futuristas, estrategistas e pesquisadores de tendências para discutir os pequenos sinais que antecipam o futuro.
Três assuntos completamente diferentes.
Porém, todos desembocaram no mesmo lugar.
O fator humano.
Na apresentação da AB InBev, Marcel Marcondes repetiu algumas vezes uma ideia simples: este continua sendo um negócio feito por pessoas. A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária, mas a criatividade precisa continuar a serviço dos consumidores e não da vaidade. O objetivo não é fazer coisas sobre as quais as pessoas falam, mas criar experiências capazes de fazer com que elas se apaixonem pelas marcas.
No painel “China Inside Out”, a BYD trouxe uma provocação igualmente poderosa. A empresa, hoje símbolo da nova expansão global chinesa, defendeu que tecnologia sozinha não cria conexão. O desafio está em traduzir inovação em cultura local. Não explicar cavalos de potência, porém, explicar a tecnologia na linguagem das pessoas. Ser global sem perder a alma.
Já no palco dos futuristas, a discussão ganhou um tom ainda mais íntimo. Estamos assistindo ao retorno dos pequenos círculos de confiança. As pessoas estão compartilhando menos nas redes sociais, criando seus próprios espaços digitais e voltando a valorizar comunidades de bairro e grupos de pertencimento.
Talvez seja o fim da lógica da performance permanente.
Talvez estejamos cansados de construir audiências e começando a reconstruir comunidades.
Existe uma ironia bonita acontecendo.
Quanto mais a tecnologia avança, mais valiosas se tornam justamente as coisas que ela não consegue reproduzir plenamente: empatia, imaginação, ética, repertório e a capacidade de criar significado coletivo.
Depois de anos perseguindo alcance, algoritmos e viralização, Cannes parece estar apontando para uma nova vantagem competitiva.
Não será a empresa que dominará a inteligência artificial.
Será a empresa que souber usar a inteligência artificial para fortalecer a inteligência humana.
Porque, no fim das contas, as pessoas não querem apenas consumir conteúdo.
Querem encontrar seus pares.
Não querem apenas seguir marcas.
Querem pertencer a algo.
Talvez essa seja a principal mensagem do dia: quanto mais tecnológico o mundo se torna, mais humano ele precisa ser.