Tem espaço para creators, mas talvez você precise procurar
Se os creators já movem cultura e negócios, por que seguem à margem das principais conversas de Cannes?
Cannes tem feito seu dever de casa com a creator economy. Há painéis, há espaço físico dedicado e iniciativas que colocam criadores de conteúdo dentro do Palais. O problema é onde fica esse espaço. A área dedicada a creator economy fica quase escondida num canto que só quem quer muito acha. E é aí começa a contradição.
Não estou dizendo que o festival ignora o tema, porque não é o caso. Mas há uma diferença enorme entre incluir e integrar. Quando você coloca a conversa sobre creator economy no
fundo enquanto os grandes temas do mercado tomam os auditórios principais, você está dizendo, sem dizer, qual é a hierarquia. E essa hierarquia, convenhamos, está cada vez mais descolada da realidade lá fora.
Porque lá fora, criador de conteúdo não é nicho (embora nicho e comunidade seja exatamente o que o mercado tem focado). É, muitas vezes, o único caminho que uma campanha tem para chegar em quem não trabalha com comunicação. Aquele termômetro que eu uso de quando minha mãe me manda algo pelo WhatsApp? Quase sempre veio de um creator, não de uma peça premiada.
O resultado é o de sempre: os papos sobre creators acontecem entre quem já está convencido da importância dos creators. Militar para militante, de novo. Os profissionais que mais precisariam ouvir essa conversa estão no auditório principal aplaudindo cases que contam com estes mesmos creators pra ajudar nos resultados que tanto valem na ficha de inscrição.
Cannes tem a chance rara de ser o espaço onde o mercado redefine suas prioridades e não apenas celebrar o que já faz bem. Trazer a creator economy para o centro, não para os fundos do Palais, seria um começo. Porque enquanto o festival continuar tratando o tema como trilha paralela, a pergunta que fica é a mesma que eu já fiz antes: o que isso realmente constrói para o público de verdade?