Diário de Cannes

Os sinais que já começam a desenhar o futuro dos negócios

Tendências do festival indicam que a tecnologia é ferramenta, mas a confiança é a verdadeira vantagem

Bazinho Ferraz

Presidente e Fundador da Atmosphera&Parners.Co e da Biosphera.ntwk 25 de junho de 2026 - 14h56

Cannes Lions nunca foi apenas sobre publicidade. E, acompanhando o festival acontecer em tempo real, isso fica cada vez mais evidente.

Mais do que um palco da criatividade, Cannes se consolidou como um grande radar de transformações — um espaço onde é possível observar, quase ao vivo, para onde caminham os negócios, a tecnologia, a cultura e a relação entre marcas e pessoas.

Ainda é cedo para qualquer leitura definitiva sobre esta edição. O festival segue acontecendo, novas conversas surgem a cada dia e muitas narrativas ainda estão se formando.

Mas alguns sinais já começam a se repetir de forma consistente.

O primeiro deles é a consolidação da inteligência artificial em um novo lugar dentro das organizações.

Se nos últimos anos o tema aparecia cercado por expectativa e experimentação, agora a percepção é outra: IA deixou de ser pauta de inovação para se tornar infraestrutura de negócio.

Ela está presente nas discussões sobre operação, eficiência, criatividade, personalização e escala.

Mas o ponto mais interessante talvez esteja justamente no contraponto.

Quanto mais avançamos em automação, mais cresce o valor dos ativos humanos.

Criatividade, confiança, repertório, sensibilidade cultural e capacidade de construir relações parecem ganhar ainda mais relevância em um ambiente cada vez mais tecnológico.

É um movimento quase paradoxal.

A tecnologia acelera.

Mas é o humano que diferencia.

Outro tema que aparece com força é a evolução do conceito de audiência para comunidade.

Por muito tempo, o mercado mediu sucesso por alcance. Hoje, a percepção parece migrar para outro território: relevância.

Mais importante do que impactar milhões é construir conexão com grupos capazes de gerar pertencimento, influência e continuidade.

E isso ajuda a explicar outro fenômeno evidente aqui em Cannes: o novo papel estratégico dos criadores de conteúdo.

Eles deixaram de ocupar apenas o espaço da distribuição para se posicionarem como agentes de construção cultural, negócios e confiança.

Creators hoje operam com algo que marcas levam anos para construir: proximidade genuína. Mais do que seguidores, o que importa hoje é o que convertem.

E isso se tornou um ativo econômico.

Talvez esse seja um dos maiores aprendizados parciais desta edição até aqui.

Em um cenário onde tecnologia tende a se tornar commodity, os diferenciais competitivos mais valiosos parecem voltar para territórios essencialmente humanos.

Criatividade.

Relacionamento.

Reputação.

Confiança.

Se Cannes historicamente sempre antecipou movimentos da indústria, o que começa a emergir este ano aponta para uma nova lógica de construção de valor.

Uma lógica onde tecnologia é ferramenta.

Mas confiança é vantagem competitiva.

E criatividade continua sendo o motor que conecta tudo isso.