Cannes

Quando o Brasil entra em campo, Cannes vira arquibancada

Poucas coisas conectam tanto quanto torcer pelo mesmo time, especialmente quando esse time é o Brasil

Guilherme Assumpção

Diretor executivo MiQ Brasil 25 de junho de 2026 - 14h57

Os melhores encontros do Festival não acontecem no Palais. Arrisco a dizer que muitas vezes o que você procura não está nos auditórios lotados ou nas filas para os eventos mais disputados da semana. Os encontros que rendem mais acontecem nos momentos mais improváveis. E nessa edição a bola estava rolando.

O jogo da Seleção Brasileira aconteceu à meia-noite, horário de Cannes. Depois de um dia intenso de conteúdo, reuniões e encontros percorridos pela Croisette sob um calor quase insuportável, os brasileiros tinham um (bom) motivo para se reunir.

Não foi uma ação coordenada, muito pelo contrário. Diversos players criaram seus próprios pontos de encontro de forma espontânea, promoveram um espaço para receber convidados para assistir o jogo do Brasil. Não arenas, nem telões. Os profissionais viraram torcedores e se encontraram em barcos, hotéis, rooftops, pubs e casas. Onde houvesse uma tela, havia brasileiros chegando.

Eu acabei assistindo ao jogo em um pub lotado. Tinham várias televisões grandes, todo mundo estava animado. Anunciantes, agências, produtoras, plataformas, empresas de tecnologia e fornecedores dos mais diversos segmentos da indústria. Pessoas que, em muitos contextos, estariam disputando clientes, concorrendo por projetos ou defendendo interesses diferentes. Durante duas horas todo mundo estava do mesmo lado.

Talvez seja justamente esse o ponto mais interessante. Cannes é um dos maiores encontros globais da indústria da comunicação, mas também é um ambiente naturalmente competitivo. Existe a disputa pelos negócios, pela atenção, pelos prêmios e pelo protagonismo. Em uma noite de jogo, essa dinâmica muda completamente. Os crachás “perdem” importância. Os cargos “desaparecem”. A conversa fica mais leve e qualquer rivalidade dá lugar à torcida.

É um tipo de networking que não acontece em uma mesa de negociação nem durante um painel. Ele surge de forma espontânea, entre um gol perdido, uma comemoração, uma rodada de cerveja e as inevitáveis análises sobre o desempenho da Seleção.

Talvez por isso seja tão valioso. Em um ano em que o Brasil não está brilhando tanto no Palais, ter uma presença especialmente forte nesses encontros ajudaram a reforçar um sentimento coletivo que vai além das empresas ou das marcas representadas. Existe um orgulho compartilhado de ver a criatividade brasileira ocupando espaço, gerando conversa e influenciando o mercado global. Esse ano o futebol deu o tom. Trouxe o gingado e mostrou para o mundo o orgulho de ser brasileiro.

Por algumas horas, longe dos auditórios, dos rankings e das premiações, o principal assunto deixou de ser publicidade. Mas, curiosamente, o que aconteceu ali também dizia muito sobre a indústria. Porque, no fim das contas, os negócios continuam sendo feitos por pessoas. E poucas coisas conectam tanto quanto torcer pelo mesmo time, especialmente quando esse time é o Brasil, do outro lado do oceano, em pleno Cannes.