Vellas: “Vamos ser engolidos por uma molecada em breve”

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Vellas: “Vamos ser engolidos por uma molecada em breve”

Primeiro colocado entre os melhores diretores do País na pesquisa feita por Meio & Mensagem, diretor conta que um dos focos da Saigon é a formação de novos talentos

Isabella Lessa
18 de setembro de 2019 - 16h23

Vellas (à esq.) na Saigon, em São Paulo (Crédito: Arthur Nobre)

Um acidente durante o Festival de Cannes em 2006 foi decisivo para a mudança de carreira de Vellas – primeiro colocado no ranking dos dez melhores diretores de filmes publicitários do País, segundo levantamento realizado por Meio & Mensagem. Até aquele ano, ele atuava como diretor de arte na DM9DDB e foi à Riviera Francesa naquele ano para receber o Bronze em Animação por um filme que criou para a Luft Transportes.

O imprevisto o manteve em casa por seis meses, mas serviu para que crescesse o interesse pela direção de filmes. Passou, então, a dirigir diversas aberturas de séries e programas da MTV. E, de 2006 a 2009, trabalhou como diretor de animação e freelancer na Ioiô e passou pela Pródigo como diretor de cena. Mas a grande estreia veio na Sentimental, quando dirigiu “Alma”, criado pela F/Nazca S&S para Leica. O filme ganhou 5 Leões em Cannes, na edição de 2014.

No mesmo ano, porém, Vellas e os colegas João Dornelas e Pedro Pereira, que formam a dupla 2, deixaram a produtora e abriram a Saigon em sociedade com Marcelo Altschuler, produtor executivo. Desde então, a produtora tem se envolvido em projetos para marcas grandes, como Bradesco, Fiat e Vivo. A operação também encabeça o ranking das melhores produtoras do País.

Para ele, “Caverna do Dragão”, campanha da DPZ&T para Renault, foi um dos principais trabalhos da Saigon neste ano. “Extrapolou um pouco o mercado publicitário. Quando o tio de alguém passa o filme pelo WhatsApp, é algo muito interessante”.  Do que viu de interessante na publicidade nos últimos meses, o diretor também destaca “Baco Exu do Blues”, dirigido por Douglas Bernardt. “Não é só um clipe, tem agência envolvida (AKQA). O filme ter tido esse tipo de reconhecimento global é bom não somente para Stink e para o Baco, mas para o mercado todo”, comenta ele. Na entrevista, ele fala mais sobre o mercado de produção brasileiro, a busca por referências fora da publicidade e formação de novos talentos.

“Quando você vai para o set para filmar, é um momento mágico, um momento onde todo mundo quer estar, é o ápice”

Meio & Mensagem – Por que decidiu fazer essa transição de agências para produção?
Vellas –
Achei muito mais interessante a falta de rotina e o set. Estava ficando cansado do dia a dia em agência. Respeito muito quem trabalha em agência porque sei que é bem difícil. Tem muito diretor que veio de agência, acho que quem veio desse ambiente entende um pouquinho mais as frustrações e os anseios das agências. Mas, quando você vai para o set para filmar, é um momento mágico, um momento onde todo mundo quer estar, é o ápice.

M&M – Mas mercado de produção também tem seus desafios…
Vellas – Tem coisas que foram melhorando. Não vivi os anos dourados, como todo mundo fala, no final dos anos 90, começo dos 2000… mas peguei 2010, onde todo mundo fala que é já é bem pior do que era. Anos bons que peguei foram 2013, 2014 e, a partir de 2015 houve uma caída de investimento. Aumentou muito a concorrência porque outras produtoras vieram para o Brasil – não que isso seja ruim.

M&M – Por que sair de uma produtora para abrir a própria?
Vellas – Quando um diretor começa a filmar bastante, não faz mais sentido trabalhar para alguém. Faz sentido ter sua própria produtora não só por uma questão de investimento, mas de liberdade de fazer o que quer. Poder escolher os filmes que você quer fazer, tentar, pelo menos, escolher fazer o que quer e para onde você quer direcionar sua carreira. Se você fica representado por uma produtora, muitas vezes, dependendo do seu contrato, vai fazer coisas que não quer. Fez sentido eu abrir a produtora até porque eu tinha outros três amigos que além de tudo trabalhavam comigo – Marcelo, Pedro e João.

“Quando um diretor começa a filmar bastante, não faz mais sentido trabalhar para alguém”

M&M – E de que maneira conseguem escolher os trabalhos que querem fazer?
Vellas – A gente tenta manter uma estrutura mais enxuta não só de pessoas que trabalham na casa mas de diretores, para não ficar tendo de fazer qualquer coisa para daí poder fazer coisas mais legais. Esse é um modelo de muitas produtoras gringas. A gente quer fazer trabalhos nos quais a gente acredite mais. O segredo de ficar bonito é gostar do que se está fazendo, não fazer somente pelo dinheiro e pelo business. Obviamente que nem sempre é possível.

M&M – Muitos dos filmes produzidos por vocês fogem da estética convencional de comerciais publicitários. Como define o estilo das produções da Saigon?
Vellas – Agora mesmo estou fazendo um filme que é bem não publicitário para Itaú. Acho que por a gente já ter feito coisas assim, trabalhos chamam outros trabalhos. A gente acaba virando uma produtora que não faz só projetos tradicionais de televisão. A gente gosta de filmar coisas grandiosas e imprimir maior do que o trabalho realmente é. Sempre tenta deixar maior, usa muita pós-produção. Esse talvez seja nosso diferencial em relação a outras produtoras.

“Cada vez mais, há demandas maiores e recursos sempre menores”

M&M – O digital abre novas possibilidades para o mercado de produção mas, ao mesmo tempo, prejudica a demanda por grandes projetos para a TV?
Vellas – Esse é um momento que todo mundo segura a mão. Ano passado tivemos ano muito bom, teve Copa do Mundo. Esse ano está todo mundo reclamando que há menos trabalho. Não vou nem entrar em questões políticas, mas tem também uma coisa de ondas de mercado. Na gringa também muitos países estão em crise. Na Itália reclamam que tá muito ruim, na Espanha também, na Inglaterra tá super fraco, recebia cinco roteiros por ano de lá, este ano recebi um. Tá ruim para todo mundo. E todo mundo está aprendendo a adequar: antes fazíamos campanhas estritamente pra televisão e agora todas têm a parte do digital, Stories, Instagram, Facebook. Isso geralmente a gente nunca consegue orçar desde o início, porque agências e clientes estão aprendendo a lidar com essa parte. A gente geralmente não tem verba pra isso e acaba absorvendo tudo no meio do processo. Acabei de fazer a campanha “Aposta”, da Renault (criada pela DPZ&T) que tem 15 peças de digital. E, conversando com a Renault, soube que muito do retorno vem do digital. Então, cada vez mais, há demandas maiores e recursos sempre menores. Outro desafio também é fazer diferente do que já foi feito. Tudo já foi feito. Sempre vemos ondas de modas cinematográficas, que vão revivendo e sendo reinventadas ao longo dos anos. Ontem mesmo, vi um filme em primeira pessoa igual ao meu para Leica. Eles reinventaram a primeira pessoa por questões tecnológicas, o que é muito legal, diferente do que eu tinha feito. Não que eu tenha inventado a primeira pessoa, já tinha me inspirado em outros trabalhos. Essa busca pelo novo que é o difícil.

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M&M – Onde você busca referências?
Vellas – Parei de tentar ver propaganda para não ficar copiando os outros automaticamente. É muito mais fácil pegar uma referência e fazer parecido. Tenho tentado olhar para fotografia still, para o cinema. Hoje, as séries dominaram mercado de referências. Antes eram os filmes. Agora as séries criam as novas modas no mundo. Eu, que nunca fui de série, tenho assistido muita série. Vi Euphoria, que é incrível. Vi Pico da Neblina, comecei a ver Sintonia e terminei Big Little Lies. E cinema sempre, fui ver Era Uma vez em Hollywood, Bacurau. Na fotografia, gosto de caras que transformam o caos numa coisa bonita… Alex Webb, Steve McCurry, David Alan Harvey, Alex Majoli, geralmente fotógrafos da Magnum, que foram para esse lado fotojornalístico e de National Geographic. Cinema, além de Tarantino, gosto do David Fincher e Christopher Nolan, talvez ele seja a minha maior referência.

M&M – Como está o mercado de produção em termos de novos talentos?
Vellas – Está bom. Tem muita gente vindo tomar café na produtora. Ontem recebi um moleque de 22 que tem um super potencial e vamos dar oportunidade para ele. Até pelo mercado de digital, é uma oportunidade que nunca existiu. Antes o cara tinha que fazer o filme, fazer um ‘sambarilove’ e torcer para dar certo. Agora, tem pequenos roteiros que diretores podem fazer junto com a gente ou sozinhos.  Tem muito diretor lá fora aparecendo desta forma. A gente tem diferença crucial em relação ao mercado internacional que é o fato de não termos o mercado de videoclipes. Temos artistas no Brasil, mas não temos dinheiro. São pouquíssimos artistas que vão gerar algo. Vamos ser engolidos por uma molecada nova muito boa em breve. Acabei de contratar uma assistente nova que vai me destruir em três anos, ela sabe tudo de cinema.

“As séries dominaram mercado de referências. Antes eram os filmes. Agora as séries criam as novas modas no mundo”

M&M – A Saigon tem planos de fazer entretenimento?
Vellas – Estávamos indo a passos galopantes e aí aconteceu o negócio da Ancine. Estamos em stand by. Fiz um curta em Cuba, que a gente que financiou, devo lançar em novembro. Os 2 têm projetos em stand by. A gente que migrar, para isso.  Netflix, Amazon estão vindo para cima das produtoras para saber de projetos. Todo mundo está com vontade de fazer, mas com receio.

Como é a relação da Saigon com as agências?
Vellas – É muito de ondas, tem hora que você trabalha muito com a mesma agência, depois pára e trabalha com outra. Sempre tive quatro ou cinco que trabalhei bastante. Mas é bom também dar uma renovada senão fica viciado, fica desgastado como qualquer relacionamento. A gente defende o nosso e eles o deles, a gente tenta achar o meio de campo.

M&M – Qual a importância dos prêmios?
Vellas – Prêmio acaba te deixando em evidência. Obviamente que todo mundo gosta de receber prêmios, mas é importante não deixar subir à cabeça. Se você começa a achar que pode maltratar as pessoas e subir num cavalo que não te pertence, é perigoso. Muita gente acaba subindo num pedestal errado e acaba se perdendo ao longo do processo. Dirijo minha carreira na direção daquilo que quero fazer. Os prêmios passam, mas aquilo que você faz ao longo da carreira acaba ficando. Ninguém lembra que você ganhou prêmio em 2012, mas lembram do que você fez um dia. Prêmio é legal, mas não é nosso norte. Quantos anos o Leonardo DiCaprio demorou para ganhar o Oscar? Ele já era um dos melhores antes disso.

Crédito da imagem no topo: Jakob Owens/ Unsplash

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