A corrida das empresas de tecnologia pela computação quântica

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A corrida das empresas de tecnologia pela computação quântica

IBM, Google, Microsoft e Intel trabalham para se tornarem as pioneiras na área que alavancará as inovações do século

Karina Balan Julio
22 de janeiro de 2019 - 7h48

A julgar pela imagem, o primeiro protótipo de um computador quântico comercial, lançado pela IBM no início deste mês durante a Consumer Electronics Show (CES), lembra mais uma máquina de ficção científica do que um computador da forma como conhecemos. O IBM Q System One, como foi batizado,  por enquanto disponível apenas para um grupo seleto de empresas parceiras, mas representa uma amostra da tecnologia que redefinirá o conceito de inovação na próxima década.

A diferença entre computadores quânticos e convencionais parece trivial: um computador clássico opera em “bits”, unidades de rede que usam o padrão “1” ou “0” para funcionar. Já computadores quânticos operam em quantum bits (qubits), que podem conter “1”, “0” ou uma sobreposição deles ao mesmo tempo. A grosso modo, isto faz com que computadores quânticos sejam capazes de analisar volumes enormes de dados e executar tarefas probabilísticas de forma muito mais rápida e complexa.

Estima-se que os computadores quânticos serão uma alavanca importante para escalar o desenvolvimento de novos materiais industriais, compostos químicos e arquiteturas de rede que darão vida a cidades conectadas, redes de carros autônomos e de inteligência artificial.

 

IBM Q System One, protótipo de computador quântico comercial da IBM. Foto: Divulgação

A IBM foi a primeira a lançar um protótipo comercial, com capacidade de 20 qubits, mas não está sozinha na corrida pelo patenteamento de soluções de computação quântica. Empresas como Google, Microsoft e Intel também têm se empenhado em marcar território nesta indústria, que valerá US$ 5 bilhões em 2020, de acordo com a consultoria americana Market Research Futures. Na CES 2018, a Intel anunciou um chip quântico de 48 qubits, e o Google revelou em março um chip de 72 qubits. A Microsoft também aposta em simuladores de computação quântica e no desenvolvimento de novos hardwares embarcados com a tecnologia.

Embora esta seja uma indústria ainda embrionária, a pressa das empresas para anunciar projetos ao mercado, ainda que não finalizados, tem a ver com alguns fatores. O primeiro deles, segundo Paulo Victor Moura, gerente de tecnologia da Accenture, é a cultura do “fast fail”.

“Cada vez mais vemos presentes nas grandes empresas de tecnologia uma cultura mais receptiva aos erros inerentes ao processo de inovação, redução do ciclo de feedbacks, aprendizado com erros, iterações rápidas e pequenas, que são elementos consolidados nos redutos de inovação”, argumenta.

Quando a tecnologia quântica sair do campo da especulação para a realidade, as empresas pioneiras no ramo tendem a ter mais vantagens competitivas no mercado, além de se tornarem autoridades no assunto. “Elas têm mais chances de criar uma comunidade fiel de desenvolvedores, pesquisadores, parceiros e usuários, e ao mesmo tempo uma comunidade dependente, dado o custo de transição para soluções equivalente de empresas concorrentes”, pondera Paulo.

Na esfera pública, governos de potências tecnológicas também encaram a tecnologia como um motor da indústria 4.0. O congresso americano anunciou em dezembro um fundo de US$ 1,2 bilhão para apoiar o desenvolvimento de tecnologia quântica durante os próximos cinco anos. A NASA, por exemplo, quer utilizar a computação quântica para analisar e coletar dados sobre o universo, além de pesquisar sobre novos métodos para viagens espaciais. Além dos Estados Unidos, a China também investirá US$ 10 bilhões na construção de um laboratório de ciência quântica na cidade de Hefei, enquanto a União Europeia anunciou em novembro o financiamento a mais de 20 projetos relacionados ao tema.

Nova demanda, novas skills

Como ainda não existem computadores quânticos disponíveis para uso real em larga escala, a demanda para este tipo de produto ainda não está totalmente estabelecida. É para estarem bem posicionadas quando esta tecnologia se concretizar que marcas como Honda, Samsung e Exxon Mobile fazem parte da “Q Network”, rede de parceiros que apoiam a IBM no desenvolvimento de novas aplicações para a computação quântica. Ulisses Mello, diretor do laboratório de pesquisa da IBM Brasil, explica que o quanto antes empresas se mobilizarem para aprender sobre o tema, mais fácil será a adoção da computação quântica em seus processos de prototipagem de produtos, logística e planejamento de produção.

“As empresas que estão entrando no Q Network não estão necessariamente esperando um PC quântico comercial em suas mesas, até porque a forma de pensar em algoritmos e programação neste modelo segue uma lógica completamente diferente. Elas querem preparar pessoas da companhia com as skills necessárias para lidar com este computador, para que, quando essa tecnologia deslanchar, elas possam ter vantagens comerciais imediatas”, explica Ulisses.

Daniel Domeneghetti, consultor de estratégia e CEO da Dom Strategy Partners, pondera contudo que a especulação sobre a computação quântica por parte de algumas empresas e investidores não garante que haverá demanda massiva por novos computadores. “Não dá para confundirmos o mercado especulativo com o mercado de consumo. Não se pode pensar em um produto para um mercado investidor nichado e supor que haverá adesão. O caminho deve ser o contrário, já que há uma curva até a criação de uma demanda”, pondera.

Riscos da computação quântica

A concretização de PCs quânticos comerciais trará ainda novos problemas para o mercado de tecnologia. Um deles tem a ver com segurança de dados, uma vez que computadores quânticos conseguirão, em tese, descriptografar informações com extrema facilidade e rapidez.

“A medida que a maturidade da tecnologia evoluir e o mercado passar a entender melhor seus potenciais, acontecerá um outro fenômeno que será o surgimento de problemas que sequer são considerados hoje de tão complexos ou intangíveis para o nosso atual arsenal tecnológico”, finaliza Paulo, da Accenture.

 

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