Confissões estraga-prazeres sobre o Pokémon Go

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Confissões estraga-prazeres sobre o Pokémon Go

Mesmo que especialistas louvem o app mais popular do mundo por penetrar na era da chamada realidade aumentada, estou preocupada com uma série de questões morais, éticas e mesmo legais que exigem respostas urgentes


10 de agosto de 2016 - 15h23

Outro dia, meu amigo favorito de 16 anos e eu nos divertimos por várias horas jogando Pokémon Go. Nós nos unimos às milhares de pessoas caçando monstrinhos enquanto vagávamos pela Boston histórica em um dia de calor sufocante. Senti uma conexão rápida, mas misteriosamente intensa, com outros jogadores, orgulho da minha captura individual de um Swirtle raro e uma vaga ansiedade ao esperar as vibrações do telefone sinalizando um Pokémon próximo. Esqueci-me de tudo, exceto da emoção da busca, quando caí no meio de uma calçada cheia de gente ao tentar capturar um deles.

Foi divertido? Claro. Será que gostaria de escrever um daqueles blogs afirmando que “era cética a respeito do Pokémon Go, um dos apps mais baixados da atualidade, mas agora sou grande fã”? Sim. Vou fazer isso? Não. Mesmo que grandes especialistas em tecnologia louvem o jogo por penetrar na era da chamada realidade aumentada, estou preocupada com uma série de questões morais, éticas e mesmo legais que exigem respostas urgentes.

Defensores das crianças já estão pedindo para que a Niantic, companhia que criou o jogo, não lucrar ao atrair crianças para o McDonald’s e outras empresas. Outros estão bradando contra o Pokémon Go por violações de privacidade. E alguns parecem ter se rendido a sua impressionante popularidade e estão simplesmente elogiando o jogo por levar as crianças a saírem de casa para brincar.

Quanto a mim, estou preocupada porque a Pokémon Company e seus parceiros estão espalhando ícones de publicidade em absolutamente todos os lugares — mesmo em cemitérios, locais de adoração e parques nacionais, que são tradicionalmente isentos de publicidade. Os monstrinhos Pokémon estão mesmo se infiltrando em propriedades privadas. Recentemente, um jovem parente me informou com entusiasmo que o Gastly, um Pokémon relativamente incomum, estava se escondendo em minha casa ou nos arredores. Verdade? Sem minha permissão?

Cada Pokémon virtual colocado no mundo é propaganda gratuita para brinquedos, roupas, acessórios, cinema, apps, vídeos, games e muito mais. Como afirmou à Associated Press J.C. Smith, diretor de marketing de consumo da Pokémon Company: “Não precisamos vincular diretamente nada ao ‘Go’ para que beneficie nossos fãs ou a marca. No final, as características são as mesmas. Pikachu em nossa série de animações, Pikachu em nosso filme a ser lançado ou Pikachu no ‘Go’ são todos iguais”.

Considerando-se o imenso sucesso do jogo ao aumentar a realidade com publicidade, podemos esperar que cada empresa de mídia destinada a crianças irá se unir a ele, tornando mais difícil do que nunca para os pais conseguir que as crianças tenham tempo livre de comerciais e da telinha. Assim como o Pokémon Go, estes novos games vão se vangloriar de seus alegados benefícios de saúde e educação – Estes games tiram as crianças de casa e as fazem se movimentar! Destacam monumentos históricos! – e ninguém, senão os investidores, se importará que sua meta real sejam os imensos lucros por meio do marketing de marca nas compras de apps e publicidade de terceiros.

Quando se trata da realidade aumentada, minhas questões superam as preocupações imediatas com as crianças e famílias. O sucesso do Pokémon Go é, no entanto mais um exemplo de como os avanços tecnológicos vão além da capacidade da sociedade de abordar adequadamente as consequências morais, éticas e legais de sua implementação. Eis algumas perguntas que devemos fazer sobre o Pokémon Go e sobre o futuro lançamento de jogos similares:

 Quais são as consequências das empresas inserirem arbitrariamente publicidade virtual onde bem entenderem? A Pokémon Company agora afirma que deverá respeitar a “realidade” e que retirou o Pokémon do Cemitério Nacional de Arlington e do Museu do Holocausto dos EUA. Mas por que uma empresa deveria decidir quais monumentos, pessoas ou espaços públicos são dignos de respeito e devem ser isentos de publicidade? Enquanto escrevo este artigo, o Parque do Memorial da Paz de Hiroshima ainda está lotado de jogadores de Pokémon.

 As empresas não precisariam de permissão das cidades, municípios, estados e outras instituições públicas para instalarem propaganda virtual em suas propriedades? Se houver concordância, deveria haver algum pagamento por isso? Aliás, as pessoas físicas também não deveriam ter tal direito?

 Há algum recurso jurídico para pessoas físicas ou jurídicas cuja solicitação de retirada de ícones de propaganda virtual seja negada?

Os responsáveis pela criação de políticas que regulem essas e outras questões precisam abordar os diversos aspectos da realidade aumentada e muito mais. No entanto, considerando-se o dinheiro e a influência da indústria da tecnologia, mudanças nas políticas surgirão apenas por meio de um esforço conjunto e coordenado de defensores que atualmente lidam com temas distintos, tais como a proteção das crianças, privacidade e espaço público, devendo limitar o poder corporativo, o consumismo e o apego excessivo às telas.

Enquanto isso, os pais estão praticamente sós para saber “se” e “quanto” a realidade aumentada impacta as famílias. Para as crianças que já possuem telefone celular, “se” é provavelmente um ponto discutível. “Quanto” é diferente. Após ter jogado o Pokémon Go, posso testemunhar como é estranhamente atraente. Não estou minimizando o desafio, nem a necessidade de mudanças na sociedade, mas muitas famílias encontram maneiras para estabelecer limites de tempo para todos os tipos de entretenimento virtual.

No entanto, desejaria adiar a imposição da realidade aumentada a crianças pequenas. Estas crianças precisam de oportunidades infinitas para se dedicarem à tarefa fascinante de explorar a realidade “real” da maneira mais natural possível — na vida prática, na criatividade e no jogo isento de publicidade.

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