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Menos comunicação, mais ação

Na era da hiperconectividade, experiências off-line de desintoxicação digital podem ser positivas


8 de setembro de 2016 - 15h34

Foram muitas as histórias de sucesso na Olimpíada Rio 2016, mas tem uma que podemos destacar: o Team GB. Os atletas britânicos terminaram em segundo lugar no quadro geral de medalhas, com um total de 67 conquistas. Dos muitos exemplos de ativação de marcas que procuravam se associar a este momento de ouro, talvez, o mais audacioso veio do principal canal de televisão comercial do país: ITV.

No sábado, 27 de agosto, a emissora suspendeu toda a transmissão durante uma hora pela primeira vez em sua história. Enquanto isso, 2 mil clubes desportivos do país abriram suas portas para quem quisesse experimentar um novo esporte. Qualquer pessoa que ligasse a TV encontraria a mensagem “Nós fomos correr – Por que você não se junta a nós?”.

Outro exemplo é que o maior dia de esportes da Grã-Bretanha foi organizado pela Loteria Nacional, que financia os atletas do Team GB, ao invés do tour do ônibus de turismo (Open Top Bus) como ocorreu em Londres 2012. Um outro fato que merece destaque.

As ações ocorreram no sentido de estimular a atividade física em oposição ao consumo de mídia. Parece que existe uma espécie de “sabedoria” que diz que em tempos de crescimento acelerado, a tendência para nós, como indivíduos e sociedade, é o crescente aumento do nosso consumo de mídia. No entanto, as evidências de uma série de fontes, incluindo o Reino Unido, parecem indicar que é cada vez mais frequente nosso questionamento em relação ao tempo que passamos com os nossos dispositivos eletrônicos, bem como a natureza deste uso e os comportamentos que geram.

Uma pesquisa publicada no início deste mês pelo Ofcom, órgão regulador de mídia da Grã- Bretanha, enfatizou que 15 milhões de usuários de internet do Reino Unido comprometeram- se a investir em um período de “detox digital” na tentativa de encontrar um equilíbrio saudável entre a tecnologia e a vida além da tela.

O relatório anual, que inclui pesquisa com mais de 2 mil adultos e 500 adolescentes, revela o quanto os britânicos estão buscando ficar longe da web para passar o tempo com amigos e familiares. Cerca de um em cada três usuários adultos de internet diz que procurou ficar um período de tempo desligado; 25% dos entrevistados tiveram um dia de internet-free; 20% tiveram até uma semana de folga; e 5% foi web-free por até um mês inteiro.

O movimento em direção a desintoxicação digital continua a ganhar ritmo globalmente e existem inúmeros exemplos de iniciativas que tentam nos recompensar por ficar longe de nossas armas de distração em massa

O mais relevante na pesquisa é que muitas pessoas acharam seu tempo off-line uma experiência positiva: aproximadamente 33% das pessoas se sentiram mais produtivas; 27% acharam libertador, enquanto um 25% aproveitaram mais a vida. No entanto, 16% vivenciaram um “medo de perder”, enquanto 15% sentiram-se perdidos e 14% “afastados”.

A tendência para experimentar uma desintoxicação talvez não seja surpreendente, lembrando que quase 60% dos usuários de internet do Reino Unido consideram-se “viciados”. Os adultos britânicos estão gastando mais tempo consumindo mídia ao invés de dormir. Cerca de 50% dos entrevistados disseram que eram culpados da “connectivity creep”, gastando mais tempo online do que originalmente pretendido a cada dia.

Quando perguntados sobre as tarefas que foram negligenciando, o resultado incluía trabalhos domésticos, sono e passar tempo com amigos e familiares. Outros relataram atrasos para reuniões e mais de 25% dos adolescentes relataram estar atrasado para a escola. Tudo isso resultado de seus hábitos com a tecnologia. Talvez, como consequência, muitos pais estão limitando o tempo de seus filhos online. Seis de cada dez adolescentes que usam um dispositivo com conexão, como um smartphone ou tablet, relataram ser digitalmente “enraizados”, tendo o uso de seus aparelhos restritos ou proibidos.

Uma das descobertas mais surpreendentes da pesquisa é o fato que o tempo de multitarefa das pessoas com menos de 35 anos está caindo. Este padrão é, em parte, devido ao fato de estarmos em um momento de uma mudança do conteúdo de “empurrar” para “puxar”. Os dados mostram que a visualização on-demand é menos do que uma atividade de multitarefa de visualização de TV ao vivo. Sete das dez melhores combinações mais populares de mídia multitarefa envolvem TV ao vivo, mas nenhum envolve visualização on-demand. Isso ocorre porque o conteúdo foi escolhido de forma ativa e, portanto, suscetível a ter mais atenção.

Da mesma forma, outras atividades que mostraram reduções significativas no tempo gasto por esses grupos etários (de outros websites ou aplicativos, mensagens de texto e telefonemas) são comumente associados a TV ao vivo quando se fala de multitarefa, o que ajuda a apoiar a teoria.

Seria presunçoso assumir que estamos desapegando dos nossos aparelhos, mas esses dados talvez destaquem três fatores importantes: em primeiro lugar, que estamos moldando os nossos comportamentos para refletir uma relação mais crítica com o conteúdo; e como resultado, continuamos sendo conduzidos pela relação ao conteúdo envolvido, ao mesmo tempo em que damos menos importância ao local de onde o conteúdo vem. A segunda é que o nosso desejo de conteúdo de mídia não nos torna incapazes de parar para questionar como isso está impactando nosso comportamento mais amplo, etiqueta e relações com os outros.

Finalmente, como a maioria das pesquisas tende a mostrar, podemos ter dois pesos quando se trata de nosso próprio comportamento e dos outros. As pessoas identificaram no relatório o seu próprio vício, mas também reclamaram sobre a falta de etiqueta de estranhos que parecem querer colocar seus dispositivos de lado. Um quarto dos adultos do Reino Unido se queixaram quando alguém esbarra na rua, pelo menos uma vez por semana, porque eles estavam ocupados demais olhando para o seu telefone. A pesquisa também sugere que algumas pessoas estão optando por enviar mensagens de texto para amigos e familiares ao invés de falar cara a cara, mesmo que eles estejam sentados na mesma sala.

O movimento em direção a desintoxicação digital continua a ganhar ritmo globalmente e existem inúmeros exemplos de iniciativas que tentam nos recompensar por ficar longe de nossas armas de distração em massa, inclusive aqui no Brasil. Em um futuro imediato eles provavelmente continuarão a ser um nicho. No entanto, eles apontam para o fato de que nem todos nós, como indivíduos, ficaremos inquestionavelmente sonâmbulos para o consumo de mídia cada vez mais viciante. O desafio para todos os que trabalham nos meios de comunicação, tecnologia e conteúdo será desenhar formas mais significativas de engajamento para o público cada vez mais capacitados.

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