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O politicamente correto destruiu debates sobre genética, distorceu os livros de história e enterrou qualquer forma de humor


1 de novembro de 2016 - 10h29

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Foto: Reprodução

Na década de 1980, quando no Brasil todos podiam sacanear e ser sacaneados livremente, os Estados Unidos já tinham inventado uma série de regras de linguagem e conduta que deviam guiar as interações humanas. E ai de quem não aderisse à norma. Abrir porta para mulher havia se tornado sinal do sentimento masculino de superioridade; o termo afroamericano havia sido cunhado e descartado, o neoneologismo aceito passou a ser africano-americano; a palavra “freshman”, usada para designar aqueles em seu primeiro ano de faculdade, havia sido banida e substituída por “new student”; “países de terceiro mundo” haviam sido convertidos eufemisticamente em “países em desenvolvimento”; houve mesmo quem quisesse apagar o “his” em “history”, para tirar qualquer viés de gênero da palavra — muito embora “história” tenha origem grega, sem nenhuma conexão com o he de origem saxã.

Como frequentemente acontece, um movimento nascido com as melhores intenções, e que fazia sentido dentro de certos limites, passou a ser usado para o policiamento e cerceamento de ideias

O cuidado excessivo em não ofender o próximo e a facilidade com que as pessoas passaram a se sentir ofendidas destruiu debates sobre genética, distorceu os livros de história, afetou a moda e a publicidade, e absolutamente enterrou qualquer forma de humor. As pessoas são chatas por natureza, os americanos haviam se tornado mais chatos.

O que parecia um movimento pendular, fadado a encontrar rapidamente seu centro moderado, se proliferou, invadiu o mundo e se tornou mais intenso com o advento das redes sociais. O Facebook, por exemplo, é um terreiro de malucos em busca de protagonismo que independe de causa. São chatolas de todas as espécies e idades aguardando uma chance de pular sobre o que definirem como a escolha errada de palavras.

O Twitter não é menos perigoso: 140 caracteres podem detonar uma onda de raiva capaz de arrasar com a autoestima mais poderosa. As redes que deveriam ter formado uma ágora mundial de trocas produtivas se tornaram um universo salpicado de pequenas milícias interessadas não em conteúdo, mas no policiamento de palavras e de curtas ideias retiradas de contexto.

Uma das mais recentes novidades das patrulhas militantes é o lugar de fala. Não basta deixar de criticar, uma pessoa também não pode mais defender nem falar sobre uma causa se não tiver experiência direta com ela

Segundo uma blogueira que se autointitula feminista por querer ser livre, você não deve fazer “um texto falando sobre como é difícil ser gorda na sociedade se você não é gorda”. Ela vai além: “Não use uma camiseta contra o racismo se você é branco”.

As ideias dessa mulher em particular e de todos que defendem esta nova forma de repressão estão tão equivocadas que é difícil começar uma crítica estruturada. Um bom caminho é exagerar o raciocínio para ver onde ele leva. Se podemos falar somente sobre aquilo com o que temos experiência direta, rasguemos todos os livros sobre Egito antigo escritos por velhos ingleses, ignoremos qualquer crítica literária sobre Fernando Pessoa desenvolvida por estudiosos alemães.

No fundo, abandonemos qualquer discussão sobre o que não pertence exclusivamente à nossa experiência subjetiva e individual neste planeta — um tema aliás que não interessará a mais ninguém. A nova idiotice pressupõe que o conhecimento não pode ser adquirido a partir de um livro, de uma conversa, ou de uma aula, somente por meio da experiência direta.

Os perigos desta mentalidade são óbvios. Se ela estivesse em voga nos anos 1940, a tragédia judaica na guerra seria um problema exclusivamente judeu. Como se não bastasse, não é só o que defendemos que está em cheque, “se uma mulher negra vê como apropriação cultural uma branca usar turbante, é porque é”. Com esta única frase mal pensada a feminista em busca de liberdade obliterou com todo o conceito de moda e mesmo de avanço cultural. Ora, o nylon foi inventado por um homem branco americano, no entanto, negros, negras, chineses, chinesas, homens, mulheres de todas as origens usam a fibra sintética. Fazem isso porque esta é uma característica inerente à espécie humana e que independe de credo ou cor: nós pegamos emprestado, adaptamos e evoluímos.

O conceito de que só um gordo pode falar em causa própria e de que um turbante é propriedade privada de mulheres negras é tão profundamente idiótico que não mereceria estas linhas. No entanto, é alarmante o número de pessoas que vêm se atracando a este modismo, o que torna necessário o debate, especialmente entre aqueles que vivem de comunicação. É óbvio que não podemos tolerar qualquer forma institucionalizada de discriminação. Mas há um enorme campo cinza entre a Ku Klux Klan e a capacidade de rir de nossas manias sejam elas de uma maioria, sejam de uma minoria. É da liberdade irrestrita de todos para a crítica e para a autocrítica que nasce a verdadeira igualdade.

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