Trump, complexidade e a jornada do eleitor

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Trump, complexidade e a jornada do eleitor

Quais lições podemos tirar sobre pesquisas eleitorais com as eleições americanas que mostravam uma probabilidade de vítória à candidata Hillary Clinton de 70% a 99%


10 de novembro de 2016 - 17h31

Brexit, acordo de paz colombiano, a escolha dos mais de 5 mil prefeitos brasileiros e, agora, as eleições norte-americanas são alguns dos vários acontecimentos que se tornaram sinônimo de surpresa também para o mundo da pesquisa, que se vê constantemente desafiado a incrementar sua capacidade de vislumbrar cenários. Nos EUA, as pesquisas eleitorais pareceram ineficazes para ampliar o poder analítico na direção de uma visão mais periférica e capaz de ligar pontos até então tidos como improváveis e se tornaram um dos mais criticados e questionados meios de inteligência a partir da vitória de Donald Trump. A larga maioria dos institutos de pesquisa deu à candidata Hillary Clinton um nível de probabilidade de vitória que variou entre 70% e 99%.

A tese defendida pela The Economist centra o erro de leitura na subestimação do apoio a Trump principalmente no norte do país. Segundo a publicação, parte da discrepância pode se referir aos “eleitores tímidos”, que não quiseram declarar abertamente seu apoio ao improvável vencedor. Por outro lado, se Trump fosse alvo desta preferência envergonhada, provavelmente teria uma performance melhor em pesquisas online – o que não aconteceu. Outra parcela não estava habituada a ir às urnas mas mudou de postura no momento decisivo. Talvez muitos tenham esquecido: pesquisa é um meio, e a escolha do método depende de uma leitura adequada do cenário. Da simples opinião pontual, nos vemos pressionados na direção de analisar a complexa jornada do eleitor. Como a estratégia do republicano influenciou apoiadores e opositores nas redes sociais? De que forma o comportamento controverso de Trump repercutiu na população? Por que a grande mídia favorável a Clinton não mudou a história? A cobertura das mídias sociais capturou o tom de raiva do país melhor do que os tradicionais veículos porque se baseia na opinião de pessoas comuns, acabando com a clássica hierarquia da pirâmide de influência. O estudo Edelman Trust Barometer 2016, baseado em 33 mil entrevistas em 28 países, mostra que, globalmente, as pessoas confiam cada vez mais nos cidadãos comuns, que não representam discursos institucionais – 78% em 2016 contra 67% no ano anterior. O Pew Research, ao afirmar que 20% dos norte-americanos mudaram de opinIão sobre um candidato a partir de informações vistas em canais sociais, referenda a tese.

É preciso analisar o contexto em função da sua complexidade, e não apenas a partir das generalizações numéricas. Não existe uma metodologia de investigação absoluta, capaz de prever e cobrir toda a gama de aspectos a serem considerados. Muitas vezes os olhos voltam-se para os resultados superficiais, mas pouca atenção dedicamos à inteligência que lhe serve como pano de fundo. Nesse contexto, estudos comportamentais aprofundados podem ajudar a perceber os fatores que provocam os desvios e minimizá-los.  Uma boa análise e um profundo conhecimento sobre os interlocutores, as relações envolvidas entre eles, suas motivações e hábitos, as peculiaridades do cenário em que se inserem, tudo é matéria-prima para direcionar uma estratégia. Apenas uma demografia generalizada não dá conta de tamanha complexidade. As sociedades estão em constante transformação e isso pede adaptações, inclusive, na maneira pelas quais são analisadas: um novo olhar sobre como pensamos, agimos e geramos insights é parte desta revisão.

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