Aos brilhantes silenciosos

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Aos brilhantes silenciosos

Extroversão pode ser positiva se for falta de receio, ou depor contra se for falta de critério


28 de maio de 2018 - 15h44

Crédito: TiagoBaiao/iStock

“A extroversão é uma qualidade superavaliada.” Tomo emprestada a frase, resposta de Luis Fernando Verissimo a uma provocação minha sobre sua conhecida timidez, num papo em sua casa, em Porto Alegre, 12 anos atrás.

Dizem que algumas ideias, expressas concisamente e do modo correto, têm tanto poder de nos liberar de nossos preconceitos quanto dez anos de análise. Pois o autor de O Analista de Bagé me deu esse tranco elegante. Um tapa de luva de lixa, essa frase.

Frequentemente, superavaliamos a extroversão, que pode ser positiva se for falta de receio, ou depor contra se for falta de critério. Soube que hoje mesmo, em algumas das mais importantes e contemporâneas empresas do mundo, são aplicados filtros e processos para evitar que as pessoas mais falantes e agressivas conduzam as decisões em detrimento de ideias potencialmente melhores habitando em vozes mais discretas.

Um desses filtros é pedir que as pessoas reflitam e escrevam suas visões sobre determinado tema, em vez de se precipitarem ruidosamente nas reuniões. Um pequeno passo para a firma, um grande salto para a humanidade.

O próprio Luis Fernando Verissimo encontrou na escrita sua forma de expressão mais barulhenta, tirando o saxofone.

Claro, existem falantes brilhantes. As pessoas tendem a aprontar uma enorme bagunça quando confundem airtime com brilho, veemência com convicção, discurso com intenção e verborragia com inteligência, daí ser importante dar voz aos tímidos altamente produtivos. George Harrison era tímido. E fez uma carreira longa e profícua de cantor, guitarrista e letrista. Bill Gates chega a dar nervoso quando fala, nitidamente pouco à vontade. Ouvindo um pitch dele 30 anos atrás talvez eu mesmo não desse a menor pelota. Ayrton Senna não era falante, a não ser pela força dos seus feitos. Albert Einstein, Lady Gaga, Neil Armstrong, Agatha Christie, Robert Crumb são outros representantes de uma brilhante elite dos silenciosos.

E o João Gilberto, então? O cara não só é tímido como tem uma importante dificuldade social patológica, e talvez tenha feito disso parte de seu combustível criativo.

Na propaganda brasileira, temos Eugênio Mohallem, Philippe Degen, Marcelo Aragão, o genial Cesar Finamori — que parece que vai derreter na sua frente quando assume a palavra —, Fabio Saboya, Robertinho Pereira, Bruno Prosperi, Renato Simões, Gabriel Zellmeister, Ruy Lindenberg e tantos outros que escreveram capítulos importantes da nossa antologia. Meu parceiro José Eustachio é um fora de série introvertido.

A semelhança entre uma pessoa brilhante introvertida e uma pessoa medíocre tonitruante é que, nos dois casos, leva-se uns anos para perceber a qualidade da farinha que tem no saco, e isso potencialmente pode levar a uma injustiça na distribuição das oportunidades.

Imagine um Senna sem um carro, uma Agatha Christie sem um bom editor ou o Cesinha Finamori sem um bom job, por eventualmente esses recursos estarem nas mãos de pessoas mais atuantes socialmente. Teríamos em cada um desses casos um freio de mão puxado no potencial da humanidade em avançar.

Não acho que os tímidos devam ter a garantia de cotas, a emenda ficaria pior do que o soneto. Mas nesses tempos de fazer as diferenças fazerem a diferença, vale a pena ficarmos atentos ao que há de belo e interessante num cara ou numa garota que têm alguma dificuldade de se expor. Ou simplesmente não veem necessidade de. Com certeza, tem muito ouro aí! Toda a voz aos talentosos: tímidos ou falantes.

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