A culpa não é minha, nunca é

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A culpa não é minha, nunca é

Mimi-me: a prática cada vez mais recorrente de reclamar de tudo, culpar tudo e todos que não fazem as coisas exatamente do jeito que queremos


13 de junho de 2019 - 15h35

(Crédito: Reprodução)

Desde os primórdios, a humanidade vive em bolhas. A caverna, as tribos, os feudos, as cidades, os bairros, os condomínios e, mais recentemente, os Stories do Instagram. Que baita invenção por sinal. Uma bolha virtual, aspiracional, real time. Não estou aqui para falar de tech, nem de redes sociais, mas tem um ponto dessa história toda que impacta diretamente em nossas vidas em todos os aspectos.

Sabe aquele sentimento de culpa, como quando você come um enorme pedaço de bolo no meio do regime? No Stories não tem nada disso. A gente posta mesmo e que gostoso que é. Mostramos Nova York todos os dias durante a viagem. Transmite o show do Arctic todinho para quem não estava lá. E, em nossa cabeça, pensamos: “que foda que eu sou, meus amigos vão poder ver o que eu estou vivenciando”.

Mas o foco aqui não é o seu ou o meu regime, ou suas viagens. O ponto que quero discutir com você é a culpa em si. O bom e velho costume da autocrítica, de assumir erros, pensar que mesmo o mundo não sendo perfeito e o outro lado ter pisado na bola, isso não exime você da sua parcela de culpa. Seja do tamanho que for. Mas como subir um Stories, a gente aperta o tal botão do F%$# e culpa só o outro lado.

Chamo isso de mimi-me. A prática cada vez mais recorrente de reclamar de tudo, culpar tudo e todos que não fazem as coisas exatamente do jeito que queremos. E isso vai do seu relacionamento ao ambiente de trabalho. Como empresário de comunicação, tive algumas experiências que me marcaram muito nesse sentido. E grande parte da culpa foi minha, claro que foi. Eu era o “chefe”.

Essa semana marquei uma entrevista e o candidato avisou que ia atrasar meia hora. Ok, São Paulo não anda mais nem de patinete. Ainda mais na “Vilompa”, onde os amigos da Crispin já deram a ideia de todo mundo andar em fila indiana para dar vazão. Mas o cara atrasou uma hora e meia. E a entrevista era às 11h.

Tentei entrar em contato e nada. Esperei, esperei, com o olho no relógio e outro na porta. Tinha um almoço agendado esse dia com um de nossos principais clientes. Agendado há duas semanas, e diferente da maioria de nós, ele tem uma pontualidade britânica. Moral da história, o candidato chegou nos 49 do segundo tempo, me pegou quase saindo, mas, mesmo assim, me sentei com ele e conversamos.

Foi a melhor entrevista do mundo? Claro que não, eu estava puto da vida. Avisei que seria um papo rápido, pois tinha compromisso e falamos por menos de 10 minutos. Atrasos acontecem, gostei do profissional. Falei que entraria em contato com uma posição, mesmo que fosse negativa sobre a vaga.

Peguei um patinete e voei para o meu almoço, cheguei cinco minutos atrasado. Pedi um risoto de camarão, postei, conversamos e voltei para a agência. Aí que o mimi-me apareceu com tudo.

Na minha caixa de entrada, um e-mail do candidato em um tom nada amigável reclamando que a entrevista foi muito rápida e que não tinha tido tempo de mostrar toda a experiência dele para mim. Moral da história, a culpa era só minha. Como assim ? Esse zé ninguém me atendeu com pressa? Que absurdo.

Devo confessar fiquei mal, chateado com a situação. Comecei na publicidade em uma época em que você acordava tomando esporro de todo mundo, chefe, cliente, cachorro. Abri minha agência exatamente para isso não acontecer e fiquei o dia todo me sentindo culpado.

Respondi o e-mail dizendo que apesar do papo rápido, tinha entendido claramente que ele é um excelente profissional e que já tinha visto o portfólio dele com calma também. Falei que realmente o atraso atrapalhou o nosso papo, mas que isso não teria impacto nenhum na decisão.

Tinha uma saída fácil aqui. Culpar o cara, atrasou muito, quase comprometeu meu compromisso.
E ainda quis me culpar. Mas não, sem mimi-me. Eu tenho culpa também. Tenho certeza que o fato de estar irritado com o atraso excessivo do candidato mudou meu jeito de conduzir o papo com ele, e óbvio que ele percebeu que eu estava com pressa querendo terminar logo a entrevista. O cara está procurando emprego, ele já acorda nervoso e eu não pensei nisso na hora. Então, a culpa é minha também.

Era mais fácil apontar os erros dele e seguir em frente com minha vida? Claro que era. Mas não assumir culpa, erros, deslizes é o que faz a gente se blindar dentro das nossas bolhas perfeitas e individuais. Como assim, ele não gostou de mim? Como assim o cliente achou a campanha ruim? Como assim ele me mandou embora? Assumir culpas, entender e compartilhar responsabilidades é o que nos faz evoluir.

Olhe para dentro e não para o Stories que você postou. Lá você é lindo, perfeito, não erra. Bom, agora deixa eu terminar. O candidato voltou para uma nova entrevista, chegou no horário e vamos conversar com calma.

*Crédito da foto no topo: Reprodução

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