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Mercado francês surpreende pela fluidez com que conteúdos transitam por diferentes plataformas e pela confiança do público nos veículos


23 de julho de 2019 - 10h18

(Crédito: Pixabay)

Neste mês, o Grupo de Mídia realizou sua 20ª viagem ao exterior. É uma expedição anual de conhecimento para centros de comunicação e negócios importantes — como Nova York, Tóquio, Londres, Los Angeles, Estocolmo, San Francisco e Berlim. Este ano o grupo foi para Paris. Em uma semana, foram 13 reuniões com empresas e entidades de diferentes segmentos. O ritmo intenso proporciona um mergulho vertical e profundo para conhecer novidades, práticas, modelos e inúmeros locais.

Participei da maioria dessas viagens e aprendi a entender sua dinâmica. Num mundo conectado e globalizado, muito do que acontece lá fora já se conhece no Brasil, de forma que não espero ouvir novidades radicais a cada reunião, tampouco voltar transformado. Mas tenho a expectativa de captar movimentos deste mundo em transformação — um ou dois grandes insights para ficar mais ligado entre dezenas de informações, curiosidades e boas doses de inspiração criativa. Em Paris, dois temas exaustivamente repetidos ao longo da semana me chamaram a atenção: Fluidez e Confiança.

Fluidez tem a ver com a capacidade dos conteúdos de transitarem por diferentes meios. TV já foi TV, jornal já foi jornal, internet já foi internet e isso é parte do passado. Vivemos num mundo fluido, no qual um mesmo conteúdo pode ser disponibilizado em plataformas e momentos diferentes, gerando novas experiências, extensões de marca e modelos de monetização. Expertises até há pouco proprietários das marcas nativas digitais se proliferaram e estão sendo praticados (de fato) por todo o mercado — de veículos e produtores de conteúdo a agências e uma frente incrível de novos fornecedores.

O Canal+, por exemplo, mostrou ideias arejadas sobre a distribuição e monetização dos conteúdos que produz, e aqui destaco uma ênfase em Performance — uma notícia interessante, já que não é um tema normalmente abraçado pela TV. A Webedia, cuja soma dos seus canais digitais produz uma das dez maiores audiências da França, usa toda espécie de expertise para impulsionar seus conteúdos — incluindo aqueles que cria para marcas. O Grupo Le Figaro, tradicionalmente um jornal, tem a quarta maior audiência digital da França. É igualmente admirável como a JC Decaux prioriza inovação e tecnologia nos seus produtos — até inteligência artificial está sendo testada. Se não chega a ser novidade, esse movimento percebido em bloco (com mais exuberância que no Brasil) evidencia que o contexto oferece e pede flexibilidade e ousadia na criação de estratégias e modelos de negócio para marcas e veículos.

Impressiona também o entusiasmo do mercado francês ao falar de Confiança, tanto na qualidade dos conteúdos como na credibilidade dos dados: escancara e estressa preocupações recentes, como a proliferação de fake news e a discussão em torno da confiabilidade de informações e métricas, especialmente digitais. A França difere radicalmente do Brasil nos índices de leitura: lá, a mídia impressa tem a mesma penetração que a TV e a internet. A qualidade editorial é percebida como um diferencial competitivo importante, capaz de garantir um ambiente saudável para as marcas — e isso não fica só no discurso. O Le Monde, por exemplo, destaca uma métrica de confiança que a coloca na liderança entre jovens. E o IAB lidera a criação de um índice de confiabilidade para o ecossistema digital do país, financiada por toda a indústria de comunicação. Transparência é palavra de ordem.

Vale a pena comentar que pude circular por Paris. E nesse clima efervescente de modernidade, o recurso de comunicação que mais me chamou a atenção foi o lambe-lambe de uma exposição de fotos da Jacqueline Kennedy e da Marilyn Monroe — me impactou de tal forma que fui conferir. O mundo de hoje produz uma nuvem de hashtags fascinante, que combina inovação, tecnologia, dados, brand safety, performance, branded content, engajamento, multiscreen e folhas de papel coladas na parede. Isso é bonito: a responsabilidade de fazer bem feito — e a liberdade de ignorar rótulos para fazer qualquer coisa.

*Crédito da foto no topo: Unsplash

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