A demonização do Coaching

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A demonização do Coaching

Os movimentos de regulamentação que começam a surgir são uma reação da sociedade contra o cenário de exageros e superficialidades causados pela falta de profissionalismo de parte do mercado


9 de agosto de 2019 - 10h06

(Crédito: Austin Distel/ Unsplash)

Para todos os profissionais que trabalham com o tema Coaching há mais de 20 anos e contribuíram para a introdução de sua prática no Brasil, no final da década de 1990, é muito triste ver como se deu. Inicialmente, a comoditização, depois, a banalização e, agora, o puro deboche com o papel do coach.

Apesar das piadas e memes em grupos de WhatsApp não deixarem de ser muito divertidos, a circulação das mesmas pode estigmatizar o Coaching e injustamente associar a atividade ao amadorismo, a incompetência e  o puro charlatanismo criminoso.

E o que inspirou essa onda negativa contra o Coaching? Nesses últimos tempos, surgiu gente que promete mudar sua vida, black friday de Coaching, encontre seu propósito em uma sessão, reprograme seu DNA, cura quântica, viva de coaching, torne-se um coach e enriqueça, etc.

A piada corrente é que, se você fica desempregado, pode virar um coach ou motorista de Uber ou, melhor ainda, os dois ao mesmo tempo. Além dos coaches charlatões, a outra vertente é a daqueles que vivem de treinar pessoas para serem coaches, que nunca serão. Em salas de centenas de pessoas, com frases inspiradoras no melhor estilo autoajuda da década de 1980.

Cruzei com um desses cursos recentemente, em um hotel, com uns 200 participantes. A maioria, gente muito jovem, dentro de uma verdadeira ratoeira que, em alguns casos, investiu o fundo de garantia da demissão, com a falsa esperança de que um curso de quatro dias, com 200 pessoas numa sala vai permitir que se viva de Coaching ou se enriqueça com ele.

Os movimentos de regulamentação que começam a surgir são uma reação da sociedade organizada contra este cenário de exageros e superficialidades. É uma atividade difícil de se regulamentar já que na essência o Coaching nada mais é do que duas pessoas conversando, uma no papel de ouvinte e de contribuição e outra no papel de lidar com suas questões e problemas de maneira autônoma.

Talvez seja um dos profissionais mais antigos da humanidade. Será que é possível regulamentar isso?
Se assim for, seria necessário tentar regularizar os requisitos necessários para se intitular coach e suas premissas básicas.

O problema é que hoje tudo é Coaching – alimentação, moda, saúde, cozinha, coach de cadeia (se você for para prisão, como deve se comportar) e por aí afora. Mas não é deste Coaching que estamos falando aqui.

Em nenhum país do mundo há uma regulação específica da profissão de coach, nem mesmo nos EUA onde se movimenta volumes de negócios dezenas de vezes maiores que no Brasil neste tema. As nossas “jabuticabas” não costumam funcionar bem quando deixam de ser frutas para ser políticas, regras que só o Brasil tem.

O mercado de Coaching executivo ou corporativo, que é o campo em que atuamos, não tem sido muito afetado por essa “degradação” da imagem do coach. As empresas em geral têm critérios rígidos para contratar um coach e sabem onde e como procurá-los. As áreas de RH estão passando por um processo de amadurecimento na utilização da prática nos últimos anos.

Uma preocupação maior é com as dezenas e milhares de incautos que estão sendo enganados por propostas de formação enganosas. Se reguladas de maneira séria, não há dúvida que a maioria dessas formações sairia do ar. Mas, provavelmente, na hipótese de regulamentação da atividade de “coach”, surgirão as pessoas autointituladas mentores, conselheiros, consultores etc.

O mercado, é claro, tem maneiras de se autorregular. Esses milhares de coaches “formados” nessas arapucas, na sua grande maioria, se não na totalidade, não conseguem clientes ou quando conseguem, em geral, não passam da primeira sessão. Mais perigoso e criminoso são os gurus desses cursos, que conduzem os programas como se estivessem numa seita em que, sabem, estão vendendo uma ilusão e fazem propaganda enganosa, enredando as pessoas em um processo que vai consumindo, em alguns casos, suas economias.

Quanto aos clientes desses “coaches” de fim de semana, a informação, melhor que a regulação, me parece ser o remédio. Creio que a autorregulação do mercado ainda é o melhor caminho. Acho difícil um burocrata de Brasília decidir se eu posso ou não conversar com alguém e se eu posso remunerá-lo por isso ou não. A chance de mais atrapalhar do que ajudar, é grande.

As pessoas me perguntam: “o Coaching vai morrer?” Não creio! . Ele é um papel arquetípico. Quase todos os heróis da nossa cultura, como rei Arthur, Dante, Batman, Luke Skywalker, grilo falante e outros tiveram seus coaches. Este processo pelo qual podemos conversar com alguém com maior ou menor técnica, que nos ajuda a pensar em nossos problemas, sempre foi exercido por sacerdotes, amigos, pais, irmãos, conselheiros, xamãs, chefes, mentores e coaches. Ele é eterno, por isso arquetípico.

*Crédito da foto no topo: Rawpixel/ iStock

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