Streaming: novo formato ou adaptação de um velho conhecido?

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Opinião

Streaming: novo formato ou adaptação de um velho conhecido?

Em tempos acelerados, vale pausar para refletir em como essa maneira de compartilhar e ver conteúdo pode transformar a escrita e a maneira de ver o ofício


28 de outubro de 2019 - 16h30

(Crédito: Pixabay)

Estar em uma plataforma que pode te exibir em lugares que você nunca pensou em alcançar pode ser e é o sonho de muitos roteiristas, inclusive o meu. Um roteirista é o que ele escreve e não só isso; é o roteiro vendido, produzido e exibido. Roteiro na gaveta não interessa, desenvolver projetos ad eternum e a bel prazer também não. Queremos e precisamos que as cenas ganhem vida e espectadores, afinal, roteiro sem audiência é como livro sem leitor, algo incompleto.

Logo, a entrada dos canais de streaming é algo muito sedutor. Dos pontos positivos, o primeiro de todos é, sem sombra de dúvida (pelo menos para mim), a abertura de mercado. Agora, além da TV aberta, cabo e cinema, temos outra opção profissional para mandar o nosso projeto da vida. Em segundo, a produção em si, mais projetos estão sendo desenvolvidos e escritos. Em terceiro, a chance de ganhar um prêmio fica mais próxima, canais de streaming te dão essa possibilidade. Por último, e não menos importante, a visibilidade. O streaming é uma vitrine sete dias por semana, 24 horas por dia.

No entanto, como todos os braços do mercado audiovisual, o streaming traz suas peculiaridades. A grande visibilidade é uma faca de dois gumes que é preciso manejar com muita cautela. Agora, não estamos mais limitados a um horário específico e a um target. Ainda escrevemos pensando em um público alvo, mas, como mensurar isso em uma plataforma aberta para todos os públicos, das mais diversas idades, repertórios e nacionalidades? A chance de cair no grande erro de querer agradar a todos é muito grande. O desafio de desenvolver uma história original, local e global que prenda o espectador brasileiro, chileno, mexicano, português, quiçá um norueguês também, aumenta. São muitos olhos em cima de você, a aposta é alta e, em momentos assim, os canais, por mais que confiem no trabalho do autor- roteirista, vão querer se precaver.

O que isso significa? Etapas e métodos para acompanhar o processo criativo da obra. São metodologias diversas, cada canal tem seu estilo, mas que podem ser muito úteis, pois podem trazer para a mesa elementos que deixarão a narrativa muito melhor. No entanto, quando se dão em excesso, ou tentam enquadrar uma obra em um formato que não lhe é compatível, mas que funcionou com outras histórias, essa metodologia pode engessar. Existem muitas regras para escrever bem, mas a escrita como obra artística não é uma ciência exata e, às vezes, seguir as regras de ouro não dará o resultado esperado. Pelo contrário, pode gerar uma interrupção do fluxo criativo e fazer com que a equipe de roteiro deixe de criar para gerenciar e adaptar a narrativa a demandas que, algumas vezes, não têm nada a ver com o produto em si.

Outro ponto importante e único do streaming é que ele, por si só, é um spoiler. Todos os episódios são disponibilizados ao mesmo tempo e com suas respectivas sinopses. Além de ter uma prévia de tudo, o espectador pode começar a ver de trás para frente se quiser. Fora isso, essas plataformas são os demônios da Tasmânia, os devoradores de episódios. O tempo para se levantar uma boa primeira temporada de oito episódios segue igual, só que agora o espectador não leva um mês para ver, e sim um dia, se tanto. O consumo é frenético. São muitas opções, ainda mais se pensarmos que provavelmente teremos mais canais de streaming no futuro. Então, diante desse consumo acelerado, feito em casa, mas também no celular, no metrô, no ônibus, com outros sons e imagens competindo pela atenção do espectador, quanto de apreensão o nosso público tem e terá da obra? Os canais vão ou já estão colocando isso na conta? Teremos que contar cada vez mais em menos tempo? Ou isso é coisa de momento e teremos sempre espaço para todos os tipos de narrativa?

Enfim, em tempos acelerados vale pausar para refletir em como essa nova maneira de compartilhar e ver conteúdo pode transformar a escrita e a maneira de ver o ofício.

*Crédito da foto no topo: Dom J/Pexels

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