Redes sociais na encruzilhada

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Redes sociais na encruzilhada

Não precisamos ser especialistas em gestão de dados ou publicidade para chegarmos à conclusão de que o mundo seria completamente diferente se não fosse pelo papel nefasto das redes sociais em episódios políticos ao redor do mundo


3 de dezembro de 2019 - 14h30

(Crédito: Johanna Svennberg/ iStock)

É impossível assistir ao documentário Privacidade Hackeada, na Netflix, e não ficar estarrecido com a profundidade e o impacto da interferência maligna da hoje extinta Cambridge Analytica na última eleição americana e no referendo do Brexit, no Reino Unido. Mais assustador do que isso, só mesmo a leniência do Facebook, cujos dados sobre dezenas de milhões de eleitores e o próprio impacto da rede sobre eles acabaram se tornando elementos decisivos para virar o jogo de forma surpreendente em favor de Donald Trump e dos partidários da saída do Reino Unido da União Europeia.

O curioso é que realmente não acredito que Mark Zuckerberg, pessoalmente, haja tido qualquer interesse de ver a materialização do Brexit ou a eleição de um candidato republicano nos Estados Unidos. Essas coisas vão claramente contra a visão de mundo defendidas pelo jovem empreendedor e seriam uma enorme contradição à sua trajetória de vida. No entanto, uma combinação lamentável de falta de visão aprofundada do que estava acontecendo no quintal de sua empresa com uma inegável leniência no trato com a área que comercial — aquela que, efetivamente, traz os resultados trimestrais tão avidamente acompanhados pelo mercado —, fez com que a empresa mergulhasse de cabeça em um pesadelo de imagem e reputação que custou bilhões de dólares aos seus acionistas.

Tudo isso me leva a traçar um paralelo com o prólogo de 2001 — Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubric. A cena, batizada de “A Alvorada do Homem”, é clássica: um grupo de primatas muito fortes se impõe sobre outro grupo, menor e menos musculoso, na luta por um escasso reservatório de água que representa a sobrevivência para aquelas espécies. Humilhado e desesperado de sede após várias tentativas de beber da pequena fonte, um dos primatas do grupo mais fraco se vê mexendo em ossadas de animais que morreram perto do local. Num determinado momento, esse primata — que os historiadores chamariam de O Elo Perdido — raciocina pela primeira vez. A ideia do primeiro ser a pensar como humano foi usar um grande osso como extensão do seu braço. Com essa espécie de tacape, ele não apenas mata o líder do grupo inimigo como também ensina os outros de sua espécie a caçar e a defender o território. Começava ali a saga da espécie humana, que se impôs às demais mesmo sem ser a maior, a mais forte, a mais rápida ou por possuir capacidade de voar ou respirar debaixo d’água.

Kubric é duplamente genial na concepção da cena. Sua primeira grande sacada, através da qual encerra o prólogo, é mostrar o primata recém-convertido em homem lançando ao céu o tal osso, que se transforma em uma nave espacial, o que faz com que o filme dê um salto de milhares de anos. Dessa forma, em um espaço de segundos, o diretor mostrou que a história do osso e a da nave são exatamente a mesma, pois se conectam através da saga do pensamento e da inventividade humana. A segunda grande sacada de Kubric é mais amarga, embora igualmente pertinente: a primeira invenção do ser humano foi uma arma. Se pensarmos bem, não foi diferente com os aviões, a energia nuclear, as experiências genéticas e tantas outras coisas. Nosso brilhantismo ao criar coisas geniais só se compara à nossa capacidade de desvirtuar o propósito das mais extraordinárias de invenções.

Ao mostrar o progresso inacreditável que a espécie humana viveu entre o osso lançado ao céu e o concerto de naves espaciais, Kubric nos dá esperança. Afinal de contas, embora tenhamos usado a inteligência pela primeira vez para fabricar uma arma, fomos capazes de outros avanços extraordinários e positivos. É verdade que a parte do filme que se passa no futuro nos mostrará um robô bem traiçoeiro e maligno, mas isso já é assunto para outra coluna. O fato é que as redes sociais, que todos imaginavam que seriam mecanismos benéficos para a sociedade, acabaram se desvirtuando. Mas ainda acredito, e muito, em sua capacidade de se tornar algo melhor. Uma força para o bem, ou “a force for good”, como Zuckerberg vive se referindo ao Facebook.

Aos poucos, as principais redes sociais vão fazendo as pazes com seu propósito original de aproximar pessoas, em vez de afastá-las. O Facebook, depois de um começo extraordinário, conectando pessoas que até então jamais poderiam sonhar com interação — e reconectando amigos que não se viam há décadas —, acabou se transformando em um ambiente de exibicionismo, no qual todos postavam sobre suas vidas e carreira perfeitas e, mais adiante, em um grande hub de incitação de ódio político e radicalização, cujo impacto sobre a normalidade do processo democrático foi escancarado no documentário que mencionei na abertura. Hoje, no entanto, com a decisão de proibir campanhas políticas e de lutar contra as fake news, o ambiente da rede começa a respirar novos ares. Muitas comunidades estão se desenvolvendo ali, desde ONGs até grupos de pessoas de uma mesma empresa ou com os mais variados gostos em comum. O Facebook vai ficando cada vez menos individualista, o que é bom. Parte da mesma empresa, o WhatsApp, que foi o grande vilão das eleições brasileiras, começa a adotar medidas para evitar o nauseante spam de mensagens de manipulação ideológica e, com isso, se torna cada vez mais um ambiente de comunicação rápida, versátil e grátis. Além de ser uma ferramenta de trabalho para muitos que estão batalhando pelo pão de cada dia, vendendo produtos e serviços, prestando assistência e aconselhamento, resolvendo de forma ágil questões que levariam horas ou dias para serem tratadas por canais tradicionais. O mesmo pode ser dito do Instagram, outro filhote do Facebook, que também começa a encontrar seu caminho de positividade, informação e relevância.

O Twitter? Bem, o Twitter consolidou-se como centro de notícias no calor do momento e, exatamente por conta desse calor, pagou o preço de ser também o local favorito para a treta nossa de cada dia. Boa parte das pessoas está lá para bater boca, cultuando ou odiando celebridades, e isso faz parte do DNA da rede. Eu, por exemplo, só uso Twitter para “cornetar” sobre o meu Fluminense. E confesso que me divirto bastante. Mas entendo que está mais do que na hora da rede atuar mais fortemente sobre fake news, além de combater imagens, expressões e conceitos que não encontram mais lugar nos dias de hoje. Outras redes sociais continuarão surgindo a todo instante, uma vez que os muito jovens não gostam de canais consolidados ou de fazer parte do status quo. Eles sempre pularão das redes logo depois da adesão dos mais velhos, o que é ótimo para renovar a energia criativa do mercado.

A revolução está apenas começando. E, como tudo na história da encantadora e insana espécie humana, as redes sociais acabarão sendo, sim, forças para o bem. Quem viver, verá. E postará.

*Crédito da foto no topo: mrPliskin/iStock

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