Os anos 2020 são os novos anos 1970?

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Os anos 2020 são os novos anos 1970?

Enquanto algumas pessoas são ‘canceladas’ nas redes sociais por vestirem uma fantasia de índio, os líderes das grandes nações do planeta têm carta branca para dizer ou tuitar qualquer barbaridade que lhes venha à cabeça


27 de fevereiro de 2020 - 10h58

(Crédito: iStock/ Vectorios 2016)

Quanto mais experimento a complexidade dos tempos atuais, mais fico com a sensação de que estamos vivendo uma era de contrastes só comparável ao que o mundo viveu entre o final dos anos 1960 e o final dos anos 1970. Eu era apenas uma criança, protegida da loucura da história pelo conforto simples do subúrbio carioca de Madureira, de forma que não posso dizer que vivi a agonia daquele período em que todos os valores, de todas as culturas, foram questionados até as últimas consequências — e numa tacada só. Apesar disso, jamais deixei de procurar entender com maior profundidade aquele período que, sob vários aspectos, estabeleceu todas as grandes questões que a humanidade teria de enfrentar pelas próximas décadas.

Eram tempos paradoxais, nos quais a emocionante campanha pelos direitos civis revirava as entranhas de uma sociedade ainda profundamente racista e retrógrada. Uma esquina da história onde o pacifismo inocente dos primeiros hippies se chocava com a dura realidade da guerra do Vietnã. Um capítulo estranho da aventura humana no qual, em busca de valores como paz, liberdade, independência e justiça social, irlandeses do IRA, bascos do ETA, palestinos da OLP e norte-americanos do The Weather Underground achavam que seus sonhos deveriam ser construídos sobre pilhas de corpos explodidos por bombas. Contrastes e mais contrastes. Nixon e Woodstock. Ditadura militar e Tropicália. Noviça Rebelde e Midnight Cowboy. Tortura e seleção do Tri. EUA e URSS. TFP e MR-8. Direita e esquerda.

Mudam os atores, muda o enredo, muda a plataforma, mas o mundo está novamente fraturado. E é fratura exposta. Alguém poderia argumentar que a história da humanidade sempre foi assim, que a divisão nunca deixou de ser regra e que somos incapazes de convergir. Embora reconheça as dificuldades de relacionamento da nossa pitoresca espécie, não concordo com a visão de que estivemos sempre divididos. Há momentos históricos com carga de conflito muito maior e outros bem mais suaves.

Não dá para comparar os anos 1930 ou 1940 com os anos 1950, por exemplo. O nível de caos das décadas da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial foi incomparavelmente maior do que o dos anos 1950 — e seria até cômico se alguém tentasse se referir aos anos 1930 ou 1940 como Anos Dourados. Os anos 1980 e 1990 também foram indiscutivelmente menos turbulentos do que as décadas de 1960 e 1970, cujo início e final foram tão estarrecedores e diferentes que, se alguém despertasse de um longo coma durante o período, poderia achar que tinha sido levado para outro planeta.

Não creio que o susto seria igual para alguém que passasse pela mesma experiência de apagar no início e despertar no final dos anos 1980 ou 1990. É claro que sei que os anos 1990 foram bem menos divertidos do que os 1980, mas tampouco foram caóticos. Aliás, com as devidas desculpas para quem tem menos de 40 (e isso não é papo de tiozão saudosista), chega a ser covardia comparar qualquer década com a década de 1980. Infelizmente, o objetivo deste texto não é falar das cores e da energia quase irritante dos anos 1980, mas tentar mostrar como a segunda metade da década de 2010 tem carga de conflito semelhante à segunda metade dos anos 1960, e como este início dos anos 2020 ecoa de forma preocupante o grande sururu que foi a década de 1970.

Eu poderia encher colunas e mais colunas com exemplos dos paradoxos que comprovam que vivemos tempos tão fraturados quanto a virada dos anos 1960 para os 1970, mas me contentarei com apenas um: a constatação de que, enquanto algumas pessoas são “canceladas” nas redes sociais por vestirem uma fantasia de índio, por uma flexão de gênero mal empregada ou mesmo por uma frase infeliz, os líderes das grandes nações do planeta têm carta branca para dizer ou tuitar qualquer barbaridade que lhes venha à cabeça. É inacreditável notarmos como mesmo os mais folclóricos e velhacos políticos da história ficariam ruborizados com a linguagem e o nível das piadinhas adotadas pelas lideranças da atualidade. E não estou falando de líderes de repúblicas de bananas ou de ditadores malucos, mas de pessoas democraticamente eleitas para comandar países gigantes. Fico imaginando a cabeça do meu filho de dois anos e meio quando, um dia, tiver que estudar que a época que representou a explosão do politicamente correto foi também a que mais produziu líderes politicamente incorretos.

O que pensar dessa loucura toda? Quem acompanha minhas colunas sabe que, o que tenho de criticismo em relação ao que vejo de errado no mundo, tenho também de otimista incorrigível. E, assim, prefiro encerrar este texto com algo que ouvi de um amigo, logo após o início da onda de conservadorismo chucro que está assolando o planeta (uma espécie de resposta chucra ao esquerdismo chucro, que fez de tudo para radicalizar e emburrecer os debates em muitos lugares).

Meu amigo nasceu no Alabama, de onde teve que se mandar ao perceber que, naquele lugar, o fato de ser democrata, gay, casado com um negro e com um filho adotivo latino não apenas representava uma situação de constante discriminação — algo que ele se acostumou a enfrentar corajosamente —, mas um inaceitável risco de vida para as pessoas que mais ama. Estabelecido em Washington, se especializou em comunicação corporativa e vive feliz. Tão feliz que nem os piores percalços políticos o abalam. Quando a candidata dele perdeu as eleições norte-americanas, liguei para saber como estava percebendo a situação do mundo. Ele deu uma risada e disse que não havia razão para preocupações maiores. “Marcos, esses são os últimos estertores de um mundo velho e cheio de conflitos, que está desaparecendo para dar lugar a um outro, muito mais diverso, respeitoso, interconectado e preocupado com sua preservação. Faz parte. Enjoy the ride!”, disse, antes de soltar uma gargalhada.

Retransmito o conselho dele a vocês. Que a gente jamais se renda à mediocridade nem aceite como novo normal o que é aberração. Que tenhamos a inteligência de entender que se as pessoas razoáveis se unirem aos radicais, os radicais de direita e esquerda serão não apenas a maioria, mas a única opção. Portanto, fé na gente, trabalho, equilíbrio de opiniões, repúdio às fake news, mais leitura, diálogo e menos lacração nas redes. Se fizermos nossa parte, essa década que começou ‘sequelada’ como os anos 1970 pode perfeitamente terminar em discoteca e abrir as portas para que os novos anos 2030 sejam uma repetição da alegria dos velhos 1980.

*Crédito da foto no topo: Josh Rose/ Unsplash

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