Sensação de missão comprida

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Sensação de missão comprida

O sentimento que tenho é esse mesmo: o de que ainda há muito por fazer


5 de outubro de 2020 - 13h11

(Crédito: Tanawatpontchour/iStock)

Desculpe, Aurélio. Perdão, Michaelis. Vai ter gente que só vai ler o título deste texto e vai desaprender um pouquinho da língua portuguesa. Mas eu não errei a grafia. O sentimento que tenho é esse mesmo: o de que ainda há muito por fazer, a missão é compriiiiiiiiiida.

Quando reflito sobre meu trabalho como marketeiro, vejo tanta coisa que ainda gostaria de realizar. Percebo tantas práticas que poderia influenciar. Tantas pessoas que poderia ajudar. Ainda há tanto por fazer.

Quando eu tinha 20 anos e queria “conquistar o mundo antes do 30”, ouvi um diretor de um dos maiores anunciantes falar: “Aproveitar a jornada é mais importante do que chegar ao destino”. Aquilo me inquietou. Discordei radicalmente em um primeiro momento. Mas o tempo me convenceu que ele estava certo. Talvez seja porque, na verdade, a gente nunca “chega”, a gente sempre quer mais.

Lembra a última vez que você teve um aumento de salário ou uma comissão bacana? Por quanto tempo você ficou “feliz” com isso? Do que vejo por aí, em poucos meses, as pessoas já viram a página.

Eu também sou daqueles que querem chegar logo ao último episódio da série, à última página do livro, à final do campeonato ou à meta que estava buscando. A verdade é que terminar algo é mesmo prazeroso. Mas, se isso vira uma obsessão a ponto de nos impedir de aproveitar os episódios, capítulos, jogos e acontecimentos do meio do caminho, perdemos um montão. Temos que esperar a sobremesa aproveitando o prato principal. E apreciar os detalhes da salada (mesmo se os sabores forem ácidos ou azedos) antes daquele bifão.

Tem gente que acha que ser feliz no trabalho é chegar logo a um alvo desejado. Quem nunca quis ser famoso? Ganhar vários Leões em Cannes. Ser eleito no Caboré (um dia essa coruja vem!). Estar na lista dos “global top master blasters” de qualquer coisa. Mas o melhor conselho que já recebi sobre isso é que “felicidade é mais sobre o jeito como se vai e menos sobre o lugar aonde se chega”.

Para evitar que você pule rápido esse parágrafo, vou repetir: “Felicidade é mais sobre o jeito como se vai e menos sobre o lugar aonde se chega”.

Os poucos minutos de euforia depois de uma conquista são muito legais e deixam memórias incríveis. Mas, se os muitos minutos na preparação e na busca dela forem espinhentos, você vai passar muito mais tempo ansioso e preocupado do que satisfeito. Se um alpinista não curtir os anos de preparação e as horas da escalada, vai ser feliz só por cinco minutos no topo da montanha.

Preste atenção no caminho. Aproveitar a jornada implica em se contentar com o que temos hoje. Pode parecer estranho falar sobre isso num mundo corporativo que te pede o tempo todo para “sair da zona de conforto” e “sonhar grande”. Mas, na minha opinião, inconformismo e ambição não são opostos de contentamento. Veja bem: eu quero tudo que a vida tem para mim. Tudinho. Nem mais, nem menos. Mas também quero ficar feliz com o que ela me proporcionar em cada etapa, aproveitando as oportunidades de cada momento.

Uma boa parte dessa história está em se livrar do peso das comparações. Onde estão hoje seus amigos de infância? E os colegas da escola? Os vizinhos? E as pessoas que conheceu no seu primeiro trabalho? Parece que o nosso cérebro faz questão de criar uma competição mental. “Veja, fulano já está lá na frente! E olha lá a ciclana indo bem melhor que você!”. Cada um tem o seu tempo, o seu propósito e o seu “sucesso”. A carreira e a vida não são uma competição contra outras pessoas. Quem já fez maratonas sabe como é importante não se abalar comparando a sua performance com a dos outros corredores. E quem já foi ajudado num momento em que precisava muito, experimentou a diferença que faz quando alguém olha para a vida sem ser uma disputa.

Se você é daqueles que vai direto ao último parágrafo de um texto e está lendo isso aqui, te deixo um resumo: você perdeu a chance de ter feito uma reflexão mais profunda nas linhas acima. E comer o prato principal depois da sobremesa não é a mesma coisa. Pense melhor na próxima vez. Você não está sendo mais esperto e rápido que ninguém. Está perdendo uma oportunidade. Porque a sua missão é tão comprida quanto a minha.

*Crédito da foto no topo: Eugenesergeev/iStock

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