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E agora? Che facciamo?

Comunicação atuará como um elemento essencial de reconexão entre pessoas e marcas


13 de outubro de 2020 - 17h47

(Crédito: Akindo/istock)

Meus antepassados eram da região de Pádua e Veneza, na Itália, e era comum eu ouvir o meu avô, que mal falava português, usar a expressão “Che facciamo? (O que estamos fazendo?)” perante alguma situação de difícil solução. Quando eu ouvia isso, sabia que era encrenca e que toda a família seria afetada.

Pois é, meus amigos. Acredito que neste momento, onde completamos meio ano de confinamento, estamos diante de uma situação “Che facciamo?”. Estamos cansados da pandemia e loucos para decretar o final dela, mas a realidade mostra que ainda temos um longo caminho pela frente.

Esta crise escancarou os nossos problemas de desigualdade e a falta de preparo em muita coisas em geral. Para as empresas, além de exercícios hercúleos de gestão, a tão sonhada transformação digital teve que acontecer na marra para que muitas pudessem sobreviver e não figurar na lista das mais de 700 mil empresas que fecharam as portas no País até julho deste ano.

Para isso, pensei em quatro grandes questões que, a meu ver, mereceriam um “Che facciamo” do meu avô neste momento:

1 – O que mudou na cabeça dos nossos clientes?

As empresas precisam responder aos anseios das pessoas em relação ao porquê elas existem. Temos lido e ouvido que a pandemia trouxe para todos um repensar dos valores e também dos hábitos de consumo. Trago aqui, para exemplificar, um dado do estudo Kantar Barômetro Covid-19, que apontou que 88% dos brasileiros consideram que as marcas devem falar sobre sua utilidade para o novo dia a dia pós-pandemia. Isso, em minha visão, reforça a importância da gestão da reputação e de uma comunicação muito fluida, para comprovar aos clientes que a sua narrativa condiz com esta realidade.

Neste cenário, as marcas com propósito claro, empáticas e que se colocaram à serviço da sociedade, certamente sairão mais fortes. É o que temos defendido junto aos nossos clientes. Se existe um momento para se comunicar com toda a força, é agora. Para isso, existem aspectos que não podem ser deixados de lado. Um deles é a visão e execução da comunicação de fato integrada, mais digital, menos presencial. Para isso, cada vez mais, nossas campanhas, ações e ativações precisam destacar o propósito das marcas e usar a inteligência de dados para atuar com eficácia e também cumprir seu papel para uma comunicação ainda mais responsável.

2 – E nos corações dos nossos colaboradores?

Aposto que a primeira coisa que vem à sua cabeça é a adoção total do home office. Afinal, depois que experimentamos e vimos que funciona, qual é o sentido de retornar para o modelo anterior, de escritórios com longas jornadas, se agora podemos produzir muito mais em casa? O fato é que nossas longas jornadas se esticaram ainda mais, agora acrescidas de tarefas do lar e homeschooling, onde os pais estão fazendo parte do papel dos professores, que também, em geral, não estavam preparados para as aulas não presenciais. Bom, para nós que estamos lendo este texto aqui neste veículo, somos privilegiados em poder fazer o trabalho remoto, o que não é a realidade, arrisco dizer, de mais de 70% dos trabalhadores no País.

Neste sentido, as empresas têm sim um papel essencial para ajudar as pessoas neste cenário. O isolamento mostrou que a confiança é de fato a base destas relações e as estratégias de comunicação bem executadas podem ser de extrema valia para manter as pessoas integradas e pertencentes às organizações onde atuam. Talvez nunca estivemos tão solitários e a questão não é o quanto de informação transmitimos por nossos canais e ativações, e sim, o quanto os nossos líderes estão próximos dos seus colaboradores e, principalmente, praticando a empatia e a escuta ativa.

3 – A guerra de narrativas e as fake news

A infodemia veio acompanhando a pandemia. É uma guerra de narrativas e precisamos estar atentos a isso. Um estudo do Gartner mostra que, em 2022, as pessoas tenderão a consumir mais notícias falsas do que verdadeiras nas redes sociais. As fake news, além do elemento comportamental, tem a seu favor os bots que estão à nossa espreita para nos jogar muitas vezes em territórios de informação não confiáveis. Da mesma forma que combatemos o vírus com protocolos e higiene, o mesmo se aplica às fake news. Evitar repassar conteúdos de origem duvidosa, checar a fontes e utilizar o pensamento crítico é um ato de cidadania.

As marcas têm papel nesta guerra e podem ajudar. O excesso de informação é uma realidade e os algoritmos estão à postos para nos oferecer informações que eles julgam mais adequadas para nossos gostos e interesses. Neste sentido, a geração de conteúdos úteis das marcas para as pessoas, aliado à técnicas de SEO podem ajudar as companhias a ter uma estratégia de conteúdo mais eficaz e ajudar a combater informações falsas.

4 – Como fica a cultura organizacional?

Falar em engajamento, neste cenário, é duplamente desafiador. O apoio para as empresas na comunicação com seus funcionários se tornou ainda mais crítico. Tudo indica que teremos um modelo híbrido de trabalho com o presencial e o remoto. O desafio de absorção da cultura da empresa, por exemplo, fica mais complexo e exigirá ainda mais transparência, constância e uso dos meios mais adequados. Por isso, os aprendizados do isolamento precisam ser absorvidos na cultura das empresas. Bons projetos de comunicação, capacitação das lideranças em Escuta Ativa e Comunicação Não-Violenta são parte deste aprendizado.

Facciamo così?

Acredito, realmente, que a comunicação atuará como um elemento essencial de reconexão entre pessoas e marcas. Ela irá muito além da transmissão de informações, caminhando para um processo de produção e ressignificação, na linha do que defendia o filósofo russo Mikhail Bakhtin, em sua Teoria da Polifonia. Assim como na música, precisaremos unir várias vozes em uma mesma partitura e nosso papel será orquestrar os pilares de uma comunicação responsável, sustentável e útil para as pessoas. E como diria meu avô “Facciamo così? (Vamos fazer assim?).

**Crédito da imagem no topo: golubovy/istock

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