Falar ou não falar

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Falar ou não falar

A era do posicionamento torna-se um desafio para os líderes, que, no fundo, não têm mais a opção de silenciar sobre determinados temas


10 de janeiro de 2022 - 15h00

Mary Long/shutterstock

A pandemia da Covid-19 mudou o mundo e a forma de fazer negócios. Em dois anos de isolamento social e de paralisação global imposta pelo coronavírus, não foi só a transformação digital a crescer no ambiente corporativo. CEOs e executivos tiveram de assumir um protagonismo crucial em meio à perplexidade e incerteza quanto ao desfecho da crise.

O capitalismo das partes interessadas (stakeholder capitalism) se tornou imperativo. A pandemia fortaleceu o modelo de capitalismo social, no qual a razão primeira da organização é a produção de bens ou serviços que promovam o bem-estar social.

Allan Murray, editor da Fortune e da newsletter CEO Daily escreveu em novembro passado não ter dúvidas de que historiadores vão olhar para os últimos anos como um ponto de virada no mundo dos negócios. A necessidade de se posicionar em relação a questões sociais e políticas está agora no centro da agenda de CEOs, assim como de líderes políticos. O recente caso do presidente francês Emmanuel Macron é o exemplo mais visível no buzz midiático.

No contexto de hiperconexão da comunicação atual, o caso ganhou contornos de “lost in translation”, com jornalistas e analistas tendo que se desdobrar para explicar em seus idiomas o (s) sentido (s) com o termo “emmerder” usado pelo residente do Palácio do Eliseu.

Segundo a mídia brasileira, Macron disse que estava com vontade de irritar muito as pessoas que não tomaram vacina. A expressão foi traduzida como “irritar, sacanear” os não-vacinados. Em inglês, a mídia optou pelo “piss them off”, com sentido também de irritar, incomodar, encher o saco.

O termo não seria apropriado à liturgia do cargo para muitos comentaristas e jornalistas franceses. A palavra é considerada vulgar, e a fala foi feita em entrevista a um jornal francês. Na sexta-feira (7/01) Macron assumiu “completamente” suas declarações, o que indica que foi um “risco calculado”. Irritou a muitos e agradou também a muitos outros. A taxa de vacinação no país é alta, está em 90%.

“Alguns podem ficar impressionados por uma maneira de falar que parece coloquial e que assumo completamente”, disse Macron em entrevista coletiva junto à chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sobre a presidência francesa da União Europeia (UE).

Macron é candidato à reeleição em abril, numa disputa que desperta a atenção mundial. A questão é exemplar para mostrar o desafio de líderes de todas as áreas de tomar posição em relação a temas sociais e ambientais em pauta na sociedade, sejam quais forem os riscos de enfrentarem reações contrárias.

Este é o contexto de hiperconexão presente hoje na comunicação multimídia e promete ser frequente em 2022, ano que se inicia com mais uma onda da pandemia e com perspectiva de volta às restrições sociais.

A questão de “falar ou não falar” sobre temas de relevância social já está presente do debate de CEOs e altos executivos desde 2021. “Não é realmente uma opção não dizer nada… Se você não fizer comentários, pelo menos uma certa quantidade de seus funcionários pensa que você não se importa ou que você não está ouvindo.”, afirmou Mike Kaufmann, CEO da Cardinal Health num evento virtual da Fortune com expoentes das maiores empresas norte-americanas em maio passado.

Outro testemunho claro de que o momento é de se posicionar em questões de relevância social foi feito por Carlos Brito, CEO da AB InBev, no mesmo evento: “Só existimos como negócios porque a sociedade nos permite existir. É simples assim. No momento em que a sociedade nos vir como parte do problema e não como parte da solução, em alguns anos nossos negócios serão irrelevantes. Eles vão desaparecer”.

Este será um desafio da gestão da reputação e exigirá maturidade, preparo e muitas habilidades de comunicação a marcas, líderes de negócios, políticos, autoridades públicas e personalidades. E será também crucial para a criação de vínculos sólidos e relacionamentos verdadeiros com todos os públicos.

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